Hoje era pra ser um dia comum; acordei sem falar com Deus, como sempre faço; arrumei minha cama, lavei a louça do jantar do dia anterior, tomei banho, coloquei uma roupa básica, as sapatilhas de sempre e, com o cabelo ainda molhado, fui para biblioteca estudar um pouco antes da aula. Não sei se acredito realmente em Deus, todos os dias, como muita gente acredita. Porém, de uma forma ou de outra, sei que Ele vem me olhar quando me sinto fraca. Não frequento nenhuma igreja, sou contra muitas ideologias religiosas, bebo quando tenho vontade, faço tatuagens frequentemente, beijo a boca de desconhecidos e tenho certeza de que a bíblia foi escrita por um babaca machista da antiguidade – só não tenho provas para minha teoria, e nem quero ter, de qualquer forma. O ser humano pode se descontrolar se perder o ceticismo que é andar na linha invisível de sua fé; destruir sua crença é pedir para ver de perto o caos, viver o inferno na terra. E eu nem sei se existe mesmo um inferno diferente desse no qual já estamos, não consigo crer que alguém seja mandado para lá sem volta, sem perdão. O Deus em que eu, às vezes, acredito é diferente; não está escrito em folhas velhas e amarelas que saem ditando regras sobre o que nos é permitido ou não ser; vive dentro de nós.
Reli meu texto de teoria da Literatura. Continuei sem compreender grande parte do que ali havia redigido. Andei pela faculdade com a cara de perdida que herdei de meu pai e, nessa caminhada, encontrei uma colega sentada em um canto, afastada da multidão de alunos; sentei ao seu lado e me surpreendi quando ela pegou em minha mão e, chorando, perguntou como é que eu estava aguentando viver sozinha. “Estou acostumada”, respondi prontamente. Ela me diz que não tem conseguido comer nada, que quer voltar pra casa e está infeliz. Depois ficamos em silêncio. Não sei se é necessário nos acostumarmos a ser sozinhos, não quero que ela imagine que é assim que penso; só acho que precisar de qualquer um também não é saudável. Quis perguntar se ela acreditava em Deus, mas achei melhor não dizer nada. Soltamos as nossas mãos e eu acariciei o seu cabelo claro e longo antes de me levantar e entrar na sala de aula.
Ouvi atenta às explicações do texto que não havia compreendido ao estudar sozinha. Meu professor é charmoso, grande, e tem uma voz que é quase um eco, grave, grossa, aveludada. Gosto dele. E ele não acredita em Deus. Tive vontade de perguntar se acredita em alguma coisa, mas não foi preciso; tive certeza que não quando nos contou um de seus sonhos no qual o diabo aparece e ele não sente pavor nem tenta fugir. “Acordo involuntariamente. Não acredito nessas coisas, mas em algum lugar da minha consciência esse monstro deve incomodar”, disse o professor, tentando explicar o fato de não continuar dormindo depois de ter o demônio ao seu lado.
Saio assim que a aula termina, depois de vê-lo fazer a chamada e constatar quem estava ou não presente em suas explicações. Venho pra casa de carona com uma amiga e o seu marido (porque apesar de não serem casados eles moram junto e eu considero isso uma união mais do que estável). Eles me deixam do outro lado, atravesso a avenida movimentada e antes de chegar ao meu portão, na lixeira em frente a minha casa, vejo um senhor de boné e com um saco branco nas costas, mexendo nas sacolas sujas deixadas pelos moradores do prédio, naquele cesto fétido que ninguém nunca se atreveu a limpar. Ele me olha e acena; antes de entrar vejo-o encontrar um pedaço de pão, no lixo, e enfiar na boca. A ânsia em mim é inevitável. Corro para o banheiro, não vomito, mas choro baixinho. Já passa da meia noite e eu não quero acordar ninguém. Olho o espelho no armarinho do cômodo frio, ao redor de meus olhos uma fumaça preta se instala, devido à maquiagem que derreteu; não me dou ao trabalho de limpar o rosto, corro para cozinha, abro um pote e tiro de lá todas as bolachas e pães que hoje de manhã eu olhei sem dar muito valor. Saio do apartamento em que estou morando a pouco mais de um mês e caminho até a lixeira a qual o senhor ainda revira em busca de comida. “Oi, tudo bem? Eu tinha umas bolachas lá na minha casa e, sabe, ninguém quer...”, indago, meio sem jeito, tímida por dividir com ele uma coisa que eu nunca tenho tido vontade de comer. Ele sorri, faltam-lhe alguns dentes, segura as minhas mãos e as beija sem pedir permissão. Ainda assustada, tento me desvencilhar e ele se desculpa pelo ato impulsivo. Pega a sacola de alimentos da minha mão e, enquanto vou me afastando, ele grita “Ei, filha, Deus te abençoe! Deus te abençoe muito nessa vida”. Viro-me com os olhos encharcados e pergunto porquê ele acredita em Deus. Sem titubear, o provável morador de rua, me responde que acredita porque, às vezes, alguma garota com olhos de anjo, manchados de mundo, sai tarde da escola e depois de entrar em sua casa ela desiste de deitar na cama quente e esquecer as tristezas do outro para entregar bolachas e pães a ele, mesmo que seja um desconhecido fedido que mexe no lixo e se alimenta de qualquer porcaria. Se despedindo de mim, o senhor ainda diz: “o bem e o mal vivem dentro da gente, menina; resta saber, qual deles será mais bem alimentado”. Em silêncio, retorno ao meu lar.
O bem e o mal vivem dentro da gente e a fome do mundo, muitas vezes, é maior de ações a de pão. Você escolhe quem mata e quem morre. Você determina o Deus que quer ter em seu coração.


