terça-feira, 22 de janeiro de 2013

Tanque de Guerra




Qualquer garota (e não precisa ser uma típica princesa da Disney, basta ser normal) convidada para sair numa sexta-feira a noite, por um menino bacana (que não necessariamente é um príncipe encantado, porém conhece a diferença entre “mas” e “mais” e não coloca biscoitos dentro do nariz), sairia nessa noite de sexta-feira. Qualquer garota que não fosse eu e minha vida atrapalhada, aonde tudo o que há de mais estranho no mundo acontece, claro.

Nós marcamos de nos encontrar às vinte horas, íamos a um bar perto da casa dele, longe da minha família, que só não me inscreveu num destes programas de encontros amorosos porque desconfia da minha sexualidade e tem medo de que eu confesse gostar de meninas, ao vivo, na televisão. Eu não gosto de meninas, não como eles pensam.

Saiu do trabalho às dezesseis. O ônibus passa apenas depois de trinta minutos. Devido às chuvas incessantes de janeiro, as conduções têm atrasado mais do que deviam. Chego a minha casa bem mais tarde que o previsto e ainda encontro a sala repleta de visitas. Converso um pouco com cada uma: ter fama de lésbica já é o bastante pra mim, a de mal educada eu dispenso.

Ligo o chuveiro e lavo os cabelos com calma, passando o shampoo duas vezes no couro da cabeça. Eu tenho um encontro, o moço tem uma voz agradável e é tão bem apessoado quanto um príncipe de filme de comédia americano. Talvez a gente se entenda, talvez ele coloque uma de suas mãos em uma das minhas pernas e depois puxe a minha cintura pra mais perto do seu corpo. Quem sabe, depois de descobrirmos que temos muito em comum e alguma bebida doce e alcoólica, ele aproxime sua boca da minha e o encanto se faça de vez nas línguas entrelaçadas. Se ele for mesmo tão legal quanto parece, nós podemos nos beijar, sim. Nós podemos ir pra cama juntos e acordar sorrindo porque amanhã ainda é domingo e temos o dia inteiro pela frente.

Pego a gilete pra raspar as pernas e as axilas. Talvez ele goste de axilas, vai saber. Olho o restante do corpo. “Está em ordem”, penso. Respiro fundo e, por causa do vapor aglomerado no banheiro sem janela, sinto vontade de espirrar. Meus espirros são incontroláveis. Um, dois, três e a ponta do dedo cortada pela lâmina do aparato que eu não me dei ao luxo de soltar no chão quando a crise alérgica começou. Um pouco de sangue escorrendo com a água, nada demais. Eu sou mesmo um desastre, podia ser pior. Acabo o meu banho, na medida do possível, com mais calma agora a antes e soltando objetos cortantes a cada ameaça de espirro.

A sala está vazia quando, finalmente, saiu do chuveiro. Faço um curativo simples no dedo e pronto. Se ele perguntar, digo que me cortei no copo de whisky. Se cortar num copo de whisky é muito mais sexy que por causa de uma rinite e uma gilete afiada. Bem mais simples explicar que fui juntar os cacos do chão, também. Visto a roupa, as sapatilhas vermelhas e saiu às pressas de casa, enquanto envio uma mensagem me desculpando pelo atraso. “Só mais uns segundos, juro”.

No portão que me separa da rua e do encontro, me deparo com uma borboleta preta e gigante. Faço uma espécie de “chiiii!” com a boca, mas ela não se intimida. Abro a bolsa, tiro uma folha da agenda nova, jogo, mas nada. Ando de um lado para o outro. “Chiii!” e nada. O meu relógio marca uma hora de atraso. Tiro um dos sapatos e atiro em direção ao inseto. Acerto em cheio uma das asas da moçoila e ela sai voando meio desconsertada. Ótimo, agora eu tenho um dedo cortado e um sapato a menos. Está escuro e não tenho ideia de onde ele pode estar. Procuro, procuro e nada. Envio outra mensagem. “Tive problemas, você ainda está me esperando?”. Encontro o sapato em meio a um monte de folhas secas e saiu correndo pra procurar um táxi. O meu cabelo deve estar desgrenhado e o perfume um pouco passado, mas quem liga? Cinderela era uma faxineira antes de virar princesa.

