Café nunca foi uma das minhas bebidas preferidas. Antes de me mudar eu raramente tomava. O café do meu pai, fumante desde os quinze anos, é muito forte e a minha gastrite, atacada na época em que morávamos juntos, não permitia tamanha estrapolação. Eu só me arriscava a tomar quando a mãe da minha madrasta nos visitava e fazia um mais fraquinho. Caso contrário, gostava mesmo era de água bem gelada, coca-cola de um litro, da garrafa retornável, e suco de abacaxi com hortelã, cujo qual eu tomava toda semana, sem exceção, acompanhada de uma grande amiga, numa lanchonete chamada galeria do suco. É um nome bom para um estabelecimento que serve um suco muito bom. Acho que ainda serve, não? Se sim, também, não importa, de agora em diante quero mesmo é café. Visitei seis cafeterias diferentes em busca de um cappuccino que valha a pena. Ando crítica, seletiva. Consumo a cafeína em forma de bebida todo dia de manhã. Não sei dizer se é forte como o que meu pai fazia, ou tão fraquinho quanto o da minha quase avó. Não me lembro, já faz tanto tempo. Ando esquecendo algumas coisas desde que alcancei a maior idade.
Outro dia fui mandar uma carta para os meus pais e não me lembrava o número da casa deles, que, um dia, também foi minha. Ainda é, dizem eles. Só que distante, penso. Tenho o endereço deles anotado em algum papel, mas não queria olhar, porque, não sei, dói esquecer essas coisas. Fiz um esforço danado para não precisar procurar em minhas anotações, porém não tive outra opção. Vocês aí nem se importam com o que eu deixei ou não de esquecer, provavelmente estão se perguntando quem é que, em pleno século XXI, escreve cartas. Eu escrevo, ora. O correio até nos incentiva a fazer isso, sabiam? Você escreve “carta social” acima de “destinatário” e não paga nada para enviá-las. Claro, apesar de ser meio pão dura o meu incentivo não é bem esse. Meus pais adoram cartas, é por isso. Esse é o real incentivo. Eles adoram e, então, escrevo. Sabe que, às vezes, eu me sinto um pouco idiota por fazer coisas que ninguém na minha idade faz? Durante um tempo, achei que ser diferente poderia ajudar, mas, agora, duvido disso. Ando tão sozinha por causa dessas minhas diferenças que duvido de tudo.
Há uns dias atrás, saí com umas amigas, mas, ao invés de festejar, sentei ao lado de uma fogueira e as chamas, então, me pareceram mais interessantes do que todos aqueles caras dançando na pista. Eles são tão iguais, pensava eu. Elas são tão iguais, disse baixinho a uma colega bêbada que dormia na mesa em que nos sentamos. Fiquei pensando que o cara com quem eu gostaria de ficar estaria em sua casa, de pijama talvez, ouvindo um cd que só ele gosta, assistindo um filme em preto e branco, ou lendo algo sobre a Segunda Guerra Mundial, quem sabe. Deve estar beijando uma garota igual a essas, que dançam perto de mim, mas me imaginando. Eu não sei ser sexy e nem quero isso. Não quero tentar parecer interessante para impressionar pessoas das quais eu nem gosto. Quero uma roupa leve e a minha cama, ou pizza e uma conversa descontraída com aqueles meus amigos que são feios, mas incríveis, e nunca se importam com a minha cara meio amassada e sem maquiagem. Fico contando as horas para o DJ sentir a lesão por esforço repetitivo apertar e ter de parar de tocar, assim eu poderei dizer as minhas amigas que quero ir embora sem que elas me considerem um porre. Nem bêbada me sentiria bem nesse lugar. Tenho vontade de vomitar nas pessoas quando estou bêbada e me odeio desse jeito. Eu gosto demais de mim para me odiar, assim, tão fácil.
Ao chegar em casa, tiro os saltos, a roupa preta e apertada, visto o pijama de frio, tiro toda a pintura do rosto e me olho no espelho. A minha avó tem toda razão quando diz que eu envelheci, por dentro, cinqüenta anos dos dezessete aos dezenove. Eu tenho alma de velha e ainda por cima sou louca, mas, de qualquer forma, gosto mais de mim assim, agora.



