domingo, 24 de março de 2013

Bem alimentado

          
           Hoje era pra ser um dia comum; acordei sem falar com Deus, como sempre faço; arrumei minha cama, lavei a louça do jantar do dia anterior, tomei banho, coloquei uma roupa básica, as sapatilhas de sempre e, com o cabelo ainda molhado, fui para biblioteca estudar um pouco antes da aula. Não sei se acredito realmente em Deus, todos os dias, como muita gente acredita. Porém, de uma forma ou de outra, sei que Ele vem me olhar quando me sinto fraca. Não frequento nenhuma igreja, sou contra muitas ideologias religiosas, bebo quando tenho vontade, faço tatuagens frequentemente, beijo a boca de desconhecidos e tenho certeza de que a bíblia foi escrita por um babaca machista da antiguidade – só não tenho provas para minha teoria, e nem quero ter, de qualquer forma. O ser humano pode se descontrolar se perder o ceticismo que é andar na linha invisível de sua fé; destruir sua crença é pedir para ver de perto o caos, viver o inferno na terra. E eu nem sei se existe mesmo um inferno diferente desse no qual já estamos, não consigo crer que alguém seja mandado para lá sem volta, sem perdão. O Deus em que eu, às vezes, acredito é diferente; não está escrito em folhas velhas e amarelas que saem ditando regras sobre o que nos é permitido ou não ser; vive dentro de nós.

           Reli meu texto de teoria da Literatura. Continuei sem compreender grande parte do que ali havia redigido. Andei pela faculdade com a cara de perdida que herdei de meu pai e, nessa caminhada, encontrei uma colega sentada em um canto, afastada da multidão de alunos; sentei ao seu lado e me surpreendi quando ela pegou em minha mão e, chorando, perguntou como é que eu estava aguentando viver sozinha. “Estou acostumada”, respondi prontamente. Ela me diz que não tem conseguido comer nada, que quer voltar pra casa e está infeliz. Depois ficamos em silêncio. Não sei se é necessário nos acostumarmos a ser sozinhos, não quero que ela imagine que é assim que penso; só acho que precisar de qualquer um também não é saudável. Quis perguntar se ela acreditava em Deus, mas achei melhor não dizer nada. Soltamos as nossas mãos e eu acariciei o seu cabelo claro e longo antes de me levantar e entrar na sala de aula.

           Ouvi atenta às explicações do texto que não havia compreendido ao estudar sozinha. Meu professor é charmoso, grande, e tem uma voz que é quase um eco, grave, grossa, aveludada. Gosto dele. E ele não acredita em Deus. Tive vontade de perguntar se acredita em alguma coisa, mas não foi preciso; tive certeza que não quando nos contou um de seus sonhos no qual o diabo aparece e ele não sente pavor nem tenta fugir. “Acordo involuntariamente. Não acredito nessas coisas, mas em algum lugar da minha consciência esse monstro deve incomodar”, disse o professor, tentando explicar o fato de não continuar dormindo depois de ter o demônio ao seu lado.

           Saio assim que a aula termina, depois de vê-lo fazer a chamada e constatar quem estava ou não presente em suas explicações. Venho pra casa de carona com uma amiga e o seu marido (porque apesar de não serem casados eles moram junto e eu considero isso uma união mais do que estável). Eles me deixam do outro lado, atravesso a avenida movimentada e antes de chegar ao meu portão, na lixeira em frente a minha casa, vejo um senhor de boné e com um saco branco nas costas, mexendo nas sacolas sujas deixadas pelos moradores do prédio, naquele cesto fétido que ninguém nunca se atreveu a limpar. Ele me olha e acena; antes de entrar vejo-o encontrar um pedaço de pão, no lixo, e enfiar na boca. A ânsia em mim é inevitável. Corro para o banheiro, não vomito, mas choro baixinho. Já passa da meia noite e eu não quero acordar ninguém. Olho o espelho no armarinho do cômodo frio, ao redor de meus olhos uma fumaça preta se instala, devido à maquiagem que derreteu; não me dou ao trabalho de limpar o rosto, corro para cozinha, abro um pote e tiro de lá todas as bolachas e pães que hoje de manhã eu olhei sem dar muito valor. Saio do apartamento em que estou morando a pouco mais de um mês e caminho até a lixeira a qual o senhor ainda revira em busca de comida. “Oi, tudo bem? Eu tinha umas bolachas lá na minha casa e, sabe, ninguém quer...”, indago, meio sem jeito, tímida por dividir com ele uma coisa que eu nunca tenho tido vontade de comer. Ele sorri, faltam-lhe alguns dentes, segura as minhas mãos e as beija sem pedir permissão. Ainda assustada, tento me desvencilhar e ele se desculpa pelo ato impulsivo. Pega a sacola de alimentos da minha mão e, enquanto vou me afastando, ele grita “Ei, filha, Deus te abençoe! Deus te abençoe muito nessa vida”. Viro-me com os olhos encharcados e pergunto porquê ele acredita em Deus. Sem titubear, o provável morador de rua, me responde que acredita porque, às vezes, alguma garota com olhos de anjo, manchados de mundo, sai tarde da escola e depois de entrar em sua casa ela desiste de deitar na cama quente e esquecer as tristezas do outro para entregar bolachas e pães a ele, mesmo que seja um desconhecido fedido que mexe no lixo e se alimenta de qualquer porcaria. Se despedindo de mim, o senhor ainda diz: “o bem e o mal vivem dentro da gente, menina; resta saber, qual deles será mais bem alimentado”. Em silêncio, retorno ao meu lar.

