sábado, 25 de fevereiro de 2012

Equilibrista

          
            Olho para o céu como se pudesse segurar a chuva por alguns instantes, mínimos, que seja, só para dar tempo de chegar ao ponto de ônibus, segura, com o sapato sem lama e no pé, o guarda-chuva com as oito pernas intactas e a roupa não tão molhada. Encaro com firmeza o azul marinho que de tão marinho ficou acinzentado, mas é inevitável. Eu não o acovardo. Os pingos vão cair, mais cedo ou mais tarde, quer você queira ou não. A rua anda movimentada, mas é carnaval e tudo se movimenta no carnaval. Compreensivo. Preciso andar na guia porque na calçada tem barro e grama. E eu não gosto de barro nem de grama. Até gosto de grama, mas sem barro e sem bicho. Gosto de grama de jardim, não de rua. A guia foi pintada de amarelo há muito tempo atrás, e digo há muito tempo atrás porque a tinta fraca deixa o cimento se sobressair em alguns pontos. Um pé atrás do outro, um pé atrás do outro. É como o mantra de um equilibrista. As buzinas ecoam, não sei se por pressa ou para chamar a minha atenção. Gosto de pensar que é por pressa, que todo mundo ali tem coisas demais a fazer e nem se dão conta de que uma menina, distraída e de echarpe verde, anda na guia da calçada como se estivesse em uma corda bamba.
    
          Um pé atrás do outro, um pé atrás do outro. Foi medindo os passos que vi as horas passarem, tentando não pensar em você. Eu criei uma teoria estúpida de que só te vejo quando não quero ver, então, fico pensando que não quero te ver só pra, de repente, te ver. Ainda estou trabalhando nessa estupidez, mas, no fundo, sei que é só a ideia sem nexo do momento. O meu cérebro cria uma estratégia sem nexo quando lhe convém, pra ver se eu acordo pra vida ou durmo de vez. O ponto de ônibus está a menos de um quarteirão quando a chuva começa a cair. Anda chovendo muito por aqui. Minha avó diz que é normal, que as quedas d’água vão durar até o final de março, que isso é bom porque assim as temperaturas não aumentam, e que ter paciência é a única solução. Eu nem sei por que ela se explica tanto, não me importo com a chuva. A chuva é o menor de todos os meus problemas.
    
           Há dois cachorros na rua, eles são preto e branco. Preto e branco e preto e branco. Duas cores cada um. Seus olhos estão tristes e eu percebo, então, que olhos podem ficar tristes mesmo sem lágrimas. E que cachorros não gostam de tomar chuva tanto quanto as pessoas grandes. As crianças adoram tomar chuva. Eu fazia o possível e o impossível para tomar chuva e dizer ao meu pai que não tive escolha. O meu irmão mais novo começou 2012 chorando porque queria ficar na chuva e ninguém deixava. Vejo adultos emburrados por causa dos pés encharcados, cachorros com frio, e crianças achando todo aquele aguaceiro o maior barato.  Eu tinha me esquecido de você por uns minutos, tinha perdido a noção do tempo e já não contava mais os passos. Não pensei em você até encontrar o João, que é seu amigo e meu amigo, e me lembrar de que nós estávamos tão perto um do outro. Algumas quadras, um pouco de água e um pé atrás do outro. Um pé atrás do outro. Como uma equilibrista que pensa em tudo, menos na corda abaixo de seus pés.
    
           A chuva de outrora já não é mais a mesma. Os pingos de agora não tem força para penetrar meu cabelo. Embolo o guarda-chuva, mas não o coloco na bolsa. Sempre tem um livro na minha bolsa. Olho para o céu, dessa vez sem querer intimidá-lo, e vejo que o seu azul já não é mais marinho, e muito menos acinzentado. Ele está ficando claro e por trás do pouco escuro que ainda resiste tem um sol querendo sair. E eu torço, em silêncio, baixinho, com o coração pulsando mais forte que o normal, pra que ele consiga. Vamos sol, você consegue. Um pé atrás do outro. Um pé atrás do outro.

sábado, 18 de fevereiro de 2012

Todo mundo


           Eu deveria tratar você como outro qualquer. Deveria conversar e ser educada, nunca indiferente, não deveria, de forma alguma, fazer caretas e agir como se tivesse seis anos ao invés de quase 19. Mas você não é outro qualquer. Eu acho que não, o meu coração grita que não. O meu cérebro já se calou faz tempo. Eu tento não olhar quando você grita psiu, mas, sabe, tinha de olhar e dizer um oi bem feliz, daqueles que eu digo pra todo mundo. Mas você não é todo mundo. Eu não penso em todo o mundo o tempo todo. Eu não crio roteiros para todo esse povo, não sonho com eles, não imagino como seria o beijo deles ou as suas mãos em minhas mãos.
        
