quinta-feira, 24 de novembro de 2011

A cura

São 20 horas, mas você sente que já é tarde da noite. 23 no seu relógio psicológico. A semana foi dura, você trabalhou e estudou sem folga. Soube por uma terceira pessoa que o seu querido viajou e só volta daqui a três dias. Ele não disse nada além de tchau. Tchau. Não gosto dessa palavra.  Diga que nos vemos mais tarde, amanhã, quando der. Mande beijos e abraços. Sorria e fique em silêncio. Aceito qualquer sinal de que irá voltar. Menos tchau.

Aparentemente você está sozinho. Mas só aparentemente. Fecha a porta do quarto, depois abre, sai e entra de novo, esperando ser notado, esperando que alguém pergunte como foi o seu dia e se ofereça para esquentar a comida que se encontra sobre o fogão.  Ninguém. Fuça no armário, encontra um chocolate - daqueles que custa uma fortuna só por causa do brinquedo de dentro - e come tudo sem nem perguntar se era seu. Afinal, quem é que se importa com o que é ou não meu?

O brinquedo parece divertido, mas já são 21 horas e você ainda não decidiu se toma um banho daqueles que quase te levam embora pelo ralo com a água e o sabão, ou se cria coragem e esquenta a comida. Nem um, nem outro. Pega o telefone e liga para família que não vê há tempos. Eles estão ótimos, e para não estragar a felicidade alheia você simplesmente se cala e segura as lágrimas angustiantes que resolvem se formar em seus olhos.

Cria coragem - não sei de onde -, esquenta algo e come. Toma banho, se veste e olha no espelho. Quanta coisa uma pessoa é capaz de ver quando se olha no espelho? Você está vendo milhares. Confusão, tristeza, loucura, saudade, paixão. Tudo isso, ali, refletido de você para você.
                
A sessão nostalgia acabou. Você esfrega os olhos para limpar qualquer vestígio de lágrima que nem se quer chegou a cair. Pega o brinquedo que veio no chocolate, sobe na cama com ele plantado nas mãos. O joga para cima, pula e ri descontroladamente, como se essa fosse a única alternativa capaz de manter no lugar a máscara de está-tudo-bem.
                 
Você pula o mais alto que consegue, tentando aos poucos alcançar o forro não muito alto. Joga o brinquedo com força esperando que ele se quebre e acabe com toda essa fantasia de que é preciso rir quando se quer chorar. Pula, gargalha, bagunça o cabelo ainda molhado por causa do banho recente, joga o brinquedo com ainda mais força. Nada, ele ainda está intacto. A lucidez de precisar estar bem já está beirando a loucura e você sabe, mas continua. O brinquedo não quebra. Você, cansado, cai.
                 
Não, não foi no chão, e não foi sem querer. Você caiu porque toda essa façanha de ter de parecer forte não faz sentido. Caiu por causa dessa sua fortaleza que anda beirando a insanidade. Você chora, desesperadamente, porque descobre que rir nem sempre é o melhor remédio. A cura da vez é o choro e o riso forçado só faz piorar.

quarta-feira, 16 de novembro de 2011

O melhor

Sinto falta do olhar caído e sempre lacrimejante, mesmo quando feliz. Tenho olhos de gente triste assim como ele e por isso ainda me olho no espelho: para lembrá-lo. Ouço barulhos de violão que não vem do instrumento, vem do coração. Penso nos dedos calejados com as unhas meio sujas de tinta - de um carro qualquer que ele anda pintando - apalpando aquelas seis cordas e fazendo sair de lá um som capaz de acalmar a alma mais agitada do mundo.

Quase consigo ver em minha frente o sorriso amarelo de quem fuma a mais de trinta anos e insiste em não me escutar quando digo que aquele embrulho de papel faz um mal irrevogável. Bom, me escutar até escuta, concorda comigo e tudo mais, dizendo que tenho razão e que tentará parar, mas, no fundo no fundo, sei que só diz isso para me deixar despreocupada. Ou menos preocupada, que seja. Aquele sorriso de quem diz odiar refrigerante, mas toma um litro de Fanta Uva fácil, fácil.

