Não foi ele, jamais seria ele. Fui eu. Eu o deixei. Da maneira mais escrota do mundo abandonei o único cara que realmente me deu valor – até hoje. Fiz com que o único garoto um dia, verdadeiramente, apaixonado por mim, me odiasse no outro. Deixei-o plantado no portão de casa, chorando, enquanto eu ia curtir a vida. Olhei-o do jeito mais frio que pude e disse que tinha acabado, assim, sem explicações extras ou dizeres consoladores de que a separação era o melhor a se fazer, naquele momento, para nós dois. Eu não me importei em como ele se sentiria sem mim. Achei que seria fácil. Manter distância de alguém tão inconstante deveria ser, pelo menos. Eu fui com outro para que ele visse, para que tivesse certeza de que não havia mais nada entre nós. Eu não sentia mais nada. Era livre e desimpedida. Ele estava atrás do prêmio errado. Não valia a pena lutar por mim. Não valia a pena amar-me tão rapidamente, daquele jeito doce e intenso. Simplesmente, não valia.
Eu gostei dele - ainda que o tenha renunciado de maneira tão desumana -, gostei mesmo. Só não digo que amei, porque se fosse amor não teria, de forma alguma, feito o que fiz. Eu não o deixaria. Não de forma tão egoísta. Eu teria dito que era confusa demais, transeunte demais, e triste demais para estar ao lado de um alguém tão necessitado de atenção. Eu teria dito que gostava mais quando o cabelo dele era roxo e bagunçado, e não que o moicano era ridículo. Teria pedido, carinhosamente, para ele tirar aquele novo piercing porque um é bem mais sexy do que dois. Pediria perdão por dizer que o amava quando deveria ter dito que não queria perde-lo. Eu não estaria mentindo assim. Eu queria gritar: “Olha, não sei se isso tudo é amor, mas sei que não quero te ver longe. É o bastante? É o suficiente pra você continuar gostando de mim?” As respostas eu nunca vou obter, mas qualquer coisa seria melhor do que mentir– ou dar certeza de um sentimento o qual ainda não tive conhecimento exato de sentir, que seja. Teria sido menos rude, menos arrogante. Teria sido menos eu, por ele.
Mas não, eu não podia, precisava ser radical, fazer ele me esquecer antes que me perdesse por aí. Tinha de afastá-lo para não ver ele se afastar de mim. Fazê-lo me odiar para não sufocar com um amor o qual eu não tinha nem idéia se correspondia ao mesmo nível. Eu não podia mais vê-lo tão completo ao meu lado, quebra-cabeças de mil peças. Fui embora, então. Um olhar de despedida, e nenhuma palavra animadora, nenhuma esperança. Um coração trucidado, outro jogado para as traças. A princesa vestida de bruxa, fugindo com um plebeu qualquer, deixando pra trás, na calçada velha, o príncipe com olhos vermelhos. Uma história de pouco tempo, muito pouco tempo, e sem final feliz. Um monstro de olhos claros e cabelos compridos, um gladiador corajoso com a espada cravada no próprio peito. Um conto criado por mim, onde eu era a vilã. Ele acreditou, exatamente como planejei, claro. E acabou, foi o fim.
E, agora, já longe da história - de tê-lo visto sofrer, irredutível, de ter acompanhado, de longe e feliz por dentro, ele se recuperar -, por incrível que pareça, eu me pego com saudades. Pensei em nós, há uns dias atrás, em como teria sido. Senti ciúmes por vê-lo tão próximo de uma amiga. Tive vontade de ligar e dizer pra ele se afastar dela porque esse romance sem compromisso dos dois anda me machucando. Pensei em escrever contando que me arrependo do que fiz; que era imatura, que as coisas estavam difíceis; que eu às vezes surto e que aquilo tudo, talvez, tenha sido fruto de minha psicologia instável. Nada. Não fiz nada disso. Com que direito, afinal, faria? Silenciei cada um dos sentimentos direcionados a ele, presentes em mim. Não contei a ninguém. Senti vergonha, depois de tudo. Eu ainda sinto. Sinto tanto. Sinto muito.

Nenhum comentário:
Postar um comentário