Consigo enxergar, no teto do ônibus, o desenho abstrato de
um beijo. Os furos minúsculos bem acima de minha poltrona, os quais deixam as
curvas da representação mais claras que o restante do veiculo, lembram a
pintura de um vaso, que era também o encontro de dois rostos, feito pela
professora de artes da oitava série. Helena foi a primeira mulher por quem
nutri certo interesse. Nunca contei a ela, nem a ninguém; mas sei que começou
naquele instante, quando mostrou o desenho do vaso de flores e eu enxerguei o
beijo que só ela enxergara. Helena era baixa perto dos outros adultos, tinha os
cabelos pretos e curtos e olhos que sorriam; era casada com Eduardo, o único
turismologo que conheci na vida. Ela viajava todo fim de semana para
encontrá-lo e foi o estopim da guerra que acontecia dentro de mim, da
estranheza que é abrir mão dos finais dos contos de fadas, sempre com um príncipe
e uma princesa vivendo felizes para sempre.
Sou despertada dos antigos pensamentos pela tosse discreta da
senhora sentada ao meu lado; ela pede licença e caminha a passos miúdos em
direção ao banheiro. Ana é viúva, tem 57 anos e viajou para visitar o filho
mais velho, internado numa clinica de reabilitação para dependentes químicos há
seis meses e dois dias. Ela é forte, apesar das madeixas fracas, já bem
grisalhas; e das rugas ao redor dos olhos tristes; é educada e me contou a sua
vida enquanto eu fitava o teto do automóvel. Ana não via um beijo, nem um vaso,
nada além de seu filho perdido.
Encaro o relógio digital a minha frente, na parte superior
esquerda do ônibus. Há menos de vinte e quatro horas atrás nós ainda estávamos deitadas
em minha cama, eu mexia nos botões pretos de sua blusa de lã e ela me contava
sobre a briga que teve com uma ex-quase-namorada ciumenta e controladora. Mudo
o canal da televisão para um de músicas modernas e ela me pede um beijo.
Malu tem os cabelos louros e compridos, olhos grandes e
silenciosos e um sorriso arrebatador. É lobo em pele de cordeiro, de traços sutis e sobrancelhas decididas. Nós nos conhecemos nas férias de inverno
do ano passado, nessa mesma época, com a cidade cheias de turistas e os termômetros
marcando sempre menos que o suportável. Ela
já havia beijado outras mulheres antes de mim. Passou alguns segundos brincando
com o cordão do meu capuz, depois acariciou e ajeitou o cabelo que caia em meu
rosto, e então encostou os lábios nos meus. Senti a sua pele macia, o cheiro
doce de menina, a boca leve de encontro ao meu desejo disfarçado de indecisão. Retribui
o beijo. E me apaixonei.
Ana retorna ao seu lugar, me despertando dos pensamentos distantes
mais uma vez. Ela comenta sobre o espaço pequeno dos banheiros e como é difícil
se equilibrar lá dentro enquanto o ônibus se movimenta. Cobre as pernas com uma
manta azul clarinha e sorri pra mim. Retribuo o sorriso e volto a encarar o
alto do veículo, tentando agora me imaginar com 57 anos, e sem filhos.
Helena me disse, certo dia, que algumas histórias são
irreversíveis, não importa o tempo que passe; é impossível não enxergar o que
sempre esteve bem debaixo de nosso nariz. Não dá para se tornar alheio ao
desejo de ver além do que se pode ver apenas pelo medo de nadar contra a maré. Uma
vez que se enxerga o beijo, nunca mais se enxergará apenas o vaso. Nem que você
resolva viver de olhos fechados.