Adora insinuar que este meu gênio difícil foi herdado da minha mãe, mas nem todo ele, afirmo. A petulância e a impulsividade sim, mas a teimosia, essa não, essa herdei mesmo foi dele, do papai. Porque não existe ninguém mais teimoso que ele, e eu. Se for pra ir no médico, adiamos o máximo possível porque estamos sempre bem até não conseguir parar em pé. Dentista então, é caro demais. Parar de fazer alguma coisa só porque o resto do mundo não acha certo, nunca, jamais.

É teimoso também quando se trata dos filhos, brigou por todos, criou todos. E não digo que criou sozinho porque teve ao seu lado uma mulher de solidariedade insaciável, minha ‘mãedrasta’. E também não digo madrasta porque soa como ‘conto de fadas’ e, mesmo sendo branca como a neve e tendo os cabelos escuros , graças a Deus, ou ao meu pai que tem um dedinho aguçado, não tive a infelicidade de vê-lo se casar com uma mulher que não o amava e/ou que mais tarde viria a caçar o meu coração. Acredito, desde então, que por trás de todo grande homem exista mesmo uma grande mulher.

Não deixou nenhum dos filhos, mas foi deixado por alguns. Eu o deixei, mas só fisicamente, quero dizer, porque o carrego todos os dias no coração e nas lembranças já meio fora de ordem. Carrego essa saudade imensamente pesada, que cresce em mim a cada dia, desde que sai de casa.

E não comecem a me perguntar o porquê sai se tudo era assim tão perfeito entre nós dois; porque é tão complicado, sabe, é uma busca de sonhos e de me encontrar que pouca gente consegue compreender. Ele entende, ou finge muito bem. Me aceita com todos os defeitos possíveis, sejam eles vindo de fábrica ou ocasionados ao longo da vida. Pode até não concordar, mas aceita e, por incrível que pareça, até ama; sabe amar aquilo de que menos gosta.

Esteve ao meu lado nos melhores e piores momentos; foi à minha formatura e buscou o diploma porque eu não pude estar presente; chorou como uma criança me olhando de fora do ônibus; defendeu-me dos outros e de mim mesma, e ainda defende, pode acreditar. Faixa marrom no karatê, só não ganhou à preta porque precisava me levar no curso de espanhol. Tenho toda razão do mundo pra ficar louca de pedra quando alguém – que não é nenhum dos meus irmãos – diz ter o melhor pai do mundo, não tenho? Ele sacrificou tudo para ser pai, longe ou perto, agora e sempre. Meu pai.

segunda-feira, 7 de novembro de 2011

Adorno


             Acho - achei, e sempre vou achar - corpos coloridos a coisa mais linda do mundo.

Casa decorada é sempre mais aconchegante do que aquela toda trabalhada apenas em tons pastéis. Vocês não concordam? Pois bem, o meu corpo é a minha casa, é onde vivo, onde estampo o que sou e o que não quero ser. Então, deixem-me decorá-lo, deixá-lo com desenhos, palavras e cores pelas quais eu sou formada, deixe-me estampar aquilo que de tão importante mereceu ser eternizado.

Vemos pessoas iguais o tempo inteiro em todos os lugares, e isso cansa – me cansa, pra ser sincera. Nós devíamos gostar de quem tenta parecer menos blasé.

O diferente me fascina, me apaixona, me admira. O diferente deveria causar em você a mesma reação que causa em mim. Você deveria permitir que causasse, pelo menos.

Serei julgada por olhares e, talvez, por palavras corajosas também, mas estou disposta a correr este risco. Há quem diga que até Deus me julgará, mas o Deus em que acredito não condena corpos, mas almas e corações; ou talvez nem condene nada disso, apenas tente entender e perdoar. Essa é a essencial da minha fé: entender e perdoar. E além do mais, segundo a minha crença, não estou fazendo N A D A de errado, é só tinta na pele, entende?! São registros de algo que passou, mas ainda está guardado. E sempre vai estar.

Existem, sim, tatuagens chocantes e assustadoras, mas talvez tenham um significado importante para quem as fez, vai saber. Também não posso dizer que não existam aquelas clichês, as quais pessoas fazem porque simplesmente está na moda, mas paciência, a vida é delas. Não minha. Nem sua. Temos de respeitar uns aos outros, acima de tudo.

