O domingo nem parece
domingo; levanto da cama antes das dez, tiro o short largo e clarinho,
visto a calça jeans escura que nunca uso aos preguiçosos fins de semana;
penteio os cabelos com pressa e saio. Recuso-me a esticar o lençol cor
de rosa da cama, não ajeito os sapatos dentro de suas determinadas
caixas nem dobro as roupas que acabei de tirar. Passo na padaria, na
esquina de casa, compro um suco cítrico industrializado e corro até o
ponto de ônibus. Bem, na verdade, eu não corro – o sedentarismo não
permite essas estripulias -, apenas caminho a passos largos, os contando
enquanto conto também o tempo. Mandei você embora há dois dias. Um,
dois. Um, dois. E você se foi sem compreender os porquês, porque talvez
não existam motivos reais, nada além do coração ainda vazio mesmo com
você do lado.
Olho para o outro lado da rua, há um carro
prata estacionado ali, com os vidros abertos. Dentro dele, uma garota
ouve músicas tristes no fone de ouvido ligado ao celular moderno; o
irmão mais novo se equilibra, de joelhos, no mesmo banco. Ele deve ter
uns quatro ou cinco anos, inocentes quatro ou cinco anos. Tem às mãos um
folheto de supermercado dobrado em forma de avião, uma linha na ponta o
transforma em pipa. Enquanto vê o seu brinquedo dar pequenos solavancos
com a ventania singela do domingo de manhã, o menino sorri pra mim.
Eu não queria ter me incomodado com os
segredos que me contou; com as manias que precisava ter guardado numa
caixa bem distante de mim, mas não guardou. Gostaria que a sua beleza
grega de família japonesa tivesse sido o suficiente; que o meu coração
tivesse pertencido a você tanto quanto o lado direito da minha cama de
solteiro, o meu quarto escuro, a minha cortina azul-piscina, a
literatura machadiana que você nunca leu. Queria que as suas filosofias
me parecessem bonitas, que as suas músicas preferidas fossem as minhas
preferidas, que a sua risada fora de hora me fizesse rir também. Eu
queria ter me apaixonado perdidamente por você, mas não me apaixonei.
Olho
de novo para o garotinho a minha frente e o vejo encarando o pneu do
carro. Seu avião de papel ficou enroscado lá depois de uma ventania um
pouco mais rude que as anteriores. Triste, ele me olha e eu consigo
enxergar, em seus olhos pequenos, algumas lágrimas leves, quase sopro de
mãe em arranhado no joelho. Guardo o celular na bolsa preta, de
franjas, que eu comprei anteontem, depois de me despedir de você.
Atravesso a rua, paro em frente ao carro esportivo e me abaixo
desenroscando o brinquedo da roda metálica do automóvel. O menino sorri
como da primeira vez em que nos vimos; entrego o avião a ele enquanto a
irmã se ajeita no banco e agradece. Ela é bonita, tem prováveis doze ou
treze anos, não tão inocentes doze ou treze anos.
Volto para o ponto e o ônibus passa logo em seguida. Da janela,
avisto o garoto acenando pra mim e jogando outra vez o brinquedo
improvisado para fora do carro, segurando, agora, com mais força a linha
presa a ele. O vento está mais calmo. O tempo também. Todos nós
estamos, porque é domingo de manhã. E no fim de semana o coração de todo
mundo é uma pipa solta no vento, um avião de papel que a gente pode
devolver sem ressentimentos, pra acalentar o choro alheio, como se não
amar fosse uma coisa boa, um favor.
Ou, pelo menos, deveria ser.

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