           Eu não deveria ter levantado daquela cadeira quando você me chamou para ir embora. Mas precisava levantar, já era tarde e a vida não para. A minha vida não para, pelo menos. A chuva caiu, como previsto, mais tímida e mais quente do que de costume. Eu ri das suas piadas idiotas sobre energias negativas que se juntam e ficam positivas. Idiotas. Eu e você somos dois completos idiotas. Um fingindo que se importa, outro fingindo que não está nem aí. Era Valentine's Day e nós caminhamos na chuva. Que droga estamos fazendo? Eu não posso gostar de você. E já não gosta? Mais. Eu não posso gostar de você mais do que já gosto.
        
           Dá pra acreditar que tem um livro zanzando na minha bolsa há 56 horas? Você me contou que era dia de São alguma coisa na Espanha e que, nesta data comemorativa pouco conhecida, mulheres devem dar um livro aos homens para receber uma rosa em troca. Não lembro o nome do santo porque olhei por detrás de seus óculos sem armação e percebi que olhos podem sorrir. Cadê o meu livro? E a minha rosa? Mais do que depressa, enfiei um livro na bolsa. Fiquei esperando a porcaria da rosa. Tenho a impressão de que vou carregar o livro pro resto da vida e esperar pela flor por ainda mais tempo. Você precisa parar de dizer essas coisas. E de me chamar de amor. Precisa parar, principalmente, de me chamar de amor. Eu odeio que me chame de amor ainda que esse apelidinho tosco saia lindo da sua boca. Não me chame de amor, por favor. Você por acaso me ama? Não, você não. Mas eu sim. Acho que sim. E isso machuca.
        
           Tinha um guarda-chuva na minha bolsa e não o tirei de lá até você entrar em casa. Eu não queria estar protegida enquanto você se molhava. Meu Deus, o que é isso? Eu tomei uma droga de chuva por sua causa. E pra que? Pra chorar depois, sem que ninguém percebesse? Pra ficar com ideias mirabolantes e sem nenhum nexo do quão apaixonado você pode estar, ou não? Eu sempre acho que não, mais do que acho que sim. Foi pra isso, claro, eu devo gostar muito de sofrer. Devo gostar ainda mais de fantasiar, mas fantasiar tanto, que a fantasia quase beira a loucura. Eu sou louca. É, sou completamente louca.
          
           Eu deveria ser cordial, gentil, não tão séria e misteriosa, mais leve, menos boba. Eu fico tão boba perto de você que é até meio bobo contar isso, aqui. O roteiro antes ensaiado se embaralha, as palavras minuciosamente gravadas não saem e as poucas que saem me dão vergonha. Eu deveria ser normal com você, como sou com todo mundo, mas você não é todo mundo e isso me faz parecer meio louca.

sábado, 11 de fevereiro de 2012

Falta

           
           Sempre distante, eu nunca corri atrás de ninguém, contam-se nos dedos as vezes que pedi desculpas ou reconheci um erro em público. Difícil de lidar, cheia dos gostos e desgostos me fiz exigente em ocasiões mais do que simples. Tornei-me seletiva ao extremo. Não quero você e ponto. Quem fizer questão da minha presença, que me siga. Nunca me achei ilustre, imagine, não tenho pose de rainha do baile nem de líder de torcida; eu faço mais o tipo da nerd esquecida, da garota meio atrapalhada com quem o pessoal do fundão gosta de conversar. Eu sou individualista, e só. Não gosto de atenção demais, nem de beijo no rosto ou mensagens todo santo dia. Quero mais é que você me esqueça, um pouco, e só um pouco; eu preciso sentir sua falta pra não te esquecer.
         
           Afasto-me de todo mundo, um dia ou outro, e volto: só pra sentir saudade. Todo mundo, menos você. Eu te ligaria de 5 em 5 minutos, só pra ouvir aquele “eu te amo muito”, se as ligações para celular custassem um pouquinho menos, correria uma maratona pra te ter por perto, comeria cebola e tomaria leite, escutaria música sertaneja e pintaria o cabelo de loiro gema de ovo, isso, aquela cor ridícula que todo pagodeiro usa e que eu detesto. Deixaria de ser exigente, pularia carnaval, limparia os móveis todas as sextas-feiras, colocaria roupas mais apertadas e sapatos mais altos. Eu não selecionaria nem os meus textos; seria a mais popular e ficaria com o garoto que tem maior influência sobre a cidade. Eu viveria em um lugar quente por você, e só por você. 

