Eu tinha oito anos, na
época. Meu pai 31. Faço aniversário em abril; ele em junho, ou julho, nunca me
lembro. Julho, isso, tenho anotado aqui na agenda. Mas isso não importa, de
qualquer forma, porque estávamos em dezembro, meados do último mês. Morávamos
na cidade grande há uns dois ou três anos, e eu detestava aquele lugar, e o ar
carregado, e o céu escuro; e as pessoas sem tempo para dar informações, sempre
correndo, sempre sozinhas, sempre distantes.
O sol estava tímido naquela manhã, vez ou outra víamos os
seus raios ultrapassarem as nuvens espessas, mas nada muito significativo ou
capaz de violar as barreiras de algodão no céu e finalmente dar as caras por
inteiro. Meu pai foi ao banco bem cedo, retirou um pouco de dinheiro das nossas
poucas economias, comprou bolachas, chocolates, guloseimas de todo os tipos, e
alguns brinquedos singelos também; colocou tudo dentro de um grande saco de
tecido vermelho e finalizou o dia numa loja de fantasias, experimentando uma
roupa de Papai Noel.
Quando voltamos para casa, a tarde já caia do céu - agora
limpo, livre das nuvens que o cobriam mais cedo. Papai entrou no quarto carregando
as sacolas e segurando a minha mão, despejou as compras na cama desarrumada,
beijou a minha testa e começou a vestir a fantasia que havia adquirido pela
manhã. Eu não entendia muitas coisas aos oito anos, ainda não compreendo aos
vinte; sempre soube, no entanto, da inexistência do bom velhinho natalino. Tinha
medo do personagem e, diferente das outras crianças, não queria sentar em seu
colo gordinho e lhe escrever cartas coloridas pedindo presentes por ter me
comportado bem no decorrer de onze, quase doze completos meses. Depois de vestido, faltando-lhe apenas a barba comprida,
ele perguntou se eu estava sentindo medo. Levantei o dedo indicador e o
balancei de um lado para o outro. Eu sabia que aquele era o meu pai de sempre,
apesar da roupa esquisita.
Voltamos para o carro, e o meu pai, agora Papai Noel,
dirigiu até uma periferia perto de nossa casa. Paramos na frente de um bar e,
quando olhei ao redor, haviam crianças por todos os lados. Abrimos as portas do
automóvel, e os garotos se empoleiraram nas pernas do bom velhinho, abraçando-o
e lhe desejando um "feliz natal", como se nunca tivessem visto nada
parecido, como se em seus livros de infância ninguém nunca tivesse lhes
mostrado uma foto do Noel e de sua casinha no Polo Norte, como se não houvesse
contos de fadas e sonhos naquele lugar. As crianças, em sua maioria, estavam
sujas, sem sapatos, com trapos em forma de roupa e o cabelo desajeitado. Suas
casas eram pequenas, inacabadas, e amontoadas umas às outras. As mães sorriam,
um pouco distantes do personagem natalino. Meu pai correspondia aos pequenos abraços,
tirando do saco vermelho os doces e brinquedos e os entregando aos meninos que
o cercavam. Eu sabia que ele estava fazendo algo bonito e, encolhida no banco
de trás do carro, me orgulhava dele. Mas me senti estranha também, porque nunca
havia visto outra criança, além de mim, chamando-o de papai.
Algumas horas depois, terminados os presentes, e abraços,
e agradecimento; colocamos tudo o que sobrou de volta no
carro e seguimos para casa outra vez. Disse ao meu pai que eu estava com medo; ele
me encarou como se pedisse desculpas e rapidamente retirou a barba, a peruca e o
gorro vermelho. "Sou só eu", disse. Depois sorriu. O meu medo, no
entanto, não estava mais na figura do bom velhinho, mas no coração egoísta que nunca saberia dividir algumas coisas e iria querer, desde aquele dia, manter sempre uma distância segura do tão esperado Natal.

