quarta-feira, 4 de setembro de 2013

Avião de papel


            O domingo nem parece domingo; levanto da cama antes das dez, tiro o short largo e clarinho, visto a calça jeans escura que nunca uso aos preguiçosos fins de semana; penteio os cabelos com pressa e saio. Recuso-me a esticar o lençol cor de rosa da cama, não ajeito os sapatos dentro de suas determinadas caixas nem dobro as roupas que acabei de tirar. Passo na padaria, na esquina de casa, compro um suco cítrico industrializado e corro até o ponto de ônibus. Bem, na verdade, eu não corro – o sedentarismo não permite essas estripulias -, apenas caminho a passos largos, os contando enquanto conto também o tempo. Mandei você embora há dois dias. Um, dois. Um, dois. E você se foi sem compreender os porquês, porque talvez não existam motivos reais, nada além do coração ainda vazio mesmo com você do lado.

           Olho para o outro lado da rua, há um carro prata estacionado ali, com os vidros abertos. Dentro dele, uma garota ouve músicas tristes no fone de ouvido ligado ao celular moderno; o irmão mais novo se equilibra, de joelhos, no mesmo banco. Ele deve ter uns quatro ou cinco anos, inocentes quatro ou cinco anos. Tem às mãos um folheto de supermercado dobrado em forma de avião, uma linha na ponta o transforma em pipa. Enquanto vê o seu brinquedo dar pequenos solavancos com a ventania singela do domingo de manhã, o menino sorri pra mim.

        Eu não queria ter me incomodado com os segredos que me contou; com as manias que precisava ter guardado numa caixa bem distante de mim, mas não guardou. Gostaria que a sua beleza grega de família japonesa tivesse sido o suficiente; que o meu coração tivesse pertencido a você tanto quanto o lado direito da minha cama de solteiro, o meu quarto escuro, a minha cortina azul-piscina, a literatura machadiana que você nunca leu. Queria que as suas filosofias me parecessem bonitas, que as suas músicas preferidas fossem as minhas preferidas, que a sua risada fora de hora me fizesse rir também. Eu queria ter me apaixonado perdidamente por você, mas não me apaixonei.

        Olho de novo para o garotinho a minha frente e o vejo encarando o pneu do carro. Seu avião de papel ficou enroscado lá depois de uma ventania um pouco mais rude que as anteriores. Triste, ele me olha e eu consigo enxergar, em seus olhos pequenos, algumas lágrimas leves, quase sopro de mãe em arranhado no joelho. Guardo o celular na bolsa preta, de franjas, que eu comprei anteontem, depois de me despedir de você. Atravesso a rua, paro em frente ao carro esportivo e me abaixo desenroscando o brinquedo da roda metálica do automóvel. O menino sorri como da primeira vez em que nos vimos; entrego o avião a ele enquanto a irmã se ajeita no banco e agradece. Ela é bonita, tem prováveis doze ou treze anos, não tão inocentes doze ou treze anos.

        Volto para o ponto e o ônibus passa logo em seguida. Da janela, avisto o garoto acenando pra mim e jogando outra vez o brinquedo improvisado para fora do carro, segurando, agora, com mais força a linha presa a ele. O vento está mais calmo. O tempo também. Todos nós estamos, porque é domingo de manhã. E no fim de semana o coração de todo mundo é uma pipa solta no vento, um avião de papel que a gente pode devolver sem ressentimentos, pra acalentar o choro alheio, como se não amar fosse uma coisa boa, um favor.

        Ou, pelo menos, deveria ser.

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