A escola na qual
trabalho entrou numa vibe sustentável: desde que as aulas recomeçaram, depois
das férias de julho, eles não distribuem mais copos descartáveis. "Nada
que polui" é o nosso novo lema. E serve para todos. As crianças precisam
trazer garrafinhas e quando esquecem, além dos avisos proferidos pelos mais
velhos, têm que estender as mãozinhas em formato de cuia e se virarem com o
possível. Os adultos, apesar de poderem usar os copos de vidro guardados na
cozinha, também tem trazido seus próprios fracos por questão de exemplo. O
bebedouro, que possui uma caixa de metal bem grande com água geladinha dentro,
tem as mesmas quatro torneiras, mas, diferente de antigamente, nenhum copo
plástico pendurado no suporte ao lado. Eu, que não pude ficar de fora desse
ambiente ecologicamente correto, também tenho carregado na bolsa uma caneca.
De um plástico mais
resistente que dos materiais os quais usamos e depois jogamos fora, minha
caneca cor de rosa foi quase um presente. Vi-a pela primeira vez em uma festa de boas
vindas da universidade, nas mãos de um calouro de cabelo raspado, graduando em
um curso completamente oposto ao meu. De alumínio, estampado com uma caricatura
do poetinha, o copo que eu segurava naquele momento carregava por dentro uma bebida clara e doce que me fez, já meio alterada, caminhar em direção ao
desconhecido e dizer "oi" como se fossemos amigos há décadas. Peguei
a sua caneca, entreguei a minha, e as outras coisas que trocamos naquele dia
ninguém precisa saber agora.
Sempre que me dirijo ao
filtro, várias crianças se amontoam a minha volta, adoram me ver segurando o apetrecho
espalhafatosamente colorido, querem tomar água ali também. Meio egoísta, no
entanto, abraço o copo e explico que boca de adulto é uma coisa muita suja e
que impureza passa bem fácil de um lado até o outro. Eles me encaram
intrigados, ficam meio tristonhos mas superam rápido, depois pegam as suas
garrafas ou formam uma concha com as mãos pequenas e matam a sede feito
gatinhos novos e ababelados. Volto a caneca na bolsa e, enquanto os alunos tiram
das mochilas os seus estojos, sento-me a mesa na sala de aula. Maria Luiza, de
quatro anos, corre em minha direção, me abraça e chacoalha uma caneca, também
cor de rosa, bem debaixo do meu nariz e profere animada: “Minha mãe comprou,
teacher! É quase igual a sua!”. Sorrio e concordo veemente ainda que saiba quão
diferentes são os nossos copos. O dela, uma prenda. O meu, escambo disfarçado
de recordação.
Respiro fundo, recolho as atividades, termino a aula quinze
minutos antes da hora e lavo o meu copo na cozinha. Levo as crianças em fila ao
bebedouro e anuncio que hoje todo mundo que quiser pode beber usando a minha
caneca. Elas se animam imensamente, pulam, gritam e, aos poucos, vão matando a
sede com a ajuda da minha bugiganga. Depois me abraçam e agradecem a
partilha. Se Vinicius estivesse estampado naquele copo, talvez eu não dividiria.
Mas, como não está, fico aqui tentando não poluir, lembrando um pouco daquele rapaz calouro
e esperando que as coisas voltem a ser como foram um dia.
