Não vou mentir, não faz o meu tipo a tal da mentira, não me dou muito bem com a desgraçada, não sei usá-la a meu favor. Perdoe-me por dizer verdades que na maioria das vezes magoam, mas, sou assim, e não amo você. Não vou mentir, eu não amo você. Sei que não é amor e ponto final. Ou reticências, nesse caso. Eu sei que não é amor, porque sinto que é menos. Quando sinto que é mais digo desconhecer. “Não sei o que” significa “eu te amo”, na minha língua. Se eu sei, não é amor. Isso que te sinto não é amor. É menos. Eu sinto muito, mas não vou mentir: é menos. Um menos que, só porque é menos, não se torna pouco, não deixa de tomar conta. Toma-me. Pega da ponta mais dupla de um fio de cabelo meio dourado que tenho aqui, até o dedo mais comprido do pé. Meu pé feio e magro. Pega tudo, garoto. Meu seio, meu queixo, minha boca, minha nuca. Faz de mim pensamento seu nessa noite escura e fria que quase obriga a gente a dormir, dizendo que amanhã o dia começa cedo. “Dorme, menina, dorme que amanhã é dia.”
Não. Eu não te amo, mas te quero feliz. E o mais perto de mim possível. Eu não te amo, mas quero você bem longe dessas piriguetes metidas a garotas super populares que, só porque moram em uma cidade cálida, acham que podem te mostrar a bunda. Não quero você querendo aquelas bundas, garoto. Desculpa. Desculpe-me por ficar dizendo bunda o tempo todo, mas é que, ao seu lado, não tenho medo de ser assim, desse meu jeito meio estranho mesmo. Você me deixa ser quem eu quero e isso é bom demais, porque raramente deixam. Você me permite ser inteira, garoto, e vale a pena por isso, por tudo. Você é bom, me faz um bem danado. Aposto que nem sabe o motivo, mas faz. Faz-me bem porque canta as minhas músicas preferidas e gosta delas tanto quanto eu, porque não tenta ser aquilo que não é e sempre me deixa ser aquilo que sou, ou quero ser, que seja. Que seja! O seu beijo é bom, garoto, e mesmo que a gente se beije pelos cantos nunca vamos nos machucar. Quem é, hoje em dia, que beija alguém pelos cantos e não sai de coração partido? É só a gente, meu menino. Não é dever, não tem culpa, é coisa boa e coisa boa não machuca.
Olha, quando eu fico sozinha em casa, fico também te lembrando. Aqui faz muito frio e fico te lembrando. Eu penso sempre em você. Quando um cara chega a mim, meio sem jeito, sem graça: lembro-te. Lembro porque você sabia exatamente o que fazer e não tinha receio de que o mundo visse todos estes feitos. Tinha vontade de dizer alguma coisa e simplesmente dizia, sem rodeios. Só ia lá e me dizia. Era simples com você. Uma simplicidade que ninguém mais tem. Ninguém. Andei procurando em outros homens um pouco disso, mas não encontro. Não existe esforço para estar ao seu lado. Eu não preciso de jogos, caça, escudo, espada, nada disso. É fácil te querer. E eu quero, muito, bem mais do que qualquer outro.
Ultimamente, garoto, eu andei querendo voltar no tempo. Quem dera tivéssemos sido maduros o bastante para enxergar o quanto nos encaixávamos. Quem dera não houvesse distância agora, e toda essa saudade em mim. Quem me dera poder te trazer pra perto e guardar-te na minha cúpula de vidro até estar realmente pronta para retribuir o seu amor. Pra não te machucar, pra não me machucar. Pra manter intacta toda essa beleza de que conto agora. Não destruir, só construir. Não fugir nunca mais.
Porque, sabe, garoto, eu não te amo, agora, mas o que restar de mim, amanhã, sim.

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