quarta-feira, 16 de novembro de 2011

O melhor

Sinto falta do olhar caído e sempre lacrimejante, mesmo quando feliz. Tenho olhos de gente triste assim como ele e por isso ainda me olho no espelho: para lembrá-lo. Ouço barulhos de violão que não vem do instrumento, vem do coração. Penso nos dedos calejados com as unhas meio sujas de tinta - de um carro qualquer que ele anda pintando - apalpando aquelas seis cordas e fazendo sair de lá um som capaz de acalmar a alma mais agitada do mundo.

Quase consigo ver em minha frente o sorriso amarelo de quem fuma a mais de trinta anos e insiste em não me escutar quando digo que aquele embrulho de papel faz um mal irrevogável. Bom, me escutar até escuta, concorda comigo e tudo mais, dizendo que tenho razão e que tentará parar, mas, no fundo no fundo, sei que só diz isso para me deixar despreocupada. Ou menos preocupada, que seja. Aquele sorriso de quem diz odiar refrigerante, mas toma um litro de Fanta Uva fácil, fácil.

Adora insinuar que este meu gênio difícil foi herdado da minha mãe, mas nem todo ele, afirmo. A petulância e a impulsividade sim, mas a teimosia, essa não, essa herdei mesmo foi dele, do papai. Porque não existe ninguém mais teimoso que ele, e eu. Se for pra ir no médico, adiamos o máximo possível porque estamos sempre bem até não conseguir parar em pé. Dentista então, é caro demais. Parar de fazer alguma coisa só porque o resto do mundo não acha certo, nunca, jamais.

É teimoso também quando se trata dos filhos, brigou por todos, criou todos. E não digo que criou sozinho porque teve ao seu lado uma mulher de solidariedade insaciável, minha ‘mãedrasta’. E também não digo madrasta porque soa como ‘conto de fadas’ e, mesmo sendo branca como a neve e tendo os cabelos escuros , graças a Deus, ou ao meu pai que tem um dedinho aguçado, não tive a infelicidade de vê-lo se casar com uma mulher que não o amava e/ou que mais tarde viria a caçar o meu coração. Acredito, desde então, que por trás de todo grande homem exista mesmo uma grande mulher.

Não deixou nenhum dos filhos, mas foi deixado por alguns. Eu o deixei, mas só fisicamente, quero dizer, porque o carrego todos os dias no coração e nas lembranças já meio fora de ordem. Carrego essa saudade imensamente pesada, que cresce em mim a cada dia, desde que sai de casa.

E não comecem a me perguntar o porquê sai se tudo era assim tão perfeito entre nós dois; porque é tão complicado, sabe, é uma busca de sonhos e de me encontrar que pouca gente consegue compreender. Ele entende, ou finge muito bem. Me aceita com todos os defeitos possíveis, sejam eles vindo de fábrica ou ocasionados ao longo da vida. Pode até não concordar, mas aceita e, por incrível que pareça, até ama; sabe amar aquilo de que menos gosta.

Esteve ao meu lado nos melhores e piores momentos; foi à minha formatura e buscou o diploma porque eu não pude estar presente; chorou como uma criança me olhando de fora do ônibus; defendeu-me dos outros e de mim mesma, e ainda defende, pode acreditar. Faixa marrom no karatê, só não ganhou à preta porque precisava me levar no curso de espanhol. Tenho toda razão do mundo pra ficar louca de pedra quando alguém – que não é nenhum dos meus irmãos – diz ter o melhor pai do mundo, não tenho? Ele sacrificou tudo para ser pai, longe ou perto, agora e sempre. Meu pai.

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