sexta-feira, 25 de maio de 2012

Velha e Louca


Café nunca foi uma das minhas bebidas preferidas. Antes de me mudar eu raramente tomava. O café do meu pai, fumante desde os quinze anos, é muito forte e a minha gastrite, atacada na época em que morávamos juntos, não permitia tamanha estrapolação. Eu só me arriscava a tomar quando a mãe da minha madrasta nos visitava e fazia um mais fraquinho. Caso contrário, gostava mesmo era de água bem gelada, coca-cola de um litro, da garrafa retornável, e suco de abacaxi com hortelã, cujo qual eu tomava toda semana, sem exceção, acompanhada de uma grande amiga, numa lanchonete chamada galeria do suco. É um nome bom para um estabelecimento que serve um suco muito bom. Acho que ainda serve, não? Se sim, também, não importa, de agora em diante quero mesmo é café. Visitei seis cafeterias diferentes em busca de um cappuccino que valha a pena. Ando crítica, seletiva. Consumo a cafeína em forma de bebida todo dia de manhã. Não sei dizer se é forte como o que meu pai fazia, ou tão fraquinho quanto o da minha quase avó. Não me lembro, já faz tanto tempo. Ando esquecendo algumas coisas desde que alcancei a maior idade.

Outro dia fui mandar uma carta para os meus pais e não me lembrava o número da casa deles, que, um dia, também foi minha. Ainda é, dizem eles. Só que distante, penso. Tenho o endereço deles anotado em algum papel, mas não queria olhar, porque, não sei, dói esquecer essas coisas. Fiz um esforço danado para não precisar procurar em minhas anotações, porém não tive outra opção. Vocês aí nem se importam com o que eu deixei ou não de esquecer, provavelmente estão se perguntando quem é que, em pleno século XXI, escreve cartas. Eu escrevo, ora. O correio até nos incentiva a fazer isso, sabiam? Você escreve “carta social” acima de “destinatário” e não paga nada para enviá-las. Claro, apesar de ser meio pão dura o meu incentivo não é bem esse. Meus pais adoram cartas, é por isso. Esse é o real incentivo. Eles adoram e, então, escrevo. Sabe que, às vezes, eu me sinto um pouco idiota por fazer coisas que ninguém na minha idade faz? Durante um tempo, achei que ser diferente poderia ajudar, mas, agora, duvido disso. Ando tão sozinha por causa dessas minhas diferenças que duvido de tudo.

Há uns dias atrás, saí com umas amigas, mas, ao invés de festejar, sentei ao lado de uma fogueira e as chamas, então, me pareceram mais interessantes do que todos aqueles caras dançando na pista. Eles são tão iguais, pensava eu. Elas são tão iguais, disse baixinho a uma colega bêbada que dormia na mesa em que nos sentamos. Fiquei pensando que o cara com quem eu gostaria de ficar estaria em sua casa, de pijama talvez, ouvindo um cd que só ele gosta, assistindo um filme em preto e branco, ou lendo algo sobre a Segunda Guerra Mundial, quem sabe. Deve estar beijando uma garota igual a essas, que dançam perto de mim, mas me imaginando. Eu não sei ser sexy e nem quero isso. Não quero tentar parecer interessante para impressionar pessoas das quais eu nem gosto. Quero uma roupa leve e a minha cama, ou pizza e uma conversa descontraída com aqueles meus amigos que são feios, mas incríveis, e nunca se importam com a minha cara meio amassada e sem maquiagem.  Fico contando as horas para o DJ sentir a lesão por esforço repetitivo apertar e ter de parar de tocar, assim eu poderei dizer as minhas amigas que quero ir embora sem que elas me considerem um porre. Nem bêbada me sentiria bem nesse lugar. Tenho vontade de vomitar nas pessoas quando estou bêbada e me odeio desse jeito. Eu gosto demais de mim para me odiar, assim, tão fácil.

Ao chegar em casa, tiro os saltos, a roupa preta e apertada, visto o pijama de frio, tiro toda a pintura do rosto e me olho no espelho. A minha avó tem toda razão quando diz que eu envelheci, por dentro, cinqüenta anos dos dezessete aos dezenove. Eu tenho alma de velha e ainda por cima sou louca, mas, de qualquer forma, gosto mais de mim assim, agora.

