quarta-feira, 26 de junho de 2013

Convite




Passei a semana sem comer em casa; hoje é exatamente o sétimo dia em que me aventuro nas gordices de um fast food de preço acessível. Não que a comida dos restaurantes não valha a pena, mas já que é pra comer na rua que seja comida de rua, rápida e ruim. Coloco minha bandeja na mesa com quatro lugares, no canto do salão. Comprei frango e batatas fritas e refrigerante de cola. Ao meu lado, um garoto narra à amiga as peripécias de seu fim de semana agitado com o quase namorado loiro e alto. Um pai almoça com a filha a minha frente e atrás de mim se senta um senhor robusto, de cabelos grisalhos e com uma blusa cacharel xadrez. Tem feito frio aqui, nos últimos dias, e isso me faz ter muita saudade de casa. Sinto falta de meu gélido e úmido lar da montanha, da comida de minha avó. Não tem dado tempo de cozinhar. E, de qualquer forma, eu cozinho tão mal que o crime nem chega a compensar. Melhor mesmo é ficar nessa mesa, destruindo o meu estomago com comida industrializada e acompanhada por gente que eu nunca vi. Sabe, se eu ainda estivesse em casa, e ele me convidasse para ir a sua e se oferecesse para ser o chefe da noite, eu não teria coragem nem sequer vontade de recusar. Se os tempos fossem outros eu estaria lá, comendo qualquer outra coisa que fizesse bem ao meu organismo, dividindo a minha presença com quem se importa de verdade. Ou se importou, um dia.

André era cozinheiro formado, estava cobrindo as férias de Sebastião, chefe do restaurante dos funcionários - que gostava mesmo era de ser chamado se Seu Tião -, um senhor bem gentil, o qual fazia das tripas coração (literalmente) para todos nós, e que me lembrava meu tão amado pai. Conheci Seu Tião na fila do consultório médico, eu iria fazer o exame admissional e ele checava a saúde para poder finalmente sair de férias em paz. André me conheceu num momento constrangedor, eu acabara de derrubar uma cuba com quinze cebolas bem picadinhas pelos estudantes de gastronomia do hotel-escola e todos eles me encaravam ferozes pelo deslize. Eu era aprendiz na empresa, fazia um tour de mais ou menos duas semanas em cada setor. Um deles infelizmente era a cozinha. André se sensibilizou com o meu desastre, foi logo amenizando a situação e acalmando os ânimos dos alunos; se ofereceu para me ajudar e me deixou ir até ao banheiro para lavar o rosto inchado com o choro causado pelo corte do tempero. Depois disso ficou ao meu lado o tempo todo, se certificando de que eu não faria nenhuma monstruosa besteira; rindo das minhas dúvidas básicas sobre molho de macarrão e tentando me convencer a jantar na sua casa. “Eu cozinho, juro”, dizia ele rindo de mim. Nós sabíamos que ou André cozinhava ou eu colocaria fogo em todos os ingredientes e utensílios. Mas nunca tivemos certeza, porque eu nunca aceitei o seu convite. Passei duas semanas cozinhando o garoto em fogo brando, mudei de setor e passei outras duas esperando esfriar, até que Seu Tião voltou e eu não o vi mais.

Não tinha pensado muito em André até essa semana terminar. Comer fora não era um problema até eu passar sete dias fazendo isso, ininterruptamente. Eu gostava dessas batatas, e desse frango, e desse refrigerante com gelo e sem gás, até perceber que só é divertido às vezes e faz um mal danado em excesso. Comida ruim é desse jeito, feito as paixões avassaladoras, você pensa que vai ser a melhor coisa do mundo até experimentar como rotina e descobrir que vai destruindo cada parte de você conforme passam os dias. Comida de rua é até que bonita, mas, assim como as paixões momentâneas, não sustenta. André conhecia bem essa minha história, uma pena eu não estivesse preparada o suficiente para o seu jantar à luz de velas, para o seu amor que poderia preencher muito mais do que um faminto estômago. André sabia disso e tentou me mostrar. Mas nós nunca tivemos certeza. ... Eu nunca aceitei o seu convite.