sábado, 28 de janeiro de 2012

Mais macho que muito homem

          
           Andei lendo umas legendas em fotos de mulheres com corpos esculturais, na internet, que diziam mais ou menos assim: “e ainda tem ‘homem’ que não gosta”. Oi? Acho que não entendi muito bem essa parte. Então, a opção sexual é que define a masculinidade de alguém? É assim que vocês pensam? Eu sou menino, gosto de meninas e, pronto, sou um homem. Tenho um membro no meio das pernas que se enrijece por causa de uma mulher e - como num passe de mágicas – sou o macho alfa. Sério? Torna-se, então, varão apenas por gostar de mulheres? 

           Ele não abre a porta do carro, nunca, nem quando é Dia dos Namorados ou o seu aniversário. Flores - já deixou bem claro - só no enterro. Trabalha pouco, mas, ainda assim, chega em casa e deita no sofá antes mesmo de lhe dar um beijo cujo qual esperastes a manhã inteira. Tira os sapatos e os joga no meio da sala esperando que você os tire logo dali, por causa do cheiro um tanto quanto desagradável. Estica as pernas, coloca a meia furada em cima da mesa de centro e grita logo pedindo comida. Ele se julga cansado demais para levantar e ir até a cozinha ver que tem queijo parmesão ralado e derretido sobre as suas panquecas. Este é o prato mais lindo de todos os pratos que já preparou, mas ele não se levanta. Come de boca aberta, com direito a arroto alto e todas estas porcarias que o cara só deve fazer longe da esposa – ou com o consentimento dela, caso isso seja possível. Depois de toda a exibição incongruente, o querido toma banho – ou não, dependendo da higiene pessoal necessária pré-estabelecida por ele – e corre logo para cama. Chama-te para estar junto não porque sentiu sua falta, mas para que sacie seu apetite sexual. Ele acaba antes de você, claro, e sem lhe fazer um único afago, vira-se para o lado e começa a roncar. Ele é homem só porque gosta de mulheres? Segundo os “cérebros de azeitona” que me cercam: ele é.
          
          Para mim, não. Conheço homens que não gostam de mulheres e são muito mais homens do que todos os que gostam juntos. Aquele garoto - meio afeminado o qual a maioria das pessoas descrimina - esteve ao seu lado quando o outro te deixou. Você ligou para ele, provavelmente, chorando, porque estava sozinha em uma casa noturna enquanto o salafrário que todos chamam de homem, antes sua companhia, beijava agora uma garota meio bêbada e ruiva. Queria sair gritando atrás daquele patife e dizer poucas e boas, eu sei, mas não foi. Graças ao amigo e salvador – porque se não fosse ele estaria passando por louca até hoje – esqueceste o garanhão de meia tigela a base de muitas gargalhadas e sorvete de chocolate.  Do cara – que para muitos não é homem -, você ganhou flores fora de datas comemorativas (ainda que estas fossem arrancadas do jardim vizinho), chaveiros com as iniciais de seus nomes, versões novas de músicas super conhecidas, abraços espontâneos, um carinho abrangente e sem fim. Sentiu-se feliz e bonita - sim, porque não existe ninguém melhor do que os gays para levantar o nosso astral. Descobriu que pra ser homem, gostar de mulher é muito pouco. É preciso estar com você no final do dia – de preferência, dizendo que os seus olhos são lindos -, te ligar depois da bebedeira pra perguntar se está tudo bem, não esquecer o seu aniversário ou o seu chocolate preferido. Opção sexual, neste caso, não passa de um acessório sem importância. Companhia é mais válida do que desejo. Porque é disso que a gente sente falta, sabe.

           Homem que gosta de mulher qualquer um consegue ser, difícil é estar do lado quando a maquiagem derrete e o cabelo não se encontra lá àquelas coisas.
         

quarta-feira, 18 de janeiro de 2012

Gritante



           "Eu sou simpática, não estou te dando mole". Quem nunca ouviu ou disse ou, pelo menos, pensou em dizer essa frase blasé, que atire a primeira pedra.

           Como imaginei: Nenhuma pedrada à vista. Afinal, clichê ou não, esse é o jeito mais usado por nós - mulheres na maioria das vezes, se não todas - para dizer que não-estamos-nem-um-pouco-afim. Uma forma clara e não muito delicada de demonstrar que a linha da amizade jamais será ultrapassada. Exatamente, eu disse JAMAIS com letras maiúsculas e gritantes. Mulher quando não quer, não quer e ponto, não adianta insistir, persistir e muito menos correr atrás. Por favor, se elas dizem não ou qualquer outro sinônimo disso, desista. Não é não. E somente não.

           Olha querido, você se veste mal, pronuncia Craudia e bicicreta - o que me irrita profundamente -, e cospe na minha cara quando fala. Sim, seria deselegante e de muito mau gosto soltar todas essas verdades na cara do menino que se julga perdidamente apaixonado por você. Eis, então, que surge a sentença heróica para nos salvar. Solte-a no ar, diga para os amigos (dele, de preferência), poste-a em redes sociais, isso mesmo, divulgue o tempo todo, e quando menos se der conta – puft! – o cara retira o currículo de futuro namorado.

