domingo, 28 de julho de 2013

Um beijo



          Consigo enxergar, no teto do ônibus, o desenho abstrato de um beijo. Os furos minúsculos bem acima de minha poltrona, os quais deixam as curvas da representação mais claras que o restante do veiculo, lembram a pintura de um vaso, que era também o encontro de dois rostos, feito pela professora de artes da oitava série. Helena foi a primeira mulher por quem nutri certo interesse. Nunca contei a ela, nem a ninguém; mas sei que começou naquele instante, quando mostrou o desenho do vaso de flores e eu enxerguei o beijo que só ela enxergara. Helena era baixa perto dos outros adultos, tinha os cabelos pretos e curtos e olhos que sorriam; era casada com Eduardo, o único turismologo que conheci na vida. Ela viajava todo fim de semana para encontrá-lo e foi o estopim da guerra que acontecia dentro de mim, da estranheza que é abrir mão dos finais dos contos de fadas, sempre com um príncipe e uma princesa vivendo felizes para sempre.

          Sou despertada dos antigos pensamentos pela tosse discreta da senhora sentada ao meu lado; ela pede licença e caminha a passos miúdos em direção ao banheiro. Ana é viúva, tem 57 anos e viajou para visitar o filho mais velho, internado numa clinica de reabilitação para dependentes químicos há seis meses e dois dias. Ela é forte, apesar das madeixas fracas, já bem grisalhas; e das rugas ao redor dos olhos tristes; é educada e me contou a sua vida enquanto eu fitava o teto do automóvel. Ana não via um beijo, nem um vaso, nada além de seu filho perdido.

          Encaro o relógio digital a minha frente, na parte superior esquerda do ônibus. Há menos de vinte e quatro horas atrás nós ainda estávamos deitadas em minha cama, eu mexia nos botões pretos de sua blusa de lã e ela me contava sobre a briga que teve com uma ex-quase-namorada ciumenta e controladora. Mudo o canal da televisão para um de músicas modernas e ela me pede um beijo.

          Malu tem os cabelos louros e compridos, olhos grandes e silenciosos e um sorriso arrebatador. É lobo em pele de cordeiro, de traços sutis e sobrancelhas decididas. Nós nos conhecemos nas férias de inverno do ano passado, nessa mesma época, com a cidade cheias de turistas e os termômetros marcando sempre menos que o suportável.  Ela já havia beijado outras mulheres antes de mim. Passou alguns segundos brincando com o cordão do meu capuz, depois acariciou e ajeitou o cabelo que caia em meu rosto, e então encostou os lábios nos meus. Senti a sua pele macia, o cheiro doce de menina, a boca leve de encontro ao meu desejo disfarçado de indecisão. Retribui o beijo. E me apaixonei.

          Ana retorna ao seu lugar, me despertando dos pensamentos distantes mais uma vez. Ela comenta sobre o espaço pequeno dos banheiros e como é difícil se equilibrar lá dentro enquanto o ônibus se movimenta. Cobre as pernas com uma manta azul clarinha e sorri pra mim. Retribuo o sorriso e volto a encarar o alto do veículo, tentando agora me imaginar com 57 anos, e sem filhos.

          Helena me disse, certo dia, que algumas histórias são irreversíveis, não importa o tempo que passe; é impossível não enxergar o que sempre esteve bem debaixo de nosso nariz. Não dá para se tornar alheio ao desejo de ver além do que se pode ver apenas pelo medo de nadar contra a maré. Uma vez que se enxerga o beijo, nunca mais se enxergará apenas o vaso. Nem que você resolva viver de olhos fechados.  

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