         É que eu sinto muito a sua falta. Eu queria tanto que a sua atenção fosse voltada toda para mim, um dia pelo menos, queria ver-te abrindo mão de algo importante para me encontrar na rodoviária mais próxima, que seja. Eu esperei que você chegasse à plataforma 6 naquele começo de dezembro, esperei até não poder mais esperar, até sair da cidade e ter a certeza de que ficaria meses e mais meses sem te abraçar. Eu queria que você me ligasse uma vez por semana, no mínimo, que me amasse um pouco mais do que ama o seu marido e que, nunca, nunca tivesse me deixado. Eu me culpo por ter passado anos não querendo ser como você, com medo das semelhanças que haviam entre nós. Olhei-me no espelho, várias vezes, rezando para que Deus – se é que ele existe – tivesse me feito diferente. Você tem ideia de como isso foi difícil? De como me arrependo por ter tido vergonha de você? Eu não gostei de cortar nenhum dos meus bolos de aniversário sem sua presença.  Eu queria te perguntar como é que a gente sabe que está apaixonada, mas isso seria estranho por telefone ou carta. Queria ver você nas reuniões da escola - tendo orgulho das minhas notas altas e do comportamento impecável -, e nas apresentações de fim de ano, ainda que meu desempenho em público caia uns trinta por cento, mas raramente vi.
        
           Você me defendeu da madrasta que nos anos de rebeldia parecia má, e do pai que também nessa época era ciumento demais, apoiou todas as tatuagens, me ouviu chorar, resmungar, me visitou no hospital quando aquela droga de cirurgia precisou acontecer, mas ainda assim não estava totalmente lá. Você esteve sim, muitas vezes, ao meu lado, mas poucas perto de mim. E eu sinto a sua falta. Sempre senti. Nunca disse, porém senti. Eu queria mais vezes você, e mais e mais vezes, ou motivos para te visitar ao invés do papai. Queria ver-te abandonando alguém por minha causa, para poder abandonar por sua. Queria poder chamar mãe todo dia, como as crianças fazem, como se esse fosse o nome mais doce do mundo.

quinta-feira, 2 de fevereiro de 2012

Ímpar


           Muita gente, hoje em dia, fala que é impossível ser feliz sozinho. Eu, sinceramente, não sei quem redigiu primeiro esta frase - e nem procurei saber para lhes contar, porque não me importa -, mas sei que quem a escreveu não queria que ela fosse interpretada de maneira tão erronia. O autor, com certeza, estava se referindo ao egoísmo quando a proferiu, a quem acha que só precisa de si mesmo para estar pleno, sem amigos, sem família, sem qualquer laço de afinidade que se crie por estas andanças. Porém, quem lê logo pensa – e espalha, o que é pior – que estando solteiro não se encontra a felicidade. Gente, para, é impossível sozinho, não solteiro. Defendo a tese (e nunca deixarei de defender) que status de relacionamento não foi e nem será, jamais, sinônimo de felicidade. Quantos casais entediados e a ponto de encararem um divórcio eu conheço; namoros que duram um ou dois meses, no máximo. Traições, desventuras, comodidade. Quantos solteiros encontro por aí, sorrindo a toa, lendo, viajando. Precisar de uma aliança para ser feliz é tão sem nexo.

           Não me entendam mal. De forma alguma sou daquelas que favorecem a solteirice a fim de estar sempre disposta para balada ou livre para os “peguetes” da vez. Longe de mim. Já fui muito festeira quando tinha quinze anos, confesso, mas desde que completei dezoito tenho preferido filmes antigos e descobertas musicais via internet. Prefiro a companhia da minha avó - que, na maioria das vezes, é mais divertida que muita gente – às noites não tão agitadas de Campos do Jordão. Tão melhor vestir aquele meu pijama de algodão nada sexy ao invés de por o pretinho básico, salto, e tentar impressionar quem nem se importa comigo só para, mais tarde, talvez, dizer que tenho um namorado. Sair por aí à caça não é o meu forte. Nem quero que seja, porque, pra mim, a felicidade individual não tem nada de impossível.
         
           Claro, não saiu gritando aos quatro ventos que não quero ou não preciso de um namorado, imagine, seria ridículo. Mas não espere que eu vista a saia mais curta que encontrar no guarda-roupa bagunçado, tome um copo de vodka sem gelo, e beije o primeiro que aparecer, e o segundo, e o terceiro (se preciso), até que algum resolva se apaixonar e me ofertar o tal do relacionamento sério. Não é de meu feitio conquistar, correr atrás, chamar atenção e bancar a carente. Eu não sou assim, e sei que não quero ser. Os livros andam sendo companheiros muito melhores do que os garotos de dezoito anos e as meninas que morrem de amores por eles. As descobertas musicais me acalmam muito mais do que qualquer bebida alcoólica e luzes que acendem e apagam sem parar deixando-me meio zonza. Sim, sou feliz sozinha. Solteira, quero dizer. Sou feliz sem um namorado, um amante, um marido, que seja - ainda que ninguém acredite
           
           É, é isso mesmo, sou uma ótima companhia para eu mesma e não me trocarei por qualquer um. É assim que funciona: a gente precisa, antes de tudo, ser o melhor para nós, e só depois nos oferecer para os outros. Tem que estar inteiro, ser inteiro. Eu não me entrego pelas metades e, portanto, não as aceitarei. Muito melhor estar feliz sem ninguém do que espalhar retalhos de quase amor por aí e perdê-los antes mesmo de poder sorrir.