sábado, 19 de maio de 2012

Cubo Mágico


   Independentemente de onde eu esteja, na balada ou na padaria, em uma festa infantil ou no trabalho, ouço, quase que diariamente, homens dizendo que mulher é bicho de outro mundo. Não existe nada mais complexo, protestam eles. E cantam complicada e perfeitinha para tentar, de algum modo, minimizar o impacto da frase anterior. Outro dia cheguei a ouvir, de um colega meio machista e metido a engraçado, que é mais fácil montar um cubo mágico que entender uma garota. Os machões a sua volta gargalharam sem parar, claro. Eu dei um risinho meio histérico e, para não parecer chata, depois de um tempo já ficando meio corada, decidi sair daquele meio. Refleti um pouco sobre a piadinha ouvida há minutos e acabei me lembrando de você. Os meus pensamentos, involuntariamente, sempre são transportados para as partes que um dia determinei proibidas. Ele é livre, eu não posso fazer nada além de determinar por determinar. No fundo, sei que esse meu decreto será demolido como um muro velho de tijolos de barro.

           Talvez, nós, do sexo feminino, sejamos mesmo muito complicadas, mas com você aqui, no meu pensamento desobediente, e aqueles piadistas idiotas lá do meu trabalho, os sarados da balada, ou os pais de família das padarias e festas infantis, percebi que os homens podem ser muito mais. Trilhões de vezes mais. Anda, diz aí uma palavra que é quase sinônimo de complicado, mas tem também, em suas letras, um toque de exagero. Sim, vocês, machos alfas, são essa palavra que eu não tive tempo de procurar e, por isso, nem sei se existe. Só sei que são. Complicadíssimos. Quase tão complexos quanto a química orgânica ou a teoria das estruturas, que o meu tio anda aprendendo no curso superior de engenharia civil. Tanto quanto estas matérias. Talvez, sejam mais. Quem é que sabe, afinal? Quando se trata do sexo masculino a gente nunca tem certeza.

           Há algum tempo atrás eu estava tão e completamente apaixonada por você quanto você por mim. O sentimento que carregávamos era recíproco, encantador. Éramos perfeitos um para outro, tínhamos tudo para dar certo. Eu acreditei que tínhamos, pelo menos, até aquele rabo de saia de cabelo louro e comprido passar e, como num toque de mágicas, destruir tudo. Fico pensando onde é que se enfiou a minha complicação naquela hora, porque, sinceramente, eu não a encontrava. Já a sua, estava lá, estampada na testa pra Deus e o mundo ver, como um letreiro de Hollywood ou Las Vegas. Era simples o meu querer naquele momento, não havia complicação nenhuma. Eu te queria e só. Porém a sua complexidade pedia mais, desejava o rabo de saia que, por sinal, era muito curta e rebolava lá adiante. Complicou a nossa história, se embaralhou na hora de me deixar, foi embora não querendo ir, ficou sem querer ficar. Mudou, completamente. Transformou-se em um alguém que não me merecia. Não falava, não sorria, não sentia. Senti saudade com você do lado, e saudade de alguém que está por perto dói mais do que qualquer despedida. Fiquei cansada. Enchi-me de coragem e terminei com tudo, porque você não o fazia. Prefiro o não ter mais ao qualquer coisa, e sempre deixei isso bem claro. Claro, clareza, simplicidade. Antônimo de complicação. Nos dicionários da vida uma palavra acaba que ligada a outra. E elas são minhas. Eu as usei. Você, ao invés disso, foi botar na balança, fazer a contabilidade, tentar explicar o inexplicável, conter os desejos, mentir. Foi colocar x em conta de dois mais dois, transformar soma em equação de segundo grau. Bagunça. É exatamente isso que você, homens, fazem: bagunça. Depois da bagunça, vocês, quase sempre, se arrependem. Vem de vassoura na mão e rabinho entre as penas. O seu broto, eu soube, mais tarde, por terceiros, quis deixar sementes na cama do vizinho. Não a culpo, ela quer e corre atrás. Qualquer coisa é melhor que complicar.

           Você me transformou naquele dia, e quero que saiba. Não entendo mais nada, desde então. Nenhuma indireta, ainda que reta, é pra mim. Graças a você, me tornei bem pior que cubo mágico e pra juntar as minhas partes muitas cabeças serão quebradas. Por sua causa, eu, agora, preciso de um amor que se arrisque e me convença, que me pegue pelo braço e me chacoalhe no alto de uma montanha dizendo que vale a pena voltar a ser simples.

