terça-feira, 24 de julho de 2012

Monstro


Quando o meu celular tocou, exatamente às 18 horas em plena sexta-feira e o número dela apareceu no identificador de chamadas, me assustei. Ela raramente liga nesse horário onde tarde vira noite de repente porque sabe que, na maioria das vezes, não estou disponível. Mal pude ouvi-la do outro lado da linha e, por isso, imaginei que a ligação estivesse ruim. Depois de alguns segundos percebi que me enganara, a ligação não estava com problemas, à mulher sim. Ela estava chorando e as únicas letras que me conseguiu dizer foram as de teu nome. Ouvindo-a aos prantos pensei no pior. Tentei fazer com que ela se acalmasse e me contasse, em detalhes, tudo o que havia acontecido. Enquanto não contava, pensei em um acidente trágico com você, imprudente que só, sem cinto de segurança, depois em uma overdose e, por último, em assassinato ou suicídio. O ser humano é pessimista quando se trata de “adivinhar” situações.  Quando se trata da minha imaginação e da sua vida em risco o pessimismo torna-se três vezes pior. Assim que ela, finalmente, conseguiu dizer o que se passava fiquei intacta. Eu imaginara inúmeras coisas, porém, ainda que óbvio, jamais pensaria naquilo. Não soube o que falar, não saiu de mim nenhuma palavra que se pudesse aproveitar, balbuciei qualquer estupidez e decidi ligar mais tarde. Devo ter dito “calma, te ligo depois” ou algo bem parecido com isso.

Naquele momento, a única coisa em que consegui pensar foi na nossa infância, você com nove anos, eu com oito, as risadas fora de hora e sem motivo que acabavam por nos causar castigos desnecessários, as palhaçadas feitas por você que me proporcionavam uma leve dor no abdômen por causa das gargalhadas ininterruptas, as brigas em que eu arrancava os seus cabelos e você se punha a chorar. Lembrei-me de quando eu quis fazer pedidos demais e você arrancou a metade dos seus cílios para me ajudar. As vezes que andávamos de bicicleta nas ruas calmas de nossa antiga cidade, sua gana pelos meus cremes com cheiros de fruta, as danças malucas e piadas sem graça que inventavas para me animar foram as únicas coisas que vieram a minha cabeça. Desejei ter você com treze anos, de novo, em casa, sem gente ruim por perto, sem maldade no coração. Quem te vê hoje, agora principalmente, não acredita, mas, eu sei, ela chorando do outro lado da linha sabe, você foi uma das pessoas mais amorosas já existentes neste mundo. Quem me vê hoje, agora pra ser mais exata, depois desta ligação, te matando dentro de mim, não acredita que, há um tempo, te amei mais que a mim mesma. Ninguém que me vê tentando te tirar do coração a força acredita que, um dia, fomos inseparáveis. As pessoas que estiverem me lendo e não se lembrarem de nós ou não nos tiverem conhecido acharão que minhas palavras aqui são uma chacota, que somos opostos completos que jamais se completaram. Eu mesma não consigo acreditar, não há santo, anjo, Deus nesse mundo que me faça estar certa do que está acontecendo. Parece sonho, pesadelo.

Conheço dezenas de garotos com a sua idade e quanto olho para eles fico tentando entender o que te aconteceu. Eu queria que alguém se sentasse ao meu lado e dissesse os porquês, ou como ajudar, ou quando isso vai passar - se é que passa. Porém ninguém diz, não ouvi nenhuma frase melhor que “calma, tudo vai se ajeitar”. Eu queria uma data para tudo se ajeitar, um culpado, alguém para caçar, uma cura palpável que se pudesse comprar, eu te queria como pássaro para por na gaiola e não precisar ver indo embora nunca mais.

Já perdi as contas das vezes que chorei por você ou tentei consolar esta mulher que me ligara a pouco, chorando também por sua causa. A gente se cansa. Por mais amor que exista em mim a gente se cansa. Lutei por você, sim, esperei anos pela sua melhora, sonhei com a sua volta e os dizeres de que tudo não passara de um momento ruim. Só que esse tempo não chega; essa luta não acaba e eu ando tão cansada, sabe?