           Porém, como tudo na vida, essa frase tem o seu lado ruim. Sim, RUIM com letras maiúsculas e gritantes, repito. Nós nos tornamos prisioneiras deste ditado infernal. Não entenderam? Pois bem, tentarei explicar. Pensem na infinidade de homens interessantes que ouviram essa peculiaridade feminina em algum momento de suas vidas e, mais tarde, desistiram de uma garota simpática. E não, meus queridos, ela não estava só sendo simpática, ela queria um beijo, um beijo daqueles que tira o fôlego, a roupa e tudo mais; ela estava afim, muito afim. E eu nem perderei tempo dizendo como se encontram as letras desse MUITO.

           Nós nunca paramos para pensar, mas o bobo babão tem um amigo que, ao contrário dele, sabe se vestir, fala o português correto e um inglês fluente – sem cuspir no seu cabelo hidratado, o que é ótimo -, é divertido e cheira a perfume importado. Nós nunca nos demos conta de que ao dizer aquela locuçãozinha do inferno pro diabo o anjo poderia escutar. O tiro saiu pela culatra e destruiu o coração errado. Porque sejamos sinceras, meninas, quem realmente precisava tomar esta sentença como mantra nem se quer tenta entendê-la.

           Agora, cá estou eu, há semanas sendo simpática demais, tentando fazer aquele deus grego perceber que a minha pose de boa moça requer muito mais do que amizade. Entendam meninos: a frase – heróica ou vilã, não se sabe ainda –, presente no começo deste texto, não se enquadra a todos vocês. Não mesmo. Definitivamente, não. Portanto, perdoem-me, perdoem todas as mulheres que fizeram vocês, homens interessantes, que cozinham bem e são inteligentes, pensarem que estávamos sendo somente simpáticas.

          Podem ficar tranquilos e corresponder as minhas indiretas: se as mandei é sinal de que os quero, porque se não quiser vou dizer com letras maiúsculas e gritantes, sem rodeios, sem desculpas, sem ditados ou frases feitas.

terça-feira, 10 de janeiro de 2012

Sinto

          Não foi ele, jamais seria ele. Fui eu. Eu o deixei.  Da maneira mais escrota do mundo abandonei o único cara que realmente me deu valor – até hoje. Fiz com que o único garoto um dia, verdadeiramente, apaixonado por mim, me odiasse no outro. Deixei-o plantado no portão de casa, chorando, enquanto eu ia curtir a vida. Olhei-o do jeito mais frio que pude e disse que tinha acabado, assim, sem explicações extras ou dizeres consoladores de que a separação era o melhor a se fazer, naquele momento, para nós dois. Eu não me importei em como ele se sentiria sem mim. Achei que seria fácil. Manter distância de alguém tão inconstante deveria ser, pelo menos. Eu fui com outro para que ele visse, para que tivesse certeza de que não havia mais nada entre nós. Eu não sentia mais nada. Era livre e desimpedida. Ele estava atrás do prêmio errado. Não valia a pena lutar por mim. Não valia a pena amar-me tão rapidamente, daquele jeito doce e intenso. Simplesmente, não valia.

           Eu gostei dele - ainda que o tenha renunciado de maneira tão desumana -, gostei mesmo. Só não digo que amei, porque se fosse amor não teria, de forma alguma, feito o que fiz. Eu não o deixaria. Não de forma tão egoísta. Eu teria dito que era confusa demais, transeunte demais, e triste demais para estar ao lado de um alguém tão necessitado de atenção. Eu teria dito que gostava mais quando o cabelo dele era roxo e bagunçado, e não que o moicano era ridículo. Teria pedido, carinhosamente, para ele tirar aquele novo piercing porque um é bem mais sexy do que dois. Pediria perdão por dizer que o amava quando deveria ter dito que não queria perde-lo. Eu não estaria mentindo assim. Eu queria gritar: “Olha, não sei se isso tudo é amor, mas sei que não quero te ver longe. É o bastante? É o suficiente pra você continuar gostando de mim?” As respostas eu nunca vou obter, mas qualquer coisa seria melhor do que mentir– ou dar certeza de um sentimento o qual ainda não tive conhecimento exato de sentir, que seja. Teria sido menos rude, menos arrogante. Teria sido menos eu, por ele.

           Mas não, eu não podia, precisava ser radical, fazer ele me esquecer antes que me perdesse por aí. Tinha de afastá-lo para não ver ele se afastar de mim. Fazê-lo me odiar para não sufocar com um amor o qual eu não tinha nem idéia se correspondia ao mesmo nível. Eu não podia mais vê-lo tão completo ao meu lado, quebra-cabeças de mil peças. Fui embora, então. Um olhar de despedida, e nenhuma palavra animadora, nenhuma esperança. Um coração trucidado, outro jogado para as traças. A princesa vestida de bruxa, fugindo com um plebeu qualquer, deixando pra trás, na calçada velha, o príncipe com olhos vermelhos. Uma história de pouco tempo, muito pouco tempo, e sem final feliz. Um monstro de olhos claros e cabelos compridos, um gladiador corajoso com a espada cravada no próprio peito. Um conto criado por mim, onde eu era a vilã. Ele acreditou, exatamente como planejei, claro. E acabou, foi o fim.

