Quartas-feiras são dias vermelhos, sempre foram e sempre vão ser. Ontem, apesar do feriado, não foi diferente. Não trabalhar e não ter aula me fez revirar na cama o dia todo, ao som do vídeo antigo de Andy Williams cantando Moon River, uma das dezenas de músicas tristes que estão salvas no computador. Eu nem sequer tive coragem de mexer nos textos da faculdade e colocar a matéria atrasada em ordem, ensaiei mil afazeres importantes, porém não comecei nenhum, nada além de passar o dia atualizando minha caixa de mensagens esperando estupidamente por um recado seu. Imaginei que nós dois estaríamos com o dia vazio e que talvez você quisesse me fazer companhia em casa ou fosse me levar para fazer coisas que nunca fizemos antes, como Paul Varjak e Hollly Golightly em Bonequinha de Luxo, mas me enganei. São sete da noite e a única mensagem que recebi foi a da minha mãe dizendo: “o botão morreu antes de desabrochar, mesmo com todos os meus cuidados”.
Há dez dias eu estive em um casamento com a minha mãe, na cidade vizinha. Fiquei encantada com os lírios brancos da decoração da festa, passei a noite maquinando um plano para pegar um deles sem que ninguém sentisse falta depois. Ela, comovida com o meu desejo inquieto, pediu para uma das pessoas responsáveis pela organização do evento se podia ficar com algumas das flores que enfeitavam, principalmente, a mesa de doces. Deu-me os ramos de presente assim que a senhora, baixa e de cabelos grisalhos, autorizou. Em cada uma das mesas havia um vaso com água e rosas, tirei as flores de lá, enfiei os lírios no lugar e abracei-a, agradecendo. Cuidei deles no dia seguinte, limpei os galhos e troquei a água do recipiente por uma mais nova e mais fresca, passei tanto tempo admirando as flores que quase me esqueci do horário gravado em minha passagem. Peguei o vaso, joguei as malas dentro do carro do meu padrasto e o fiz correr o mais rápido possível até a rodoviária. Correr contra o tempo, no entanto, é sempre inviável, os minutos passados são irrevogáveis e invencíveis. O ônibus estava saindo quando nós chegamos e, com os bagageiros já fechados e minhas mãos repletas de malas, não houve outra escolha senão deixar os lírios para trás. Não tive tempo de me despedir, nem um abraço nem um recado. Recebi, alguns instantes depois, apenas uma mensagem de minha mãe, que prometia cuidar das flores e me enviar fotos do botão aberto depois. Porém ele não sobreviveu, as fotos não vieram e as quartas-feiras ainda são vermelhas longe das minhas amadas flores brancas e da companhia que você não se deu ao trabalho de fazer.
Alguém
bate na porta do meu quarto, esfrego os olhos já cansados e estico o braço até
o interruptor acendendo a lâmpada no alto do teto. Uma das garotas que mora
comigo estende o telefone em minha direção assim que abro. “É um tal de Alan”,
diz ela, curiosa por nunca ter me ouvido falar do rapaz. Alan e eu nos
conhecemos numa festa da faculdade, eu estava podre de bêbada e ele segurava um
potinho de tinta alaranjada, daquelas que brilham na luz negra; perguntou se podia
fazer um desenho em mim, pintou um coração na minha perna, depois riscou a
minha bochecha e me beijou a boca. Alan é um bom moço, gentil e romântico;
envia uma mensagem bonita todos os fins de semana, desde então. Nós conversamos um pouco
sobre coisas banais e, então, ele pergunta se pode dar uma passada. Olho o
lençol revirado em minha cama, respiro o cheiro de espera que me fez companhia
o dia todo, te procuro em alguns cantos do meu quarto mesmo sabendo que você
não veio. “Posso?”, repete ele do outro lado da linha. Balanço a cabeça antes
de dizer que sim. E peço que compre algumas flores. Não vai ser você deitado do
lado direito de minha cama, não serão os lírios brancos a decorar o meu quarto
azul-piscina, mas já é melhor que não ter nada, bem melhor que se sentir sempre
sozinha nesse vazio carmim que é não saber quem somos nós.
