Hoje, enquanto caminhava de pés descalços sobre futilidades do mundo virtual e Eneida, me deparei com uma frase, perdida em um status de rede social, que me fez muito pensar sobre os laços afetivos que temos criados nessas andanças. Abandonei a literatura clássica por uns instantes, esqueci Enéias e sua terra destruída pelos gregos, andei um pouco pela casa e reli o dito que me fez parar o estudo diário. “Cuidado com a amizade, não é só o amor que machuca”, dizia a página intitulada “traia sertaneja”. Os comentários que se seguiam apoiavam o autor, desconhecido até agora por mim. Garotas, em sua maioria, levantavam bandeiras favoráveis ao que ali havia escrito. Tirei as calças que me cobriam as pernas, peguei uma caneta de ponta fina na gaveta da escrivaninha e, seminua, passei-a com força na pele – queria ter certeza de que ainda era capaz de sentir dor.
O mundo enlouqueceu ou eu sou o problema? Amizade e amor não machucam, não. Quem disse que machuca? Fez isso com vocês? Quando? Porque digo, certa, que se machucou foi sem querer, equivoco; foi mentira, ilusão. Necessário, talvez, para que pudéssemos diferenciar o que é e o que achou que fosse. Quando erra, o amor, é sem intenção, é querendo acertar. Aprendi desde criança: verdade não fere, amigo nunca faz mal, amor é salvação. E vocês vêm me dizer o contrário, assim, por tão pouco? Com que direito? Em que têm acreditado, então?
Passou da hora de parar com essa mesquinharia de que a falsidade tomou conta dos seres e não se pode mais confiar em ninguém. Vocês estão cegos do mundo pelos erros de um ou dois; é injusto. Não se pode sair pelas ruas protestando contra a crença de sentimentos que outrora foram dignos de divindade, porque alguém, algum dia, resolveu nos mostrar como eles não devem ser. Amor é um deus, amar é preciso. Amam-se também quando amigos.
Deixar de acreditar naquilo que é benéfico ao sentir me faz ter medo da espera do amanhã, me faz temer o futuro da raça humana, faz o pesadelo tomar conta de mim quando imagino o que podemos nos tornar. Porque, afinal, em que droga de mundo vocês querem viver se deixam, agora, de acreditar no que ontem era essencial para continuarmos vivendo? Joguem-se de pontes e precipícios se não crêem mais na única pureza restante em nós. Eu , pelo menos, me recuso a viver em um lugar aonde seja necessário resistir, desconfiar, pisar apenas no que se pode ver sólido e cristalino. Não me imagino numa cidade aonde todo mundo é feito de pedra e sorrir para um sorriso seja sinônimo de fraqueza.
Vestirão, vocês, armaduras para se defenderem de sentimentos que há tanto buscamos; serão robotizados para não se machucarem; deixarão de viver para sobreviver intactos. Dentro de bolhas, talvez; mergulhando de salva-vidas, quem sabe. Não haverá perdão dos não feridos aos que jamais feriram. Vão desconhecer como é ser feliz por nunca ficarem tristes. Serão cavernas inabitáveis em meio a uma multidão de almas desertas. E viverão mesmo assim? Estão certos do que têm desejado em publicações virtuais desconhecidas? Esse que vos conto é realmente o futuro no qual querem estar? Desejam mesmo viver neste lugar? Pois bem, eu também não. Quero encontrar muitos amores para descobrir que só um deles é o certo; ter amigos o mais próximo possível para, mesmo diante das piores brigas, aprender a perdoar. Desejo sofrer para me fortalecer e voltar a acreditar, recomeçar. Quero viver de tato, distante da redoma de vidro que um dia protegeu a rosa da personagem Fera, ferida ao defender sua amada Bela. Quero me arranhar nos espinhos alheios, cuidar dos jardins ao redor, enfrentar insetos e tempestades para, enfim, sentir o perfume das flores.
Porque, sabe, não dá pra ficar pisando em ovos em histórias onde há a necessidade de se jogar. Não dá pra planejar cada passo, programar qualquer caminhada, mergulhar de fininho no rio que requer de nós intensidade. É impossível se entregar ao amor, ainda que de amigo, esperando receber em troca dele um Cavalo de Tróia. Viver é pra quem tem coragem e entre o amor e amizade nunca existirá um presente de grego.

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