Eu não queria muita coisa, não. Nada além de voltar no tempo e te afastar de tudo aquilo que o afastou de nós. Queria menos lágrimas, menos dor e você se tornando você de novo. Queria-te fora do monstro para ter de volta o meu amor. E só.

quarta-feira, 18 de julho de 2012

Azul



“Ele tem olhos claros”, dizia eu, aos seis anos, sempre que alguém perguntava sobre meu suposto namorado. Imaginava, antigamente, que as cores de nossos olhos iriam se misturar e se transformar em outra ainda mais bonita. Para mim, amor era isso, uma mistura das minhas cores com as cores de outro alguém. O verde dos meus olhos e o azul dos dele, juntos, formando uma coisa que nós não sabíamos explicar, mas já considerávamos importante. Naquela época não entendia bem o porquê pessoas grandes gostavam tanto de nos ouvir falar sobre os relacionamentos que nem sequer existiam. Hoje, compreendo perfeitamente. Além de ser engraçadíssimo ouvir crianças, que mal pronunciam uma frase corretamente, falando de sentimentos que nem nós, adultos, sabemos explicar, tem também aquele calor inocente nas vozes agudas e frágeis dos pequenos, contam-nos sobre um beijo no rosto como se o ato fosse mais valioso que qualquer outra pedra preciosa do universo. Seguram as mãos uns dos outros e estão no céu. Esse céu azul e idílico de agora, claro como os sonhados olhos de amor infantil, aquário, lagoa cristalina, caudalosa, quase mar, que afunda, aprofunda e faz a gente se perder. Claro que de branco não tem nada, era azul, meio água.

Certamente que depois de grande, não tão grande, só mais velha, deixei este portento um pouco de lado. Quando nos vimos pela primeira vez eu raramente sonhava com esta mescla de cores. Seus olhos eram os mais lindos que os meus já haviam sido capazes de observar, não nego, mas os devaneios de agora já não eram mais os mesmos de anos atrás. O amor aquarela foi deixado no passado e deu lugar aos estudos, trabalho e tudo o mais que a vida cobra da gente. Acenei para você e recebi em troca o mesmo sinal. Sentávamos um ao lado do outro e as conversas do dia a dia foram inevitáveis. Conhecemo-nos aos poucos, ficamos amigos. Tempos depois, muito amigos. Tão amigos que te amei. Você era o melhor de mim, sorria, fazia sorrir, funcionávamos de um jeito que não se vê mais nem em filmes hollywoodianos. Conversávamos sobre tudo, raramente tínhamos segredos. Suas mãos alisavam o meu cabelo bagunçado todas as noites, seus olhos guiavam os meus para o que havia de mais puro e límpido nos dias. Ao seu lado retornei aos seis anos, misturei as nossas cores, mesclei o que havia de mais bonito em nós. Éramos a aquarela de antes, agora. Desejei, mais do que qualquer outra coisa, que fossemos para sempre, como nos contos de fadas que ouvia quando criança. Acreditei que seríamos, durante um tempo, mas me enganei. Interpelo-me, todos os dias, aonde foi que eu errei. Tenho vontade de perguntar a você, também, às vezes, mas o medo de que a resposta seja a falta de amor me assombra. Eu não resistiria se fosse, então, prefiro não saber.

Nós nos separamos por necessidade, quero pensar (e penso). A lembrança das suas malas arrumadas, o adeus, o abraço quente que ainda não me deixou são, ainda, melhores que qualquer explicação plausível sobre o fim - se é que existe alguma explicação para este. Depois de tudo, do tempo, das crenças que você me fez voltar a ter, dos sonhos inocentes de antigamente, prefiro crer que não tem. Se tiver também, não importa, é você que habita o meu coração desde então, não há ninguém além, nada que ocupe o seu lugar e isso nunca vai mudar. Você pode ir e vir quantas vezes quiser. Eu estarei sempre esperando. Tem espaço na gaveta, na cama. Tem amor de sobra para nós dois, em mim. Amor cor de céu, de jardim, de nós dois, misturados feito caixa de giz. Amor da cor dos olhos, dos seus, inebriantes, maviosos, piscina. Azul.