domingo, 13 de maio de 2012

Eu não te amo, garoto


         Não vou mentir, não faz o meu tipo a tal da mentira, não me dou muito bem com a desgraçada, não sei usá-la a meu favor. Perdoe-me por dizer verdades que na maioria das vezes magoam, mas, sou assim, e não amo você. Não vou mentir, eu não amo você. Sei que não é amor e ponto final. Ou reticências, nesse caso. Eu sei que não é amor, porque sinto que é menos. Quando sinto que é mais digo desconhecer. “Não sei o que” significa “eu te amo”, na minha língua. Se eu sei, não é amor. Isso que te sinto não é amor. É menos. Eu sinto muito, mas não vou mentir: é menos. Um menos que, só porque é menos, não se torna pouco, não deixa de tomar conta. Toma-me. Pega da ponta mais dupla de um fio de cabelo meio dourado que tenho aqui, até o dedo mais comprido do pé. Meu pé feio e magro. Pega tudo, garoto. Meu seio, meu queixo, minha boca, minha nuca. Faz de mim pensamento seu nessa noite escura e fria que quase obriga a gente a dormir, dizendo que amanhã o dia começa cedo. “Dorme, menina, dorme que amanhã é dia.”

           Não. Eu não te amo, mas te quero feliz. E o mais perto de mim possível. Eu não te amo, mas quero você bem longe dessas piriguetes metidas a garotas super populares que, só porque moram em uma cidade cálida, acham que podem te mostrar a bunda. Não quero você querendo aquelas bundas, garoto. Desculpa. Desculpe-me por ficar dizendo bunda o tempo todo, mas é que, ao seu lado, não tenho medo de ser assim, desse meu jeito meio estranho mesmo. Você me deixa ser quem eu quero e isso é bom demais, porque raramente deixam. Você me permite ser inteira, garoto, e vale a pena por isso, por tudo. Você é bom, me faz um bem danado. Aposto que nem sabe o motivo, mas faz. Faz-me bem porque canta as minhas músicas preferidas e gosta delas tanto quanto eu, porque não tenta ser aquilo que não é e sempre me deixa ser aquilo que sou, ou quero ser, que seja. Que seja!  O seu beijo é bom, garoto, e mesmo que a gente se beije pelos cantos nunca vamos nos machucar. Quem é, hoje em dia, que beija alguém pelos cantos e não sai de coração partido? É só a gente, meu menino. Não é dever, não tem culpa, é coisa boa e coisa boa não machuca.

          Olha, quando eu fico sozinha em casa, fico também te lembrando. Aqui faz muito frio e fico te lembrando. Eu penso sempre em você. Quando um cara chega a mim, meio sem jeito, sem graça: lembro-te. Lembro porque você sabia exatamente o que fazer e não tinha receio de que o mundo visse todos estes feitos. Tinha vontade de dizer alguma coisa e simplesmente dizia, sem rodeios. Só ia lá e me dizia. Era simples com você. Uma simplicidade que ninguém mais tem. Ninguém. Andei procurando em outros homens um pouco disso, mas não encontro. Não existe esforço para estar ao seu lado. Eu não preciso de jogos, caça, escudo, espada, nada disso. É fácil te querer. E eu quero, muito, bem mais do que qualquer outro.

         Ultimamente, garoto, eu andei querendo voltar no tempo. Quem dera tivéssemos sido maduros o bastante para enxergar o quanto nos encaixávamos. Quem dera não houvesse distância agora, e toda essa saudade em mim. Quem me dera poder te trazer pra perto e guardar­-te na minha cúpula de vidro até estar realmente pronta para retribuir o seu amor. Pra não te machucar, pra não me machucar. Pra manter intacta toda essa beleza de que conto agora. Não destruir, só construir. Não fugir nunca mais.

           Porque, sabe, garoto, eu não te amo, agora, mas o que restar de mim, amanhã, sim.

domingo, 6 de maio de 2012

Aqui


          Chove muito aqui, onde moro. Acho até que já disse isso, em outro texto, mas como o muito é muito mesmo, não custa enfatizar. É véspera de feriado e estou feliz por não precisar trabalhar amanhã. Eu sou a única que não trabalha no dia do feriado, nessa cidade. Lá no meu trabalho ninguém tem sábado nem domingo nem feriado. Enquanto aprendiz, eu tenho. Por enquanto, tenho.

        Está chovendo tanto que o meu guarda chuva velho precisou ser trocado por um mais resistente. Aqui não tem verão, não. O nosso ano se divide em nove meses de outono/inverno e três de primavera. Tem sol na primavera, mas nunca faz aquele calor de matar. No resto do ano chuva e frio, frio e chuva. As pessoas me perguntam, o tempo todo, como é possível ser feliz com “esse tempo melequento” e, infelizmente, nunca sei dar a elas uma resposta animadora. Sorrio, meio sem sal, e troco o assunto. Só sei que é possível e que gosto daqui. Lá a diante, vou dizer, assim, que só gosto e ponto final. Porque, algum dia, os meus gostos vão ser menos complicados de explicar. Só gosto e ponto. Gosto de todo e qualquer lugar durante um tempo, depois não gosto mais e me mudo. Faço a mudança parecer mais fácil do que é. Aconselho. Mudar pra mim é tão bom quanto o sol para vocês. Faz-se necessário até, às vezes. Venha, mude-se comigo! Vai entender.