           O bem e o mal vivem dentro da gente e a fome do mundo, muitas vezes, é maior de ações a de pão. Você escolhe quem mata e quem morre. Você determina o Deus que quer ter em seu coração.

quarta-feira, 13 de março de 2013

Presente de grego



           Hoje, enquanto caminhava de pés descalços sobre futilidades do mundo virtual e Eneida, me deparei com uma frase, perdida em um status de rede social, que me fez muito pensar sobre os laços afetivos que temos criados nessas andanças. Abandonei a literatura clássica por uns instantes, esqueci Enéias e sua terra destruída pelos gregos, andei um pouco pela casa e reli o dito que me fez parar o estudo diário. “Cuidado com a amizade, não é só o amor que machuca”, dizia a página intitulada “traia sertaneja”. Os comentários que se seguiam apoiavam o autor, desconhecido até agora por mim. Garotas, em sua maioria, levantavam bandeiras favoráveis ao que ali havia escrito. Tirei as calças que me cobriam as pernas, peguei uma caneta de ponta fina na gaveta da escrivaninha e, seminua, passei-a com força na pele – queria ter certeza de que ainda era capaz de sentir dor.

           O mundo enlouqueceu ou eu sou o problema? Amizade e amor não machucam, não. Quem disse que machuca? Fez isso com vocês? Quando? Porque digo, certa, que se machucou foi sem querer, equivoco; foi mentira, ilusão. Necessário, talvez, para que pudéssemos diferenciar o que é e o que achou que fosse. Quando erra, o amor, é sem intenção, é querendo acertar. Aprendi desde criança: verdade não fere, amigo nunca faz mal, amor é salvação. E vocês vêm me dizer o contrário, assim, por tão pouco? Com que direito? Em que têm acreditado, então?

           Passou da hora de parar com essa mesquinharia de que a falsidade tomou conta dos seres e não se pode mais confiar em ninguém. Vocês estão cegos do mundo pelos erros de um ou dois; é injusto. Não se pode sair pelas ruas protestando contra a crença de sentimentos que outrora foram dignos de divindade, porque alguém, algum dia, resolveu nos mostrar como eles não devem ser. Amor é um deus, amar é preciso. Amam-se também quando amigos.

           Deixar de acreditar naquilo que é benéfico ao sentir me faz ter medo da espera do amanhã, me faz temer o futuro da raça humana, faz o pesadelo tomar conta de mim quando imagino o que podemos nos tornar. Porque, afinal, em que droga de mundo vocês querem viver se deixam, agora, de acreditar no que ontem era essencial para continuarmos vivendo? Joguem-se de pontes e precipícios se não crêem mais na única pureza restante em nós. Eu, pelo menos, me recuso a viver em um lugar aonde seja necessário resistir, desconfiar, pisar apenas no que se pode ver sólido e cristalino. Não me imagino numa cidade aonde todo mundo é feito de pedra e sorrir para um sorriso seja sinônimo de fraqueza.

           Vestirão, vocês, armaduras para se defenderem de sentimentos que há tanto buscamos; serão robotizados para não se machucarem; deixarão de viver para sobreviver intactos. Dentro de bolhas, talvez; mergulhando de salva-vidas, quem sabe. Não haverá perdão dos não feridos aos que jamais feriram. Vão desconhecer como é ser feliz por nunca ficarem tristes. Serão cavernas inabitáveis em meio a uma multidão de almas desertas. E viverão mesmo assim? Estão certos do que têm desejado em publicações virtuais desconhecidas? Esse que vos conto é realmente o futuro no qual querem estar? Desejam mesmo viver neste lugar? Pois bem, eu também não. Quero encontrar muitos amores para descobrir que só um deles é o certo; ter amigos o mais próximo possível para, mesmo diante das piores brigas, aprender a perdoar. Desejo sofrer para me fortalecer e voltar a acreditar, recomeçar. Quero viver de tato, distante da redoma de vidro que um dia protegeu a rosa da personagem Fera, ferida ao defender sua amada Bela. Quero me arranhar nos espinhos alheios, cuidar dos jardins ao redor, enfrentar insetos e tempestades para, enfim, sentir o perfume das flores.

