sábado, 7 de dezembro de 2013

Origami


           Para me distrair um pouco dos estudos ininterruptos e de toda a tensão dos últimos dias, tiro de uma das gavetas do armário da cozinha um pano de prato velho, umedeço um pedaço do retalho na pia do banheiro e começo a limpar a prateleira de livros que tenho no quarto.
            
         O meu pai telefonou hoje, mais cedo; veio com uma notícia aparentemente ruim, falou algo sobre o seio direito de minha avó, alguma coisa que eu não ouvi direito ou simplesmente não prestei a devida atenção. Ele parecia triste do outro lado da linha; eu, no entanto, não fui capaz de demonstrar nenhuma compaixão, apenas repeti frases clichês deprimentes, como aquelas usadas por todos nós em velórios de quase-desconhecidos. Ficou alguns segundos em silêncio e depois perguntou se eu tinha certeza de que estava me sentindo bem; menti para não preocupá-lo, me despedi e desliguei o telefone.
            
           Saí do quarto depois disso, para comer alguma coisa, mas descobri que era melhor não ter saído. As meninas com quem divido a casa tinham pedido almoço no restaurante da avenida, e se esqueceram que talvez eu pudesse querer também, e não me perguntaram nada a respeito, nem sequer se deram conta de que o meu armário anda meio vazio desde que o fim do ano se iniciou. Olhei-as conversando e comendo, tirei do armário os pães que comprei na padaria da esquina, de manhã; abri a geladeira, peguei o último ovo guardado no suporte de papelão e coloquei-o na frigideira, com um pouco de margarina sem sal. Elas me perguntaram se estava tudo bem, menti outra vez. Passei a semana mentindo para os meus amigos, e alunos, e professores, e coordenadores de estágio, e até para aquele lagartinho que aparece no portão de casa todo santo dia, ao meio dia, quando estou voltando do trabalho.
            
          Nunca imaginei o mês de dezembro sendo tão difícil e enlouquecedor como esse tem se mostrado desde que deu as caras. As aulas parecem não ter mais fim, as crianças estão estressadas, os pais, os avós, os primos de terceiro grau. A cidade está muito mais quente comparada à época em que me mudei para cá, a saudade que eu tenho sentido de nós dois não diminuiu ainda, a casa silenciosa e solitária sufoca o pranto que de vez em quando eu não consigo esconder mais de mim.
            
          Em silêncio, lavo o prato, o garfo, a faca, a escumadeira e a frigideira que utilizei para preparar o meu almoço. Deixo escorrer uma lágrima tímida, enxugo-a com o dorso molhado da mão direita, antes que alguém veja, e volto para o quarto. Retorno às prateleiras empoeiradas, tiro os livros de lá, passo o pano úmido na base, espero secar e começo a colocá-los outra vez em seus lugares. Tento organizar em forma decrescente, mas desisto na metade do caminho, quando só alguns poucos centímetros diferenciavam um e outro. Puxo de dentro do Cortiço o marca-páginas de flor, que eu mesma fiz com aquele narciso seco e alguns pedaços de folha adesiva transparente, e vejo cair do meio daquelas páginas amareladas um papel colorido e dobrado em forma de coração, um dos milhares de origamis que andei fazendo nos últimos dias e enfiando em tudo quanto é canto pra não ficar olhando depois. 
            
            Encaro a prateleira finalmente organizada e tenho a sensação de que muita coisa mudou desde a primeira vez em que saímos juntos e eu fiz um origami de coração em um guardanapo de bar para entregar a você. Entreguei a merda do coração assim que nos vimos, mas, diferente dos que eu perco em meio aos livros, esse nunca vai voltar da mesma forma como foi. Muita coisa mudou. Dezembro, inclusive, nunca mais será só o último mês depois que você desistiu de nós. 

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