segunda-feira, 9 de julho de 2012

Sem você



Todos os significados encontrados por mim sobre a palavra orgulho, em sites de pesquisa, foram heteróclitos. Eu não sou incapaz de reconhecer que sofro sem você, não tenho uma auto-estima nas nuvens e também não me sinto plenamente satisfeita em ignorar as pessoas. Eu não sou nenhuma destas coisas que estavam escritas sobre a altivez humana. Pensei que sim, durante um tempo, mas talvez não seja. Não parei de te escrever aquelas cartas porque dar o braço a torcer seria como perdê-lo. Não me importaria de perder nenhum membro do corpo por sua causa. Soa exagerado, eu sei, mas não estava  mentindo quando disse que você era uma parte importante de mim. Parei de te escrever porque não te sinto mais. Tem ideia do quanto dói não sentir você? É mesmo como perder um braço. Bem pior que deixá-lo torcer-se.

Quando nos conhecemos, juramos um ao outro que não seria assim, que distância nenhuma faria diferença, que os dias sem que nos víssemos passariam rápido e nos falaríamos sempre que possível. Sempre que possível tornou-se quase nunca, os dias têm muito mais de 24 horas desde então, a distância, antes física, ficou muito maior entre nossos corações. É por isso que eu não te escrevo, porque não há resposta. Nós estamos afundando, você vê, tem um bote nas mãos, mas não faz nada. Eu também não faço, confesso, mas é só porque me cansei de remar sozinha. Se fosse orgulho eu não estaria morrendo por dentro, existiria alguma satisfação em mim, eu teria uma auto-estima mínima, mas não, nada além de uma vontade exorbitante de deixar de existir. Lutar sozinha vai fazendo a gente perder as forças. Eu, sem você, sou apenas um rascunho de mim, quase sombra. Sem te sentir as coisas saem do lugar, perdem o sentido, não doem nem deixam sorrir, vegetam e, você bem sabe, eu odeio vegetais.

Esperava mais de quem sempre prometeu estar comigo. Esperava muito mais de quem, antes de amor, foi melhor amigo. Acreditei que ficaria ao meu lado quando o mundo resolvesse desabar. O mundo resolveu, desabou e nada de você por aqui. Tento, agora, renascer das cinzas sem o seu apoio. O apoio que passamos a vida prometendo um ao outro, que sempre achei que teria quando precisasse. Queria que você deixasse os seus amigos e ficasse horas ao telefone me ouvindo falar sobre essa droga de vida, sim. Eu deixaria, ficaria, abriria mão de tudo por você e não te ver fazendo o mesmo por mim é altamente destrutivo. Não adianta me dizer, ironicamente, que sua bola de cristal está quebrada, que não sabia de nada, porque eu disse, o tempo todo enviei sinais a você. E nada. Para alguém que me conhece e me ama tanto quanto diz - ou disse, que seja – nada foi decepcionante. Eu sinto a sua falta todo o santo dia, não vou mentir. Confesso que ainda penso na gente, mas me cansei de lutar por alguém que não faz questão nenhuma de estar ao meu lado. O meu erro foi ser plenamente sua enquanto você se entregava ao mundo. Aguardar o seu socorro, acreditar no seu amor, em vão.

Você precisa saber de um jeito ou de outro, ainda que não queira, que não te ter aqui destrói todas as minhas crenças, que só não te procurei porque perdi todas as forças e, diante das circunstâncias, de tudo o que vivemos, imaginei que viria me salvar. Você não veio. Tenho quase certeza de que não vem e esperar, neste caso, anda causando muito mais estragos que deixar tudo para trás e seguir sozinha. Você precisa saber que eu apostei todas as minhas fichas em nós, perdi e, agora, só me resta ir embora. Eu estou te deixando e não é por falta de amor. Pode ter faltado tudo, menos amor.

