sexta-feira, 19 de fevereiro de 2016

Outro dia eu estava na sala de aula quando uma aluninha abriu a porta e chamou baixinho: “teacher, você pode vir aqui AGORA?”. Deixei a caneta preta em cima de mesa, pedi silêncio e caminhei depressa. A garota virou o bumbum pra mim e mostrou a manchinha de sangue na calça. Perguntei se ela sabia o que era, ela balançou a cabeça e sorriu meio sem graça. Tirei da bolsa um absorvente, entreguei à menina e disse: “pode ficar tranquila, acontece com todas nós”. Ela me abraçou, pediu para não contar a ninguém e saiu correndo em direção ao banheiro. Uns meninos, que espiavam a cena escondidos do outro lado do corredor, assim que a viram saindo, caminharam desconfiados para perto de mim e perguntaram: “o que aconteceu, teacher?”. Respeitando o pedido de segredo, preferi não contar: “nada não, tá tudo bem!”. Eles insistiram, claro. Para acabar logo com o assunto, proferi: “é coisa de mulher e só mulher pode saber”. Os meninos, todos com 8/9 anos, fizeram bico a princípio, mas entenderam o recado e voltaram para o parque, correndo como sempre.

 Lembrei na hora de alguns “amigos” e de como se comportam quando falamos que o feminismo é “coisa de mulher e só mulher pode saber”: a maioria, infelizmente, não entende o recado. Eles querem saber mais, opinar mais, ser o centro das atenções, querem nos calar, diminuir a nossa luta, nos chamar de loucas. Sabe, moços, vocês deviam aprender com meus alunos de 8/9 anos e deixar que decidamos o que é nossa decisão. 

O feminismo “é coisa de mulher", por mulher, para mulher. Nessa luta lugar de homem é no parque brincando, respeitando o nosso espaço de uma vez.
Dois aluninhos meus se juntaram hoje, na hora do parque, para construir um castelo com pecinhas coloridas de montar. Iam unindo uma à outra, empilhando tudo para formar uma grande torre, até que se desentenderam e, na disputa por um mesmo brinquedo, caíram em cima da construção e a destruíram antes que eu pudesse intervir na pequena briga. Olharam-se espantados e as lágrimas rolaram soltas em seus olhos. Por um momento fiquei na dúvida se socorria as peças espalhadas ou os meninos. Segurei-os pelas mãos e tentei diminuir o desespero deles. 

Gustavo e Miguel, ambos com cinco anos, explicaram-me quem tinha começado a disputa: "Então, agora, pede desculpas", eu disse. Um pediu, o outro aceitou bem rápido; pararam de chorar poucos segundos depois da conciliação, mas continuaram tristes no canto do parque. Peguei um deles pelo bracinho e perguntei: "Vocês já não fizeram as pazes?". Ele balançou a cabeça em sinal positivo, mas, apontando para as peças jogadas no chão, confessou com a voz ainda rouca do choro: "A gente fez, né? Mas olha lá como é que ainda tá tudo quebrado". Sorri compadecida e prometi que mais tarde consertaríamos o brinquedo. Infelizmente, pedir e conceber perdão ainda não reconstrói as ruínas dos nossos castelos.