quarta-feira, 4 de setembro de 2013

Pés cansados


           São quase três da tarde quando ele liga avisando que está no portão de casa, me esperando. Tem os cabelos mais curtos do que dá última vez em que nos vimos, a barba bem feita, os olhos mais tristes; o cheiro, porém, ainda é o que reconheci, por muito tempo, como sendo parte de mim. Desmarquei todos os compromissos de hoje para recebê-lo. Todos, sem exceções. Ele me abraça forte eu fecho os olhos me aninhando em seu ombro; conversamos um pouco e entramos juntos no carro clássico com bancos de couros de cor clara. Andei reclamando da minha comida ruim e ele veio até aqui para me levar a um restaurante e me poupar, pelo menos por um dia, da comida congelada de sempre. Dirige calmamente, me conta sobre os seus dias corridos no novo emprego e se desculpa por não poder dormir aqui essa noite. Seguro a sua mão, compreensiva. Eu entendo tudo o tempo inteiro apenas para não forçá-lo a uma condição de amor presente que nunca foi de seu feitio. Passamos a tarde caminhando no shopping, depois de almoçarmos juntos. Vez ou outra, seguro o seu braço me esquecendo de que nós já não somos os mesmos; ele beija o alto de minha cabeça recompensando o carinho. Apesar do tempo e dos erros, ainda caminhamos juntos quando necessário, mesmo que não exista mais amor. 

          Enquanto ele paga as camisas sociais que comprou, envio uma mensagem a uma amiga, conto sobre a visita rápida de meu antigo amor e ela – tentando consolar a carinha triste do bilhete virtual – me convida para um show cover de rock. Aceito o convite sem pensar muito nos calcanhares cansados da tarde toda andando pra lá e pra cá.  Passei o dia me esforçando para acompanhar os passos de alguém que há muito tem andado bem mais rápido que eu, e me esqueço como é difícil caminhar com os próprios pés quando chega a noite e ele não está mais segurando a minha mão.

           Chego à minha casa pouco antes das vinte horas; agradeço a companhia, me perco naquele abraço apertado por alguns instantes, e depois volto ao mundo solitário do amor que não deu certo; das festas vazias que eu nunca gosto de ir, mas sempre vou. Tomo um banho rápido, visto a roupa bonita que comprei na última viagem à cidade fria de meus avós, o salto agulha quase branco, e a maquiagem leve de sempre. Vou ao encontro de minha amiga, que está esperando ao lado de uma garota loira, q qual atende à todos os padrões de beleza impostos pela sociedade. Pegamos um táxi e vamos juntas ao pub combinado. A fila não está imensa, mas é demorada e os meus pés cansados começam a dar os primeiros sinais de um dia sem pausa.

          O lugar é fantástico, mas está lotado. Minhas companheiras, animadas, logo se ajeitam no meio da galera mais calorosa. Encosto num canto e fico torcendo para que as pessoas esvaziem logo aquele lugar e eu consiga respirar sem muito esforço. Multidões me sufocam. A colega loira de minha amiga dança de forma sensual uma música com a qual eu sempre apenas balancei a cabeça e toquei a minha bateria imaginária. Os cabelos compridos da moça, que gira a cabeça devagar e passa as mãos pela silhueta bem definida, me acerta por diversas vezes. Dou alguns passos para trás, para me livrar do açoitamento capilar, e acabo trombando com um rapaz embriagado que derruba parte de sua cerveja em meu short. Ele se desculpa olhando para um horizonte inexistente, cego pelo álcool em seu corpo. Minha amiga me envia uma mensagem perguntando “qual dos três é mais bonito?”. Ela conversa com um rapaz de camisa verde e é encarada por outros dois que esperam a desistência do primeiro para poder agir. Aponto o dedo indicador para cima, dando o meu voto ao número um como o melhor. 

            Saio à procura de um banheiro para limpar a cevada quente em minha bermuda e sou parada por um casal que me pede para segurar um prato com dois quartos de um limão, um vidrinho de sal e dois copos pequenos cheios de uma bebida amarela que eu suponho ser tequila. Eles bebem juntos e logo em seguida começam a se beijar. Levo o prato até o bar e faço um sinal ao garçom, que me agradece sem compreender o porquê ando recolhendo utensílios pela boate. Encontro o banheiro, abaixo a tampa do vaso sanitário e sento ali. Tiro os sapatos com cuidado, estico os pés na porta branca e estreita da cabine apertada e escrevo um novo torpedo à minha amiga: “encontrei um lugar pra descansar, não se preocupe, e divirta-se”. 

           Passo a noite sentada, sozinha, pensando em como tudo seria mais fácil se eu tivesse compreendido, antes de hoje, que é muito melhor caminhar sozinha que procurar companhia com os pés cansados.

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