Eram cinco horas da tarde e eu já estava com a chave da porta de casa na mão, saindo, quando o telefone tocou. Joguei a bolsa e os textos de literatura no sofá e tirei o aparelho do gancho no terceiro toque. “Você precisa vir ainda hoje, tem que estar aqui amanhã de manhã”, disse o meu pai, sempre sereno, do outro lado da linha, depois de perguntar como eu estava; se já tinha comido alguma coisa saudável e o que fazia antes de atender àquela ligação. Como o assunto em questão envolvia a liberação de um dinheiro familiar apenas diante de minha assinatura, quase pressionada pela necessidade alheia, enfiei uma troca de roupas na bolsa e avisei que pegaria a estrada assim que saísse da faculdade.
Comprei passagem quarenta minutos antes da partida do ônibus. Como previsto, por já ser quase fim de semana e poucas pessoas precisarem trabalhar no dia seguinte, não havia mais poltronas na janela. O monopólio da cortina, infelizmente, não me foi dado desta vez e restou, então, torcer para que a pessoa ao meu lado não quisesse ficar vendo a paisagem e a luz da lua em plena madrugada.
Desço as escadas que separam guichês e embarques e me dirijo até a plataforma quatorze. Sento-me ao lado de uma senhora, com uma mala pequena e amarela nas mãos e um lenço de flores azuis sobre os ombros. Digo “boa noite” e ela corresponde à minha gentileza sorrindo. O nosso ônibus ainda não chegou.
A minha frente encontra-se um rapaz não muito alto, de cabelos e olhos claros e a barba por fazer. Nossos olhos se cruzam e ele me encara. Envergonhada, desvio o olhar para o lado direito, fingindo apreciar o movimento de pessoas entre uma plataforma e outra. Viro-me para ele novamente. Desta vez, está distraído, conversando com um motorista. Ele não é o tipo de homem que carrega com si a beleza de um Deus, mas é o rapaz o qual eu gostaria de encontrar em um barzinho rock and roll e paquerar por algumas horas. Nossos pés, assim como os nossos olhares, iriam se encontrar na pista de dança, ao som de I Walk the Line, do lendário Johnny Cash, e – depois de mais alegres graças ao álcool – nos beijaríamos no canto do palco. Ele usa jeans e tênis surrados e uma camiseta sem estampa. Enfia a mão no bolso e tira de lá um cigarro de filtro branco. Acende com o isqueiro emprestado do motorista, também fumante. É sexy, mesmo no vício; como raros homens são. Mantém o olhar focado no horizonte ao tragar parte da nicotina e todas as substâncias maléficas presente dentro daquele embrulho de papel. Após soltar a fumaça, pende um sorriso debochado para o lado esquerdo do rosto e, sem deixar os dentes à mostra, volta a me encarar. Hipnotizada pela sua beleza que não é invejável, mas me fez esquecer o resto do mundo e o ônibus já estacionado, retribuo o quase flerte, também sorrindo.
Levanto-me do banco um pouco assustada ao perceber que a senhora ao meu lado já está dentro do ônibus e se ajeita em uma das poltronas preferenciais. O rapaz deixa o cigarro, já acabado, cair no chão e o apaga com a ponta do pé. Entrego minha passagem ao motorista e agradeço ao seu desejo de “boa viagem”. Coloco a mochila no bagageiro, quase em forma de prateleira, no alto, e me ajeito no meu devido lugar. O moço galante que me encarava do lado de fora entra logo em seguida; olha o que restou de sua passagem e depois se vira para mim. “A minha é a sete”, diz ele, meio rouco, num tom sedutor e calmo, feito mantra, quase música. Como se levada pelo som de sua voz, fico em silêncio, levanto aos pouquinhos e o deixo se sentar antes de mim. Deito o meu banco, feliz por ter ao lado quem tenho agora, mas peco ao respirar fundo.
Embora o meu acompanhante de viagem seja lindo e nos sonhos de outrora o desejei, o cheiro do cigarro é sempre inebriante. Mesmo sexy quando fuma, o rapaz bem perto de mim, como todos os viciados, não se livra do odor de madeira molhada e comida por cupins que tem a nicotina. Meu encanto se quebra no mesmo instante em que começou. Para não precisar conversar e explicar a rinite alérgica atacada, tomo um remédio e durmo.
A linha entre a paixão e a desilusão é tênue quando o cheiro da pele não se faz mais presente devido aos males do mundo.
A linha entre a paixão e a desilusão é tênue quando o cheiro da pele não se faz mais presente devido aos males do mundo.

Para tudo! Fantástico, Daniziiiinha!
ResponderExcluirAdorei... Parabéns!