Corro o mais rápido que consigo, o celular faz aquele “bip” sem graça avisando sobre um novo torpedo na caixa de entrada. A mensagem que não deveria chegar nunca chegou. “Preciso ir. Você demorou demais. Desculpe.” Ele coloca tantos pontos finais no texto pequeno que entendo o recado e desisto de insistir.  Eu só cortei o meu dedo, fui atacada por uma borboleta, perdi o meu sapato e atrasei duas horas. Só isso e você vai embora?

Tudo bem, sério. Eu realmente não sou uma princesa e os homens da realeza não aguentam duas horas no campo minado que a minha vida se tornou. No fundo, até entendo, e sobrevivo a mais essa. Sobrevivo e peço, todo dia, que ao invés de um príncipe encantado, Deus me mande um soldado e um tanque de guerra.

sexta-feira, 18 de janeiro de 2013

Feito Uma Pedra





Li a chamada de uma reportagem, esses dias, que dizia algo sobre quão saudável é dormir sozinho. “Passar a noite acompanhado diminui a qualidade do sono”, gritava a manchete virtual. Não pesquisei a fundo os argumentos do texto, apenas pensei um pouco em você, no desconforto presente em meu colchão sem o seu corpo aconchegado aqui, nos pesadelos que volta e meia me atormentam.

Sou péssimo com datas, mas os fatos da primeira noite em que dormimos juntos (e apenas dormimos) ainda me tomam os pensamentos quando me deparo com reportagens que podem (ou eu acho que podem) explicar o nosso fim. Andei pesquisando algumas receitas rápidas e fáceis, também, pra te fazer um jantar – ouvi dizer que é uma das únicas formas de reconquistar uma mulher com a sua personalidade -, mas, você sabe, eu sou péssimo cozinheiro; precisaria começar a preparar tudo um dia antes e ainda assim não ficariam “lá essas coisas”. Cogitei a possibilidade de comprar algumas flores e ir até a sua casa perguntar se não podemos tentar mais uma vez. Talvez você não queira tentar, porém fique com pena de me ver procurando um táxi e me diga pra dormir ali, naquela noite. Quem sabe, dormindo novamente em meus braços, se apaixone outra vez e me peça pra voltar. Par ficar. Pra não ir embora, que seja.

Eu devia tentar, sabe? Odeio a facilidade com que desisto das pessoas; odeio não conseguir chorar quando conversamos casualmente, porque eu queria chorar e dizer que “conversar casualmente com você não é, nem de longe, o que eu esperava de nós dois”. Mas, não sei, não consigo ser o cara que você queria que eu fosse. Não consigo ser o cara que eu queria ser pra você. Na verdade, não queria ser nada além “disso”, e também não quero que você seja diferente ou me queira exatamente como sou. Acho que está bom do jeito que está. Ou estava. Eu era feliz ao nos ver juntos mesmo que não fossemos o espelho de um casal perfeito. Nunca nos planejei como Johnny Cash e June Carter. Não queria de nós a história de amor eterno entre Rose e Jack em Titanic. É só que colegas de abraços frouxos e risos falsos também não nos cai bem. Eu não queria terminar as minhas noites pensando em jantares a luz de velas que posso oferecer como desculpa pra te ter de volta; ou se vai ser ridículo ligar tarde da noite na sua casa, porque algum parente meu faleceu e não estou com vontade de dormir sozinho; ou se eu sou o maior babaca do mundo por gostar tanto de alguém e nunca dizer. Queria me desfazer dessa saudade que é não conseguir dormir direito por causa da televisão que você não me deixava desligar (com medo da escuridão total); essa saudade de pajear o meu sono pra não adormecer plenamente e mexer demais, fazendo você acordar, como sempre, assustada.

Eu não nos quero como o casal protagonista do horário nobre, mas também não desejava voltar a dormir feito uma pedra, todas as noites, sonhando com uma água cristalina na qual a gente nunca mergulhou. Eu não quero ir a fundo, porque tenho medo de afogar, você devia saber. Mas não permito que me peça pra sair de vez da água e, acreditando na merda de pesquisa de mais cedo, durma tranquilo. Não me peça pra sair de vez da água como se fosse possível secar, em segundos, os respingos de você. Não me peça, por favor. Não me peça pra dormir sozinho e te esquecer.

quinta-feira, 10 de janeiro de 2013

Sopa de Letrinhas




          Eu estou há horas na cozinha minúscula da minha casa tentando escolher entre preparar um macarrão sem molho, fazer um sanduíche no grill ou dormir com fome. Sou mulher, tenho certeza; mas diferente das gerações passadas sou, também, um desastre na cozinha. Demoro séculos para fazer qualquer prato que não seja aquela massa instantânea e com gosto de isopor (sim, eu já comi um isopor, quando estava no ensino fundamental, por curiosidade). Faço uma bagunça imensurável na gaveta de talheres; sujo todos os garfos e facas possíveis, nunca me restam colheres limpas dentro do armário.

