quarta-feira, 18 de julho de 2012

Azul



“Ele tem olhos claros”, dizia eu, aos seis anos, sempre que alguém perguntava sobre meu suposto namorado. Imaginava, antigamente, que as cores de nossos olhos iriam se misturar e se transformar em outra ainda mais bonita. Para mim, amor era isso, uma mistura das minhas cores com as cores de outro alguém. O verde dos meus olhos e o azul dos dele, juntos, formando uma coisa que nós não sabíamos explicar, mas já considerávamos importante. Naquela época não entendia bem o porquê pessoas grandes gostavam tanto de nos ouvir falar sobre os relacionamentos que nem sequer existiam. Hoje, compreendo perfeitamente. Além de ser engraçadíssimo ouvir crianças, que mal pronunciam uma frase corretamente, falando de sentimentos que nem nós, adultos, sabemos explicar, tem também aquele calor inocente nas vozes agudas e frágeis dos pequenos, contam-nos sobre um beijo no rosto como se o ato fosse mais valioso que qualquer outra pedra preciosa do universo. Seguram as mãos uns dos outros e estão no céu. Esse céu azul e idílico de agora, claro como os sonhados olhos de amor infantil, aquário, lagoa cristalina, caudalosa, quase mar, que afunda, aprofunda e faz a gente se perder. Claro que de branco não tem nada, era azul, meio água.

Certamente que depois de grande, não tão grande, só mais velha, deixei este portento um pouco de lado. Quando nos vimos pela primeira vez eu raramente sonhava com esta mescla de cores. Seus olhos eram os mais lindos que os meus já haviam sido capazes de observar, não nego, mas os devaneios de agora já não eram mais os mesmos de anos atrás. O amor aquarela foi deixado no passado e deu lugar aos estudos, trabalho e tudo o mais que a vida cobra da gente. Acenei para você e recebi em troca o mesmo sinal. Sentávamos um ao lado do outro e as conversas do dia a dia foram inevitáveis. Conhecemo-nos aos poucos, ficamos amigos. Tempos depois, muito amigos. Tão amigos que te amei. Você era o melhor de mim, sorria, fazia sorrir, funcionávamos de um jeito que não se vê mais nem em filmes hollywoodianos. Conversávamos sobre tudo, raramente tínhamos segredos. Suas mãos alisavam o meu cabelo bagunçado todas as noites, seus olhos guiavam os meus para o que havia de mais puro e límpido nos dias. Ao seu lado retornei aos seis anos, misturei as nossas cores, mesclei o que havia de mais bonito em nós. Éramos a aquarela de antes, agora. Desejei, mais do que qualquer outra coisa, que fossemos para sempre, como nos contos de fadas que ouvia quando criança. Acreditei que seríamos, durante um tempo, mas me enganei. Interpelo-me, todos os dias, aonde foi que eu errei. Tenho vontade de perguntar a você, também, às vezes, mas o medo de que a resposta seja a falta de amor me assombra. Eu não resistiria se fosse, então, prefiro não saber.

Nós nos separamos por necessidade, quero pensar (e penso). A lembrança das suas malas arrumadas, o adeus, o abraço quente que ainda não me deixou são, ainda, melhores que qualquer explicação plausível sobre o fim - se é que existe alguma explicação para este. Depois de tudo, do tempo, das crenças que você me fez voltar a ter, dos sonhos inocentes de antigamente, prefiro crer que não tem. Se tiver também, não importa, é você que habita o meu coração desde então, não há ninguém além, nada que ocupe o seu lugar e isso nunca vai mudar. Você pode ir e vir quantas vezes quiser. Eu estarei sempre esperando. Tem espaço na gaveta, na cama. Tem amor de sobra para nós dois, em mim. Amor cor de céu, de jardim, de nós dois, misturados feito caixa de giz. Amor da cor dos olhos, dos seus, inebriantes, maviosos, piscina. Azul.

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