         O meu guarda chuva novo é preto, todo preto, diferente do outro que tinha o lado interno azul e o externo meio prateado. Ele é maior também, e mais resistente. A vendedora disse que era, pelo menos, e eu acreditei. A chuva estava forte demais e eu precisava acreditar. Não tinha tempo para argumentar e pedir descontos, não. Era acreditar no escudo que uma desconhecida me oferecia como sendo mais resistente que o antigo e por um preço razoável ou chegar no trabalho ainda mais ensopada. Era quase não ter escolha, e o mundo todo sabe que escolho muito melhor quando não tenho escolha.

          Estava chovendo muito quando cheguei, e muito mais quando sai. Estava escuro quando sai e ainda nem era noite. Mas eu quis imaginar que sim, porque parecia que era. E o dia foi tão cansativo, afinal. Dez horas da noite, quis imaginar. E, como meu ônibus só apareceria daí quarenta minutos, decidi passar em uma chocolateria e procurar café. É estranho procurar essa bebida numa loja de chocolates, mas as padarias ficam longe demais. E eu ando meio viciada em café. Cappuccino, pra ser mais exata. Há algum tempo, resolvi sair pela minha cidade de “clima melequento” procurando um cappuccino que seja quase tão bom quanto o que tomava na cidade antiga. Quase tão bom porque tão bom quanto é impossível. Talvez eu esteja com saudades de antes. Estou, mas, de qualquer forma, isso não vem ao caso agora.

           O caso de agora é que a cafeteira da chocolateria estava quebrada. Pensei em dizer que, assim como o meu guarda chuva velho, ela precisava ser trocada por uma máquina mais resistente, mas não disse. Enrolei um pouco ali, para não ficar tanto tempo, depois, no ponto de ônibus que, por sinal, não tem cobertura nenhuma, nem um telhadinho sequer. Acabei comprando um chocolate, pra minha avó, porque sair de mãos abanando seria meio feio. Comprei um bombom com recheio de maçã do amor. Sabor estranho, eu sei, mas a minha avó não se importa mais com as minhas estranhezas. Ela até gosta, na maioria das vezes.

         Na maioria das vezes não tem ninguém além de mim nesse ponto de ônibus. Hoje não tem, e ontem não teve. Arrisco-me a dizer que amanhã também não terá porque é feriado, e porque quase nunca tem. Quase nunca é uma palavra engraçada, vocês não acham? Eu acho que o meu ônibus chega em dez minutos e, enquanto ele não vem, vejo dezenas de carro passando. A pista está molhada por causa da muita chuva de sempre e mesmo olhando pro chão consigo ver faróis se aproximando, refletidos naquele aguaceiro do chão. Amanhã, quando o mundo acordar, muitas pessoas estarão aqui. Hoje, quando eu chegar em casa, estarei ensopada, penso. O meu casaco está úmido, os sapatos molhados e o guarda chuva novo, preto e mais resistente, coitado, nem se fale. Ele segura o máximo de gotas possíveis, mas é inevitável que algumas escapem. Eu entendo. A gente sempre deixa escapar alguma coisa.

         Nessa minha busca por cappuccino, cafeína, explicações de esse meu gostar daqui e do “tempo melequento” e do dia que mais parece noite, quase deixo escapar que a sua casa fica bem perto do meu trabalho. Você é quase vizinho da loja de chocolates sem cafeteira. Eu quase consigo ver a janela do seu quarto, de onde estou. Não tem ninguém em casa, você foi viajar e só volta depois de amanhã. Não, não imaginei isso. Eu sei. Eu só imagino as horas, quando o escuro ajuda. E te imagino gostando de mim, também, todo dia. Querida, você está ensopada! Vem, vamos pra casa, é bem perto daqui, você toma um banho, veste uma camisa minha enquanto colocamos suas roupas na secadora e, depois, chamo um táxi para te levar de volta, caso não queira ficar, claro. Na minha imaginação você diz isso e eu fico. Fico, aqui, na sua casa, aqui longe da minha, aqui nessa cidade onde só chove e faz frio. Fico porque sua camisa me cai bem, porque tem secadora e banho quente na sua casa, porque essa chuva vai durar até amanhã, e é feriado, afinal.

          Fico aqui porque não tem café e, assim, não me forço a despertar dessa idiotice de imaginação que é ser eu gostando de um você que retribui.