Chove muito aqui, onde moro. Acho até que já disse isso, em outro texto, mas como o muito é muito mesmo, não custa enfatizar. É véspera de feriado e estou feliz por não precisar trabalhar amanhã. Eu sou a única que não trabalha no dia do feriado, nessa cidade. Lá no meu trabalho ninguém tem sábado nem domingo nem feriado. Enquanto aprendiz, eu tenho. Por enquanto, tenho.
Está chovendo tanto que o meu guarda chuva velho precisou ser trocado por um mais resistente. Aqui não tem verão, não. O nosso ano se divide em nove meses de outono/inverno e três de primavera. Tem sol na primavera, mas nunca faz aquele calor de matar. No resto do ano chuva e frio, frio e chuva. As pessoas me perguntam, o tempo todo, como é possível ser feliz com “esse tempo melequento” e, infelizmente, nunca sei dar a elas uma resposta animadora. Sorrio, meio sem sal, e troco o assunto. Só sei que é possível e que gosto daqui. Lá a diante, vou dizer, assim, que só gosto e ponto final. Porque, algum dia, os meus gostos vão ser menos complicados de explicar. Só gosto e ponto. Gosto de todo e qualquer lugar durante um tempo, depois não gosto mais e me mudo. Faço a mudança parecer mais fácil do que é. Aconselho. Mudar pra mim é tão bom quanto o sol para vocês. Faz-se necessário até, às vezes. Venha, mude-se comigo! Vai entender.
O meu guarda chuva novo é preto, todo preto, diferente do outro que tinha o lado interno azul e o externo meio prateado. Ele é maior também, e mais resistente. A vendedora disse que era, pelo menos, e eu acreditei. A chuva estava forte demais e eu precisava acreditar. Não tinha tempo para argumentar e pedir descontos, não. Era acreditar no escudo que uma desconhecida me oferecia como sendo mais resistente que o antigo e por um preço razoável ou chegar no trabalho ainda mais ensopada. Era quase não ter escolha, e o mundo todo sabe que escolho muito melhor quando não tenho escolha.
Estava chovendo muito quando cheguei, e muito mais quando sai. Estava escuro quando sai e ainda nem era noite. Mas eu quis imaginar que sim, porque parecia que era. E o dia foi tão cansativo, afinal. Dez horas da noite, quis imaginar. E, como meu ônibus só apareceria daí quarenta minutos, decidi passar em uma chocolateria e procurar café. É estranho procurar essa bebida numa loja de chocolates, mas as padarias ficam longe demais. E eu ando meio viciada em café. Cappuccino, pra ser mais exata. Há algum tempo, resolvi sair pela minha cidade de “clima melequento” procurando um cappuccino que seja quase tão bom quanto o que tomava na cidade antiga. Quase tão bom porque tão bom quanto é impossível. Talvez eu esteja com saudades de antes. Estou, mas, de qualquer forma, isso não vem ao caso agora.
O caso de agora é que a cafeteira da chocolateria estava quebrada. Pensei em dizer que, assim como o meu guarda chuva velho, ela precisava ser trocada por uma máquina mais resistente, mas não disse. Enrolei um pouco ali, para não ficar tanto tempo, depois, no ponto de ônibus que, por sinal, não tem cobertura nenhuma, nem um telhadinho sequer. Acabei comprando um chocolate, pra minha avó, porque sair de mãos abanando seria meio feio. Comprei um bombom com recheio de maçã do amor. Sabor estranho, eu sei, mas a minha avó não se importa mais com as minhas estranhezas. Ela até gosta, na maioria das vezes.
Na maioria das vezes não tem ninguém além de mim nesse ponto de ônibus. Hoje não tem, e ontem não teve. Arrisco-me a dizer que amanhã também não terá porque é feriado, e porque quase nunca tem. Quase nunca é uma palavra engraçada, vocês não acham? Eu acho que o meu ônibus chega em dez minutos e, enquanto ele não vem, vejo dezenas de carro passando. A pista está molhada por causa da muita chuva de sempre e mesmo olhando pro chão consigo ver faróis se aproximando, refletidos naquele aguaceiro do chão. Amanhã, quando o mundo acordar, muitas pessoas estarão aqui. Hoje, quando eu chegar em casa, estarei ensopada, penso. O meu casaco está úmido, os sapatos molhados e o guarda chuva novo, preto e mais resistente, coitado, nem se fale. Ele segura o máximo de gotas possíveis, mas é inevitável que algumas escapem. Eu entendo. A gente sempre deixa escapar alguma coisa.
Nessa minha busca por cappuccino, cafeína, explicações de esse meu gostar daqui e do “tempo melequento” e do dia que mais parece noite, quase deixo escapar que a sua casa fica bem perto do meu trabalho. Você é quase vizinho da loja de chocolates sem cafeteira. Eu quase consigo ver a janela do seu quarto, de onde estou. Não tem ninguém em casa, você foi viajar e só volta depois de amanhã. Não, não imaginei isso. Eu sei. Eu só imagino as horas, quando o escuro ajuda. E te imagino gostando de mim, também, todo dia. Querida, você está ensopada! Vem, vamos pra casa, é bem perto daqui, você toma um banho, veste uma camisa minha enquanto colocamos suas roupas na secadora e, depois, chamo um táxi para te levar de volta, caso não queira ficar, claro. Na minha imaginação você diz isso e eu fico. Fico, aqui, na sua casa, aqui longe da minha, aqui nessa cidade onde só chove e faz frio. Fico porque sua camisa me cai bem, porque tem secadora e banho quente na sua casa, porque essa chuva vai durar até amanhã, e é feriado, afinal.
Fico aqui porque não tem café e, assim, não me forço a despertar dessa idiotice de imaginação que é ser eu gostando de um você que retribui.

Nenhum comentário:
Postar um comentário