Quando o meu celular tocou, exatamente às 18 horas em plena sexta-feira e o número dela apareceu no identificador de chamadas, me assustei. Ela raramente liga nesse horário onde tarde vira noite de repente porque sabe que, na maioria das vezes, não estou disponível. Mal pude ouvi-la do outro lado da linha e, por isso, imaginei que a ligação estivesse ruim. Depois de alguns segundos percebi que me enganara, a ligação não estava com problemas, à mulher sim. Ela estava chorando e as únicas letras que me conseguiu dizer foram as de teu nome. Ouvindo-a aos prantos pensei no pior. Tentei fazer com que ela se acalmasse e me contasse, em detalhes, tudo o que havia acontecido. Enquanto não contava, pensei em um acidente trágico com você, imprudente que só, sem cinto de segurança, depois em uma overdose e, por último, em assassinato ou suicídio. O ser humano é pessimista quando se trata de “adivinhar” situações. Quando se trata da minha imaginação e da sua vida em risco o pessimismo torna-se três vezes pior. Assim que ela, finalmente, conseguiu dizer o que se passava fiquei intacta. Eu imaginara inúmeras coisas, porém, ainda que óbvio, jamais pensaria naquilo. Não soube o que falar, não saiu de mim nenhuma palavra que se pudesse aproveitar, balbuciei qualquer estupidez e decidi ligar mais tarde. Devo ter dito “calma, te ligo depois” ou algo bem parecido com isso.
Naquele momento, a única coisa em que consegui pensar foi na nossa infância, você com nove anos, eu com oito, as risadas fora de hora e sem motivo que acabavam por nos causar castigos desnecessários, as palhaçadas feitas por você que me proporcionavam uma leve dor no abdômen por causa das gargalhadas ininterruptas, as brigas em que eu arrancava os seus cabelos e você se punha a chorar. Lembrei-me de quando eu quis fazer pedidos demais e você arrancou a metade dos seus cílios para me ajudar. As vezes que andávamos de bicicleta nas ruas calmas de nossa antiga cidade, sua gana pelos meus cremes com cheiros de fruta, as danças malucas e piadas sem graça que inventavas para me animar foram as únicas coisas que vieram a minha cabeça. Desejei ter você com treze anos, de novo, em casa, sem gente ruim por perto, sem maldade no coração. Quem te vê hoje, agora principalmente, não acredita, mas, eu sei, ela chorando do outro lado da linha sabe, você foi uma das pessoas mais amorosas já existentes neste mundo. Quem me vê hoje, agora pra ser mais exata, depois desta ligação, te matando dentro de mim, não acredita que, há um tempo, te amei mais que a mim mesma. Ninguém que me vê tentando te tirar do coração a força acredita que, um dia, fomos inseparáveis. As pessoas que estiverem me lendo e não se lembrarem de nós ou não nos tiverem conhecido acharão que minhas palavras aqui são uma chacota, que somos opostos completos que jamais se completaram. Eu mesma não consigo acreditar, não há santo, anjo, Deus nesse mundo que me faça estar certa do que está acontecendo. Parece sonho, pesadelo.
Conheço dezenas de garotos com a sua idade e quanto olho para eles fico tentando entender o que te aconteceu. Eu queria que alguém se sentasse ao meu lado e dissesse os porquês, ou como ajudar, ou quando isso vai passar - se é que passa. Porém ninguém diz, não ouvi nenhuma frase melhor que “calma, tudo vai se ajeitar”. Eu queria uma data para tudo se ajeitar, um culpado, alguém para caçar, uma cura palpável que se pudesse comprar, eu te queria como pássaro para por na gaiola e não precisar ver indo embora nunca mais.
Já perdi as contas das vezes que chorei por você ou tentei consolar esta mulher que me ligara a pouco, chorando também por sua causa. A gente se cansa. Por mais amor que exista em mim a gente se cansa. Lutei por você, sim, esperei anos pela sua melhora, sonhei com a sua volta e os dizeres de que tudo não passara de um momento ruim. Só que esse tempo não chega; essa luta não acaba e eu ando tão cansada, sabe?
Eu não queria muita coisa, não. Nada além de voltar no tempo e te afastar de tudo aquilo que o afastou de nós. Queria menos lágrimas, menos dor e você se tornando você de novo. Queria-te fora do monstro para ter de volta o meu amor. E só.