segunda-feira, 2 de julho de 2012

Encenação


O que mostro ao mundo nem sempre é verdadeiro. Apesar de mentir mal, finjo muito bem. Se alguém perguntar o quão feliz eu estou, direi que nem um pouco, mas se me pedirem para fingir, serão raras as pessoas não convencidas pela interpretação. Talvez seja esse o motivo pelo qual estou parada há duas horas em um ponto de ônibus escuro e frio, sem que ninguém ligue perguntando como me sinto. Certamente, acham que estou em um bar qualquer, enchendo a cara e rindo a toa, ou em uma danceteria com as muitas colegas que arrumei. O orgulho exorbitante não me deixa dizer que elas não passam de meras colegas, que nenhuma delas sabe o nome do cara de que mais gosto, da história difícil da minha família, das lágrimas que escorrem de meus olhos, todas as noites, encharcando o travesseiro. A altivez não me permite confessar que eu odeio bares e bebidas e quando estou lá, beijando algum desconhecido do qual nem gosto, é para fingir melhor. Os beijos que andei dando naquelas garotas, quase reflexos de mim, porém mais doces e felizes, foram para fingir. Eu vou dançar se o mundo me pedir, vou sorrir, gargalhar, cortar o cabelo de um jeito que fique na moda, vou simular certo apreço por todas estas coisas, se necessário, farei o mundo acreditar que sou feliz enquanto, ao invés disso, morro por dentro. Ficar aqui, sem ninguém, me fez desejar uma ligação ainda que por engano só para saber que alguém, em algum lugar do mundo, pode me ouvir mesmo sem querer falar comigo. Eu raramente desejo ser notada, mas hoje é um dia diferente.

O ponto de ônibus parece uma tenda de roupas, daquelas que vemos nas feiras paulistas. Encosto em um dos pilares, que suportam o telhado de metal, e tento esconder o rosto molhado. Estou com medo e nem sequer consigo rezar. Tem muito tempo que não tenho vontade de pedir nada a Deus. Proteção, dinheiro, paz, nenhuma dessas coisas. Eu não converso mais com Ele antes de dormir ou em qualquer outra hora do dia que seja. Quantas pessoas que dizem me amar realmente me amam? Talvez a metade, talvez nem isso.

Anda fazendo muito frio por aqui e, ainda assim, eu, imaginando que o sol poderia aparecer e que estaria em casa antes do anoitecer, trouxe poucas blusas.  Tenho mania de não perder as esperanças nesse tipo de coisa. Sou quase capaz de acreditar em contos de fadas, às vezes. O escuro toma conta do céu, agora, minhas pernas tremem e eu não sinto mais as pontas dos dedos. Penso na morte, em quando ela virá me visitar. Se fosse hoje eu não resistiria, iria com ela, ao som de Lana Del Rey, com um livro de Clarice Lispector nas mãos e um colar de pérolas sobre o colo. É assim que eu quero estar quando for embora daqui. 

Em casa, encontro as portas trancadas. Tenho as chaves dentro da bolsa, claro. Entro devagar, como se alguém em algum lugar pudesse ouvir os meus suspiros abafados e atrapalhar esse trajeto até o banho que é quase uma marcha fúnebre. Pego as roupas de dormir e ligo o chuveiro. Não sei se a água está me queimando ou descongelando o meu corpo, as lágrimas, inevitavelmente, começam a cair. Minha cabeça está doendo assim como os ombros, o nariz, os olhos e todos os outros espaços. Respirar dói. O vapor machuca a pele, o nó da garganta sufoca o coração. Fingir felicidade anda me deixando tão cansada que nem sei. Quando saiu do banheiro, minha família já está de volta. Beijo-os um a um, conto as novidades do dia que foi ruim, mas digo ter sido ótimo, esquento uma comida da qual nem gosto só para não preocupar ninguém com a minha falta de fome, depois sento no sofá e fico olhando para a televisão.

Eu fico bem, ou finjo que fico até acreditar na minha própria mentira. Volto a encenar felicidade mais uma vez, e outra, e mais outra, enquanto o mundo desaba a minha volta.