segunda-feira, 23 de dezembro de 2013

Papai Noel


          Eu tinha oito anos, na época. Meu pai 31. Faço aniversário em abril; ele em junho, ou julho, nunca me lembro. Julho, isso, tenho anotado aqui na agenda. Mas isso não importa, de qualquer forma, porque estávamos em dezembro, meados do último mês. Morávamos na cidade grande há uns dois ou três anos, e eu detestava aquele lugar, e o ar carregado, e o céu escuro; e as pessoas sem tempo para dar informações, sempre correndo, sempre sozinhas, sempre distantes.
            
          O sol estava tímido naquela manhã, vez ou outra víamos os seus raios ultrapassarem as nuvens espessas, mas nada muito significativo ou capaz de violar as barreiras de algodão no céu e finalmente dar as caras por inteiro. Meu pai foi ao banco bem cedo, retirou um pouco de dinheiro das nossas poucas economias, comprou bolachas, chocolates, guloseimas de todo os tipos, e alguns brinquedos singelos também; colocou tudo dentro de um grande saco de tecido vermelho e finalizou o dia numa loja de fantasias, experimentando uma roupa de Papai Noel.
            
          Quando voltamos para casa, a tarde já caia do céu - agora limpo, livre das nuvens que o cobriam mais cedo. Papai entrou no quarto carregando as sacolas e segurando a minha mão, despejou as compras na cama desarrumada, beijou a minha testa e começou a vestir a fantasia que havia adquirido pela manhã. Eu não entendia muitas coisas aos oito anos, ainda não compreendo aos vinte; sempre soube, no entanto, da inexistência do bom velhinho natalino. Tinha medo do personagem e, diferente das outras crianças, não queria sentar em seu colo gordinho e lhe escrever cartas coloridas pedindo presentes por ter me comportado bem no decorrer de onze, quase doze completos meses. Depois de vestido, faltando-lhe apenas a barba comprida, ele perguntou se eu estava sentindo medo. Levantei o dedo indicador e o balancei de um lado para o outro. Eu sabia que aquele era o meu pai de sempre, apesar da roupa esquisita.
            
          Voltamos para o carro, e o meu pai, agora Papai Noel, dirigiu até uma periferia perto de nossa casa. Paramos na frente de um bar e, quando olhei ao redor, haviam crianças por todos os lados. Abrimos as portas do automóvel, e os garotos se empoleiraram nas pernas do bom velhinho, abraçando-o e lhe desejando um "feliz natal", como se nunca tivessem visto nada parecido, como se em seus livros de infância ninguém nunca tivesse lhes mostrado uma foto do Noel e de sua casinha no Polo Norte, como se não houvesse contos de fadas e sonhos naquele lugar. As crianças, em sua maioria, estavam sujas, sem sapatos, com trapos em forma de roupa e o cabelo desajeitado. Suas casas eram pequenas, inacabadas, e amontoadas umas às outras. As mães sorriam, um pouco distantes do personagem natalino. Meu pai correspondia aos pequenos abraços, tirando do saco vermelho os doces e brinquedos e os entregando aos meninos que o cercavam. Eu sabia que ele estava fazendo algo bonito e, encolhida no banco de trás do carro, me orgulhava dele. Mas me senti estranha também, porque nunca havia visto outra criança, além de mim, chamando-o de papai.  
            
          Algumas horas depois, terminados os presentes, e abraços, e agradecimento; colocamos tudo o que sobrou de volta no carro e seguimos para casa outra vez. Disse ao meu pai que eu estava com medo; ele me encarou como se pedisse desculpas e rapidamente retirou a barba, a peruca e o gorro vermelho. "Sou só eu", disse. Depois sorriu. O meu medo, no entanto, não estava mais na figura do bom velhinho, mas no coração egoísta que nunca saberia dividir algumas coisas e iria querer, desde aquele dia, manter sempre uma distância segura do tão esperado Natal.


sábado, 7 de dezembro de 2013

Origami


           Para me distrair um pouco dos estudos ininterruptos e de toda a tensão dos últimos dias, tiro de uma das gavetas do armário da cozinha um pano de prato velho, umedeço um pedaço do retalho na pia do banheiro e começo a limpar a prateleira de livros que tenho no quarto.
            
         O meu pai telefonou hoje, mais cedo; veio com uma notícia aparentemente ruim, falou algo sobre o seio direito de minha avó, alguma coisa que eu não ouvi direito ou simplesmente não prestei a devida atenção. Ele parecia triste do outro lado da linha; eu, no entanto, não fui capaz de demonstrar nenhuma compaixão, apenas repeti frases clichês deprimentes, como aquelas usadas por todos nós em velórios de quase-desconhecidos. Ficou alguns segundos em silêncio e depois perguntou se eu tinha certeza de que estava me sentindo bem; menti para não preocupá-lo, me despedi e desliguei o telefone.
            
           Saí do quarto depois disso, para comer alguma coisa, mas descobri que era melhor não ter saído. As meninas com quem divido a casa tinham pedido almoço no restaurante da avenida, e se esqueceram que talvez eu pudesse querer também, e não me perguntaram nada a respeito, nem sequer se deram conta de que o meu armário anda meio vazio desde que o fim do ano se iniciou. Olhei-as conversando e comendo, tirei do armário os pães que comprei na padaria da esquina, de manhã; abri a geladeira, peguei o último ovo guardado no suporte de papelão e coloquei-o na frigideira, com um pouco de margarina sem sal. Elas me perguntaram se estava tudo bem, menti outra vez. Passei a semana mentindo para os meus amigos, e alunos, e professores, e coordenadores de estágio, e até para aquele lagartinho que aparece no portão de casa todo santo dia, ao meio dia, quando estou voltando do trabalho.
            
          Nunca imaginei o mês de dezembro sendo tão difícil e enlouquecedor como esse tem se mostrado desde que deu as caras. As aulas parecem não ter mais fim, as crianças estão estressadas, os pais, os avós, os primos de terceiro grau. A cidade está muito mais quente comparada à época em que me mudei para cá, a saudade que eu tenho sentido de nós dois não diminuiu ainda, a casa silenciosa e solitária sufoca o pranto que de vez em quando eu não consigo esconder mais de mim.
            
          Em silêncio, lavo o prato, o garfo, a faca, a escumadeira e a frigideira que utilizei para preparar o meu almoço. Deixo escorrer uma lágrima tímida, enxugo-a com o dorso molhado da mão direita, antes que alguém veja, e volto para o quarto. Retorno às prateleiras empoeiradas, tiro os livros de lá, passo o pano úmido na base, espero secar e começo a colocá-los outra vez em seus lugares. Tento organizar em forma decrescente, mas desisto na metade do caminho, quando só alguns poucos centímetros diferenciavam um e outro. Puxo de dentro do Cortiço o marca-páginas de flor, que eu mesma fiz com aquele narciso seco e alguns pedaços de folha adesiva transparente, e vejo cair do meio daquelas páginas amareladas um papel colorido e dobrado em forma de coração, um dos milhares de origamis que andei fazendo nos últimos dias e enfiando em tudo quanto é canto pra não ficar olhando depois. 
            
            Encaro a prateleira finalmente organizada e tenho a sensação de que muita coisa mudou desde a primeira vez em que saímos juntos e eu fiz um origami de coração em um guardanapo de bar para entregar a você. Entreguei a merda do coração assim que nos vimos, mas, diferente dos que eu perco em meio aos livros, esse nunca vai voltar da mesma forma como foi. Muita coisa mudou. Dezembro, inclusive, nunca mais será só o último mês depois que você desistiu de nós.