           E, agora, já longe da história - de tê-lo visto sofrer, irredutível, de ter acompanhado, de longe e feliz por dentro, ele se recuperar -, por incrível que pareça, eu me pego com saudades. Pensei em nós, há uns dias atrás, em como teria sido. Senti ciúmes por vê-lo tão próximo de uma amiga. Tive vontade de ligar e dizer pra ele se afastar dela porque esse romance sem compromisso dos dois anda me machucando. Pensei em escrever contando que me arrependo do que fiz; que era imatura, que as coisas estavam difíceis; que eu às vezes surto e que aquilo tudo, talvez, tenha sido fruto de minha psicologia instável. Nada. Não fiz nada disso. Com que direito, afinal, faria? Silenciei cada um dos sentimentos direcionados a ele, presentes em mim. Não contei a ninguém. Senti vergonha, depois de tudo. Eu ainda sinto. Sinto tanto. Sinto muito.

segunda-feira, 2 de janeiro de 2012

Saudade


            As pessoas falam de saudade como se soubessem, realmente, o que ela representa. Metade não tem nem ideia do que este sentimento simboliza a fundo. Citam frases de Bob Marley sobre lágrimas e cantam músicas de Caetano sobre lembranças inesquecíveis. Elas falam de nostalgia o tempo todo, como se o mundo precisasse saber o que acontece dentro de cada um. Saudade é palavra sem tradução e, portanto, é melhor não tentar se explicar. O mundo, ainda que todo, não entenderia. Você sente e silencia. Como naquele velho ditado de que quem cala, consente. Quanto mais quieto fica, mais adjacente torna-se a tal. Você a conhece tão de perto que ela resolve ficar, faz morada.

            É de alguém que a gente sente falta, na maioria das vezes, se não todas. De um ente querido, de um amigo, de um amor. Da criatura cigana que você escolheu, impulsivamente, para ser sua companheira. Ela se vai, mais uma vez, e você, do lado de fora do ônibus com os olhos úmidos e vermelhos, acata a decisão, apóia, se despede como se fosse possível visitá-la em breve. Do amigo que se foi sem dizer adeus. Não escolheu. Ironia do destino, vontade divina, inconseqüência. Pra esse tipo de saudade busca-se alivio em n justificações. Você fala de suas façanhas como se fosse possível mantê-lo vivo assim. Conta do sorriso e do brilho do cabelo para não ter de lidar com a tristeza que é o esquecimento total. Saudade, também, daquilo que por muito tempo foi importante, mas que depois deixou de ser; das lembranças de algo bom, que marcou, porém não teve o privilegio de ficar. Do passado que precisou ser deixado pra trás – por falta de amor, por falta de tempo, por falta de afinco, quem é que sabe. Tudo o que se sabe, é que deixou saudade.

            Saudade essa que me fez, durante um mês, contar dia após dia e riscá-los do calendário; olhar o mínimo possível, durante uma semana, para o relógio de pulso, e fazer com que a falsa sensação de que o tempo voa quando a gente se distrai se tornasse verdade.  Saudade essa que me fez desejar um final de semana eterno não porque queria encher a cara, curtir a balada ou não ir pro trabalho, mas porque estava perto dele. Era revellion e ficar dentro de uma casa foi o menor de todos os problemas já enfrentados por mim – menor até que a unha quebrada do dedo mindinho, ou as raras pontas duplas dos fios revoltados. O bairro, a casa simples e os móveis amontoadas, os fogos de artifício que em outra época causavam-me medo, a cor da roupa ou os sapatos que antes, necessariamente, precisavam ser coloridos, mas que foram facilmente trocados por sapatilhas de plástico, as pessoas que falavam auto demais e as crianças correndo na rua sem os pais por perto. Nada poderia atrapalhar aquele momento. Os gritos, a farra, tudo aquilo que eu disse ser deselegante e passei o ano todo mantendo distancia pareceu tão pequeno diante do olhar profundo cujo qual ele direcionava docemente a mim. Eu não precisava de mais nada; passaria 2012 assim, te olhando, matando cada pormenor desse sentimento.

            Percebi, então, que a saudade é psicopata: quando não está matando a gente por dentro, nos enlouquece e se suicida. Ela corroe cada membro, cada fio, cada detalhe, toma conta de tudo e aprisiona sem pena. Enjaula até que o que te faz falta vem libertar. Percebi que saudade quando prestes a morrer faz a gente ser feliz com arroz, feijão e ovo; faz viver de sorrisos e respirar amor. A saudade – que apesar de parecer, não mata – faz a gente dar valor.