Uma
amiga cutucou freneticamente o meu braço enquanto caminhávamos até a saída da
escola em que trabalho. Parei de procurar o celular na bolsa e a encarei de
sobrancelhas cerradas. Ela arqueou as suas em direção ao banco de concreto que
fica bem ao lado do portão verde de metal trançado por qual os alunos têm
acesso às salas de aula. Ali, sentado, estava o inspetor contratado na semana
passada, um moço alto, de sorriso espontâneo e discretamente fofo. Benjamin, o
irmão mais novo da mocinha ruiva do oitavo ano, ajoelhado entre as pernas do
rapaz, alisava aquele rosto com a barba por fazer e tentava compreender,
imagino, porque o novo amigo tinha tantos pelos na bochecha enquanto ele ainda
carregava a inocência da cara lisinha. Sorri acanhada quando nossos olhares se
cruzaram, e me despedi da maneira mais formal e maquinária do mundo.
Jessy acha que eu preciso de um namorado e me cutuca freneticamente sempre que vê um moço com os pré-requisitos para me despertar uma paixão. Depois fica brava e me repreende porque eu não tenho jeito nenhum para paquera. Ela faz isso tantas vezes no mesmo dia que até parece aquelas tias velhas que não conhecem um assunto melhor do que os meus relacionamentos fracassados ou inexistentes. No entanto, é uma boa menina. Casou cedo e ainda não teve filhos, mas, eu sei, vai ser uma mãe excelente. Tem cuidado bem de mim mesmo sem perceber.
Despeço-me dela no terminal e corro para minha aula de italiano. No trajeto até a outra escola, escuto dois homens conversando sobre pegar a cachorra de alguém. Não consigo distinguir se é mesmo uma cachorra animal ou uma garota cachorra. As pessoas falam muito baixinho e minha cabeça parece que vai explodir. Desligo-me do dialogo alheio e abro a página de notícias virtuais do meu celular. Olho algumas chamadas até me atentar a uma especifica. Ela fala sobre cadeados nas passarelas de Paris. Amplio a e começo a ler com mais calma.
Segundo o jornal online, a prefeitura irá eliminar os cadeados do amor das pontes da cidade. As chaves, jogadas no rio Sena, continuarão imersas. No lugar das trancas a prefeitura incentiva selfies entre os mais apaixonados. Aquelas mesmas selfies que eles tiram em restaurantes, bares, festinhas de criança, samba, circo e show de rock. Aquelas fotos de nós mesmos, aquilo que todo mundo pode fazer o tempo inteiro em qualquer lugar. E pensar que podiam trocar por fitinhas, cartinhas, figurinhas de chiclete. Mas não. Cadeados do amor por selfies de todo dia e toda minha esperança por um fio é sempre mais divertido. Os amores em que eu acreditei por aqueles em que nem me arrisco a levantar da cama, sempre. Sempre assim.
E
não que eu esteja aqui defendendo despejar tanto peso sobre as passarelas da
cidade luz até despencá-las não, mas, sei lá, fiquei com uma dorzinha no fundo
do peito. Tem amores ali que ainda estão vivos apenas nas trancas de metal
penduradas pelas pontes da cidade. E matar amores me faz morrer um pouco mais
também. Tirar de lá todos aqueles cadeados me faz lembrar que preciso arrancar
da gaveta tudo o que ainda restou de nós dois, jogar fora o cd que você gravou,
apagar a nossa foto do plano de fundo do computador, e ouvir os conselhos da minha amiga. Libertar as pontes de Paris é me libertar de você, deixar para trás a
nossa história e permitir o caminhar de algum outro sem aquele medo bobo de que
a qualquer momento nós iremos cair. Tirar aqueles cadeados é tirar também estes
que estão em mim.