         Depois de muito pensar, decido pelo macarrão sem molho. Dormir com fome apenas porque não sou um Alex Atala da vida não faz parte dos meus planos.  Quanto ao sanduíche: deixo para o café da manhã. Pego uma panela e encho-a de água; risco o fósforo, acendo o fogo e a coloco em cima da chama. Não lembro se a massa entra na água antes ou depois de sua ebulição. Coloco antes. E seja o que Deus quiser.

         “Um fio de azeite e uma pitada de sal”, são as únicas palavras que me vem à cabeça quando penso em minha avó e no jantar que estou tentando preparar. Nunca sei quanto, exatamente, é um fio e uma pitada. Como adoro azeite não regulo quantidades, com o sal tenho um pouco mais de calma (se faltar eu vou colocando mais, aos poucos; porém se sobrar não há outra solução que não o lixo). Minha avó é uma cozinheira de mão cheia e fã de pimenta vermelha ensinou à minha mãe a paixão imensurável por condimentos. Eu não me aventuro além dos itens que citei acima, porque sei os estragos que posso causar. Fios de azeite e pitadas de sal são o suficiente pra mim.

        A água atinge os graus Celsius necessários para que comece a borbulhar. Experimento o macarrão de cinco em cinco segundos, mas percebo que ainda existem parafusos duros demais em meio aos ideais (“al dente”, como dizem as mulheres aqui de casa). Desligo o fogo e decido deixá-los cozinhando mais um pouco, apenas no calor da água, enquanto faço rolinhos com a mussarela fatiada e a passo no ralador quadrado, de metal, que mais parece uma arma na minha mão. Minha avó sempre diz que rapariga que não sabe cozinhar não segura marido nenhum. Tenho amigas, de vinte anos ou menos até, que concordam plenamente com ela. Confesso que casar nunca foi o meu maior sonho, mas perder um grande amor por ser um desastre gastronômico também não me causa grande alegria. Vou deixar claro, sempre, pra qualquer garoto que conhecer (mesmo sendo apenas amigo) quão atrapalhada sou cozinhando. Talvez, se desde o começo souber, não se importe tanto assim com minha falta de prática diante de panelas depois. “Posso me esforçar para preparar alguma coisa, algum dia, se você achar sexy. Nós podemos cozinhar juntos, quem sabe. É só me pedir!”.

         Quando me dou conta, estou conversando com o queijo e já se passaram minutos demais que a massa repousa naquela hidromassagem em miniatura. O macarrão está boiando e virou uma pasta só. Escorro a água, mas os parafusos não se soltam - se haviam trinta deles nessa panela, se juntaram e se transformaram em uma panqueca. Respiro fundo e coloco a gororoba no prato. Mais um fio de azeite e o “queijo conversador” tapando a feiúra do meu jantar. O gosto não é de todo o ruim, mas se realmente comemos primeiro com os olhos precisarei de uma venda para meu futuro marido.

        Como somente uma pequena parcela do que cozinhei e, ao contrário do que estão pensando, não é porque ficou horrível. Apenas perdi a fome em meio a toda essa confusão de não saber cozinhar. Coloco mais louça na pia e resolvo deixar a montanha pra lavar no dia seguinte.

