Liguei o chuveiro às 22h45min e
contando com o fato de que eu iria lavar os cabelos e ainda decidir entre a
saia preta ou a vermelha, comecei o banho bem mais tarde que o previsto. Estava
determinada a não sair de casa nessa noite de sexta-feira que mais parece
sábado; queria ficar no meu metro quadrado chamado de quarto, debaixo das
cobertas, com um pijama nada sexy que me bate nas canelas, ouvindo “beijos,
blues e poesia” e relembrando as outras vezes que alguém me deixou. Eu estava
determinada a não sai de casa, mas aquele convite, ainda que feito apenas por
educação e meio forçado, de certo modo, pelos amigos que temos em comum, me fez
mudar de ideia. “Você não vai mesmo?”.
Já disse que não. “Devia ir, a festa é bacana. E todo mundo vai estar lá.” Não.
“Pensa bem”. Não; já pensei. “Tem certeza?” (...) Tudo bem, então, eu vou. “Que
bom.” Sério? Ninguém nunca disse a ele que minhas certezas se esgotaram há
muitos anos atrás? Ninguém nunca contou que “que bom” é sinônimo de “que
bosta”? Deveriam ter dito; para eu me sentir menos babaca, agora.
Detesto música sertaneja moderna,
porém precisava ir naquele show e me certificar de que nós não tínhamos mais
volta. Eu precisava vê-lo bem, sem mim, para ter certeza (mesmo nunca tendo
certeza de nada) de que lutar para estar perto não vale mais a pena; para me
fortalecer nessa batalha diária contra a esperança infantil presente em mim,
que acredita piamente na nossa reconciliação. Eu precisava passar o perfume
mais caro, colocar a roupa mais bonita, o salto mais alto, e esfregar na cara
dele que vou sobreviver mesmo que, lá no fundo da alma, duvide imensamente
disso. Queria saber se vai mesmo ser feliz sem mim ou se, assim como tenho feito,
apenas fingirá tamanha auto-suficiência.
O bar está cheio, os cantores
animadíssimos já quando chego. Pego vodka e energético, depois mais vodka num
coquetel azul. Um coquetel laranja vem parar em minhas mãos, pago por um garoto
moreno e baixinho na mesa ao lado. Aceno em forma de agradecimento. Peço mais
vodka e depois uma tequila. Sinto as pernas meio bambas, os olhos miúdos, as
bochechas coradas. Ele chega; também alterado pelo álcool, abraça a minha cintura
e elogia os meus brincos. Nunca uso brincos. E ela adora.
Divertimos-nos em grupos
divergentes, nos esbarramos em curtos espaços de tempo. Ele sussurra em meu
ouvido que gosta de mim, beija o meu rosto e sai para conversar com outra
garota. Ela é alta, discreta e tem os cabelos curtos. Tenho vontade de puxá-lo
pelo braço e perguntar como gosta. Gosta que jeito? Gosta, tipo, namorado?
Gosta a ponto de mudar os seus planos noturnos de “calmos” para “regados a
álcool e música ruim”? Ou gosta como eu do meu irmão mais novo, da minha
melhor-amiga, dos meus pais?
Não o puxo, claro. Não pergunto
nada. Apenas sorrio sem graça por não entender o que se passa dentro dele e não
ter, sequer, coragem para perguntar. Acho que não estou pronta para ouvi-lo
dizer que não tem mais vontade de beijar-me a boca.
Vou embora, praticamente,
arrastada, sem me despedir, bêbada e com uma dor imensurável no estômago que eu
não sei se foi proveniente da mistura de destilados ou do choro reprimido por
causa de sua indecisão. Lembro, em flashes, que ele tentou me beijar e eu
esquivei. Tentei retribuir, mais tarde, mas foi em vão. Mordeu o meu pescoço,
mas não encostou os lábios nos meus. Tenho a impressão de que, em algum momento
daquela noite, tentei segurar a sua mão e o vi empurrando a minha, negando-a.
Passei horas incontáveis tentando, sem sucesso, entender porque alguém segura
as suas mãos em um dia e no outro, sem explicações plausíveis, resolve soltar.
Ele não devia ter gostado de mim
em nenhum instante daquela festa agitada e nem antes disso, também. Não devia
ter gostado de mim pra depois decidir não gostar mais. Porque eu ainda gosto,
sabe? Gosto além da amnésia alcoólica e do salto me apertando o dedão do pé. Eu
nunca vou deixar de gostar e minhas mãos dançarão para sempre desconexas porque
as dele, em algum momento de uma noite que eu não sei qual foi, desistiram de
estar aqui.

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