sábado, 18 de fevereiro de 2012

Todo mundo


           Eu deveria tratar você como outro qualquer. Deveria conversar e ser educada, nunca indiferente, não deveria, de forma alguma, fazer caretas e agir como se tivesse seis anos ao invés de quase 19. Mas você não é outro qualquer. Eu acho que não, o meu coração grita que não. O meu cérebro já se calou faz tempo. Eu tento não olhar quando você grita psiu, mas, sabe, tinha de olhar e dizer um oi bem feliz, daqueles que eu digo pra todo mundo. Mas você não é todo mundo. Eu não penso em todo o mundo o tempo todo. Eu não crio roteiros para todo esse povo, não sonho com eles, não imagino como seria o beijo deles ou as suas mãos em minhas mãos.
        
           Eu não deveria ter levantado daquela cadeira quando você me chamou para ir embora. Mas precisava levantar, já era tarde e a vida não para. A minha vida não para, pelo menos. A chuva caiu, como previsto, mais tímida e mais quente do que de costume. Eu ri das suas piadas idiotas sobre energias negativas que se juntam e ficam positivas. Idiotas. Eu e você somos dois completos idiotas. Um fingindo que se importa, outro fingindo que não está nem aí. Era Valentine's Day e nós caminhamos na chuva. Que droga estamos fazendo? Eu não posso gostar de você. E já não gosta? Mais. Eu não posso gostar de você mais do que já gosto.
        
           Dá pra acreditar que tem um livro zanzando na minha bolsa há 56 horas? Você me contou que era dia de São alguma coisa na Espanha e que, nesta data comemorativa pouco conhecida, mulheres devem dar um livro aos homens para receber uma rosa em troca. Não lembro o nome do santo porque olhei por detrás de seus óculos sem armação e percebi que olhos podem sorrir. Cadê o meu livro? E a minha rosa? Mais do que depressa, enfiei um livro na bolsa. Fiquei esperando a porcaria da rosa. Tenho a impressão de que vou carregar o livro pro resto da vida e esperar pela flor por ainda mais tempo. Você precisa parar de dizer essas coisas. E de me chamar de amor. Precisa parar, principalmente, de me chamar de amor. Eu odeio que me chame de amor ainda que esse apelidinho tosco saia lindo da sua boca. Não me chame de amor, por favor. Você por acaso me ama? Não, você não. Mas eu sim. Acho que sim. E isso machuca.
        
           Tinha um guarda-chuva na minha bolsa e não o tirei de lá até você entrar em casa. Eu não queria estar protegida enquanto você se molhava. Meu Deus, o que é isso? Eu tomei uma droga de chuva por sua causa. E pra que? Pra chorar depois, sem que ninguém percebesse? Pra ficar com ideias mirabolantes e sem nenhum nexo do quão apaixonado você pode estar, ou não? Eu sempre acho que não, mais do que acho que sim. Foi pra isso, claro, eu devo gostar muito de sofrer. Devo gostar ainda mais de fantasiar, mas fantasiar tanto, que a fantasia quase beira a loucura. Eu sou louca. É, sou completamente louca.
          
           Eu deveria ser cordial, gentil, não tão séria e misteriosa, mais leve, menos boba. Eu fico tão boba perto de você que é até meio bobo contar isso, aqui. O roteiro antes ensaiado se embaralha, as palavras minuciosamente gravadas não saem e as poucas que saem me dão vergonha. Eu deveria ser normal com você, como sou com todo mundo, mas você não é todo mundo e isso me faz parecer meio louca.

Um comentário:

  1. Eu me pergunto se somos normais quando não estamos apaixonadas ou é ao contrário. São comportamentos distintos pra uma pessoas só.

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