Aprendi em um livro, uma vez, que o essencial é invisível aos olhos e, sabe, creio piamente nisso. Pra mim, só se é possível enxergar com clareza quando se usa os olhos do coração. Então, desencane, pare de olhar para as pessoas como se elas fossem um espelho e tivessem o dever de refletir quem você é. Nós somos diferentes e é exatamente isso que nos torna especiais.

 Aceite o preto, o branco e o colorido. Aceito o papel limpo ou o todo rabiscado. A essência não muda só porque se tem um milhão de tatuagens. Eu ainda sou eu, você é você, e nós precisamos conviver juntos – quer você queira ou não.

terça-feira, 1 de novembro de 2011

Escudo

       A armadura foi tirada da gaveta, limpa e vestida. As garras mais afiadas estão ao meu alcance. Aquela expressão fria de quem não quer se apaixonar tomou conta do meu rosto, mais uma vez.

Ele é um dos homens mais interessantes que já conheci. Poliglota, morou nas cidades que costumo chamar sonhos de consumo. Formado em uma das escolas de gastronomia mais renomadas do estado – senão do país – faz a minha comida, antes não muito boa, parecer um lixo. É divertido e leve, naturalmente refrescante, eu diria, não tem sotaque e gosta de rock. Ele também é irritante; implica o tempo todo com a minha (falta de) organização e com o cabelo liso demais que, às vezes, escapa daquela toca higiênica horrorosa. Sorri como uma criança que acaba de deixar a mãe sem palavras perguntando sobre sexo, e sai cantarolando algo que não consigo entender.

E não, não é atração. Essa palavra (atração) soa tão cafajeste, vocês não acham? E o que estou sentindo não é nada supérfluo, nem chega perto de cafajestagem. Também não pensem que é por beleza, porque nem há tanta beleza assim. Se ele fosse um daqueles homens que mais parecem monumentos gregos de Apolo, haveria milhares de mulheres olhando pro mesmo lugar que eu. E não há, pelo menos parece que não. É bonito sim, mas nada muito notável. Os óculos escondem os olhos miúdos e a dólmã torna o corpo menos desejável. Eu estou encantada por ele conseguir ser tão frio e tão quente, assim, ao mesmo tempo - só isso; tudo isso.

Sinto raiva de mim por pensar tanto em alguém, por deixar que um homem tome conta dos meus pensamentos mais ocultos. Detesto-me por querê-lo aqui mesmo que o meu pijama seja broxante e o cabelo esteja preso em um coque.

Eu estou me apaixonando cada vez mais, e não posso permitir que isso aconteça. É preciso vestir aquele conjunto de defesas não tão metálicas e lutar contra tudo o que me transporta à paixão - possivelmente não correspondida. É preciso afiar a espada e inseri-la em meu próprio coração. Acabar com este ‘amor antes que ele acabe comigo.

Não é recíproco, eu sei que não; nós nos conhecemos tão pouco e há tão pouco, é impossível que seja. E não, eu também não quero descobrir se estou errada, porque se não estiver, ninguém além de mim juntará os meus pedaços por aí.

As pessoas me dizem sempre: ‘Atire-se. Você não tem o que perder!’. Mas eu tenho sim, tenho muito que perder. Posso perder a cabeça, o coração, o fígado, e todos os outros órgãos dos quais o amor costuma se apossar. Eu posso perder-lo sem nunca tê-lo tido.

Tão mais fácil afastá-lo do que fazer com que ele chegue mais perto sabe?! O escudo é uma arma usada para proteção, não fere ninguém – ninguém além de mim, pelo menos. É de minha natureza lutar contra aquilo que cativa rápido demais, e vocês bem sabem que não se revolta contra a própria natureza.

É egoísta e covarde não arriscar por esta, talvez, ser só uma história idealizada romanticamente (em tempos assim não tão românticos), eu sei que é. Mas tudo está tão perfeito só no papel. É como um lindo livro que você lê, e que depois procura não ver o filme com receio de que não seja a mesma coisa