       Sento-me no chão e começo a redigir um novo texto. O jantar de hoje, assim como o de todos os outros dias, será mais produtivo em palavras e eu espero, apenas, que você, quando chegar, não se importe que estas palavras não sejam, nem de longe, aquela desordem da sopa de letrinhas.

quarta-feira, 9 de janeiro de 2013

Em Algum Momento Daquela Noite



           
          Liguei o chuveiro às 22h45min e contando com o fato de que eu iria lavar os cabelos e ainda decidir entre a saia preta ou a vermelha, comecei o banho bem mais tarde que o previsto. Estava determinada a não sair de casa nessa noite de sexta-feira que mais parece sábado; queria ficar no meu metro quadrado chamado de quarto, debaixo das cobertas, com um pijama nada sexy que me bate nas canelas, ouvindo “beijos, blues e poesia” e relembrando as outras vezes que alguém me deixou. Eu estava determinada a não sai de casa, mas aquele convite, ainda que feito apenas por educação e meio forçado, de certo modo, pelos amigos que temos em comum, me fez mudar de ideia.  “Você não vai mesmo?”. Já disse que não. “Devia ir, a festa é bacana. E todo mundo vai estar lá.” Não. “Pensa bem”. Não; já pensei. “Tem certeza?” (...) Tudo bem, então, eu vou. “Que bom.” Sério? Ninguém nunca disse a ele que minhas certezas se esgotaram há muitos anos atrás? Ninguém nunca contou que “que bom” é sinônimo de “que bosta”? Deveriam ter dito; para eu me sentir menos babaca, agora.

           Detesto música sertaneja moderna, porém precisava ir naquele show e me certificar de que nós não tínhamos mais volta. Eu precisava vê-lo bem, sem mim, para ter certeza (mesmo nunca tendo certeza de nada) de que lutar para estar perto não vale mais a pena; para me fortalecer nessa batalha diária contra a esperança infantil presente em mim, que acredita piamente na nossa reconciliação. Eu precisava passar o perfume mais caro, colocar a roupa mais bonita, o salto mais alto, e esfregar na cara dele que vou sobreviver mesmo que, lá no fundo da alma, duvide imensamente disso. Queria saber se vai mesmo ser feliz sem mim ou se, assim como tenho feito, apenas fingirá tamanha auto-suficiência.

           O bar está cheio, os cantores animadíssimos já quando chego. Pego vodka e energético, depois mais vodka num coquetel azul. Um coquetel laranja vem parar em minhas mãos, pago por um garoto moreno e baixinho na mesa ao lado. Aceno em forma de agradecimento. Peço mais vodka e depois uma tequila. Sinto as pernas meio bambas, os olhos miúdos, as bochechas coradas. Ele chega; também alterado pelo álcool, abraça a minha cintura e elogia os meus brincos. Nunca uso brincos. E ela adora.

           Divertimos-nos em grupos divergentes, nos esbarramos em curtos espaços de tempo. Ele sussurra em meu ouvido que gosta de mim, beija o meu rosto e sai para conversar com outra garota. Ela é alta, discreta e tem os cabelos curtos. Tenho vontade de puxá-lo pelo braço e perguntar como gosta. Gosta que jeito? Gosta, tipo, namorado? Gosta a ponto de mudar os seus planos noturnos de “calmos” para “regados a álcool e música ruim”? Ou gosta como eu do meu irmão mais novo, da minha melhor-amiga, dos meus pais?

           Não o puxo, claro. Não pergunto nada. Apenas sorrio sem graça por não entender o que se passa dentro dele e não ter, sequer, coragem para perguntar. Acho que não estou pronta para ouvi-lo dizer que não tem mais vontade de beijar-me a boca.

         Vou embora, praticamente, arrastada, sem me despedir, bêbada e com uma dor imensurável no estômago que eu não sei se foi proveniente da mistura de destilados ou do choro reprimido por causa de sua indecisão. Lembro, em flashes, que ele tentou me beijar e eu esquivei. Tentei retribuir, mais tarde, mas foi em vão. Mordeu o meu pescoço, mas não encostou os lábios nos meus. Tenho a impressão de que, em algum momento daquela noite, tentei segurar a sua mão e o vi empurrando a minha, negando-a. Passei horas incontáveis tentando, sem sucesso, entender porque alguém segura as suas mãos em um dia e no outro, sem explicações plausíveis, resolve soltar.

         Ele não devia ter gostado de mim em nenhum instante daquela festa agitada e nem antes disso, também. Não devia ter gostado de mim pra depois decidir não gostar mais. Porque eu ainda gosto, sabe? Gosto além da amnésia alcoólica e do salto me apertando o dedão do pé. Eu nunca vou deixar de gostar e minhas mãos dançarão para sempre desconexas porque as dele, em algum momento de uma noite que eu não sei qual foi, desistiram de estar aqui.