          Porque, sabe, não dá pra ficar pisando em ovos em histórias onde há a necessidade de se jogar. Não dá pra planejar cada passo, programar qualquer caminhada, mergulhar de fininho no rio que requer de nós intensidade. É impossível se entregar ao amor, ainda que de amigo, esperando receber em troca dele um Cavalo de Tróia. Viver é pra quem tem coragem e entre o amor e amizade nunca existirá um presente de grego.

quarta-feira, 6 de março de 2013

Vício



           Eram cinco horas da tarde e eu já estava com a chave da porta de casa na mão, saindo, quando o telefone tocou. Joguei a bolsa e os textos de literatura no sofá e tirei o aparelho do gancho no terceiro toque. “Você precisa vir ainda hoje, tem que estar aqui amanhã de manhã”, disse o meu pai, sempre sereno, do outro lado da linha, depois de perguntar como eu estava; se já tinha comido alguma coisa saudável e o que fazia antes de atender àquela ligação. Como o assunto em questão envolvia a liberação de um dinheiro familiar apenas diante de minha assinatura, quase pressionada pela necessidade alheia, enfiei uma troca de roupas na bolsa e avisei que pegaria a estrada assim que saísse da faculdade.

           Comprei passagem quarenta minutos antes da partida do ônibus. Como previsto, por já ser quase fim de semana e poucas pessoas precisarem trabalhar no dia seguinte, não havia mais poltronas na janela. O monopólio da cortina, infelizmente, não me foi dado desta vez e restou, então, torcer para que a pessoa ao meu lado não quisesse ficar vendo a paisagem e a luz da lua em plena madrugada.

           Desço as escadas que separam guichês e embarques e me dirijo até a plataforma quatorze. Sento-me ao lado de uma senhora, com uma mala pequena e amarela nas mãos e um lenço de flores azuis sobre os ombros. Digo “boa noite” e ela corresponde à minha gentileza sorrindo. O nosso ônibus ainda não chegou.

           A minha frente encontra-se um rapaz não muito alto, de cabelos e olhos claros e a barba por fazer. Nossos olhos se cruzam e ele me encara. Envergonhada, desvio o olhar para o lado direito, fingindo apreciar o movimento de pessoas entre uma plataforma e outra. Viro-me para ele novamente. Desta vez, está distraído, conversando com um motorista. Ele não é o tipo de homem que carrega com si a beleza de um Deus, mas é o rapaz o qual eu gostaria de encontrar em um barzinho rock and roll e paquerar por algumas horas. Nossos pés, assim como os nossos olhares, iriam se encontrar na pista de dança, ao som de I Walk the Line, do lendário Johnny Cash, e – depois de mais alegres graças ao álcool – nos beijaríamos no canto do palco. Ele usa jeans e tênis surrados e uma camiseta sem estampa. Enfia a mão no bolso e tira de lá um cigarro de filtro branco. Acende com o isqueiro emprestado do motorista, também fumante. É sexy, mesmo no vício; como raros homens são. Mantém o olhar focado no horizonte ao tragar parte da nicotina e todas as substâncias maléficas presente dentro daquele embrulho de papel. Após soltar a fumaça, pende um sorriso debochado para o lado esquerdo do rosto e, sem deixar os dentes à mostra, volta a me encarar. Hipnotizada pela sua beleza que não é invejável, mas me fez esquecer o resto do mundo e o ônibus já estacionado, retribuo o quase flerte, também sorrindo.

           Levanto-me do banco um pouco assustada ao perceber que a senhora ao meu lado já está dentro do ônibus e se ajeita em uma das poltronas preferenciais. O rapaz deixa o cigarro, já acabado, cair no chão e o apaga com a ponta do pé. Entrego minha passagem ao motorista e agradeço ao seu desejo de “boa viagem”. Coloco a mochila no bagageiro, quase em forma de prateleira, no alto, e me ajeito no meu devido lugar. O moço galante que me encarava do lado de fora entra logo em seguida; olha o que restou de sua passagem e depois se vira para mim. “A minha é a sete”, diz ele, meio rouco, num tom sedutor e calmo, feito mantra, quase música. Como se levada pelo som de sua voz, fico em silêncio, levanto aos pouquinhos e o deixo se sentar antes de mim. Deito o meu banco, feliz por ter ao lado quem tenho agora, mas peco ao respirar fundo.

           Embora o meu acompanhante de viagem seja lindo e nos sonhos de outrora o desejei, o cheiro do cigarro é sempre inebriante. Mesmo sexy quando fuma, o rapaz bem perto de mim, como todos os viciados, não se livra do odor de madeira molhada e comida por cupins que tem a nicotina. Meu encanto se quebra no mesmo instante em que começou. Para não precisar conversar e explicar a rinite alérgica atacada, tomo um remédio e durmo.

           A linha entre a paixão e a desilusão é tênue quando o cheiro da pele não se faz mais presente devido aos males do mundo.