quarta-feira, 29 de outubro de 2014

Coragem, amigos



Eu estava sentado nas escadas do departamento de matemática aplicada, conversando com Júlio - meu amigo desde o começo da graduação, época em que as dependências e recuperações ainda nem passavam pela nossa cabeça - quando aquele cara estilosinho do quarto ano, presidente da atlética (que se porta como se isso fosse um cargo realmente importante) se aproximou. Ele ofereceu convites pra uma festa de Halloween que vai rolar na sexta, mas, como ainda não decidi se apareço por lá, digo que não vou. Qualquer sinal de indecisão abrirá espaço para aquele típico e chato assunto de vendedor insistente o qual eu nunca tive o mínimo de paciência para aturar.

         Júlio comprou o ingresso na semana passada, quando viu que a mocinha ruiva do terceiro ano estava comprando também. Meu amigo é afim da moça desde que ela entrou aqui, há uns dois anos, porém não moveu uma palha para se aproximar. Bom, para ser bem sincero ele moveu algumas: adicionou no Facebook, deu coração no tinder, clicou no "sim" do badoo, curtiu todas as fotos do Instagram e até puxou assunto num sábado de noite, elogiando os olhos oblíquos e claros da menina. Nenhuma palha (todas virtuais) movida, no entanto,  fora direta e eficaz o suficiente para conquistá-la. Júlio acha que Laís é areia demais para o caminhão batido que ele acreditar representar. Além disso, segundo ele, tem todo aquele problema logístico dos dois não estudarem no mesmo período e morarem longe um do outro – como se isso pudesse realmente se tornar um empecilho em algum momento. Meu amigo tem mais coragem de ficar com mil outras raparigas menos bonitas (e nem me refiro apenas a beleza física não) e mais acessíveis do que mandar uma mensagem convidando Laís para um passeio pelo campus universitário.

       Eu, sinceramente, não consigo entender. Não entendo Júlio e nenhum outro cara (dessa universidade ou de qualquer lugar do mundo) desistindo de uma mulher por causa de um pedregulho no canto de um extenso caminho cheio de possíveis desvios. Sempre que ouço uma dessas histórias recordo o momento em que me apaixonei pela garota da loja de óculos e de quando viajei, quase sem rumo e sem dinheiro, para visitá-la.

           A loja em que Ana trabalhava ficava em frente ao restaurante dos meus pais. Às vezes, ela e as amigas ligavam pedindo comida e entre uma entrega e outra nós nos conhecemos e começamos a conversar. Ela era linda, de sorriso cândido e sereno, olhos grandes e bochechas coradas; os cabelos loiros lhe tocavam os ombros; usava todos os dias uma cardigan colorida e escondia os pés no all star surrado herdado da irmã mais velha. Ana adorava a minha falta de jeito em arrumar o cabelo e escolher filmes românticos; deixava os dedos dançarem em minha barba descendo-os até o peito coberto pela camiseta de dormir. Aliás, conseguia ficar ainda mais bonita ao se vestir com os meus quase-pijamas. Parodiando Machado: nosso amor tomou de mim três meses, doze dias e uma parte importante do coração.

         Quando Ana me disse que precisaria tirar as amídalas e ficar uns dias na casa de sua mãe, prometi que daria um jeito de visitá-la. Suportei cinco horas de viagem, um ônibus lotado, quinze curvas sinuosas, duas crianças chorando e uma terceira vomitando na sacolinha de plástico ao meu lado. Cheguei à rodoviária e, sem dinheiro para o táxi, caminhei por sete quarteirões até chegar, enfim, onde estava minha amada. A mãe de Ana me fez comer quatro pedaços de lasanha e tomar dois copos de suco para que ela tivesse certeza de que a comida estava realmente boa, depois me pediu para aconselhar a garota a comer direito e tomar os remédios e não ficar conversando demais. O irmão mais novo passou o dia me encurralando para ter um pouco de atenção e falava mais do que se permite o Ministério da Saúde (se é que existe essa precaução para as cordas vocais). De todas as mil palavras que saiam de sua boca eu só compreendia uma ou duas delas e repetia insistentemente: “Já vemos isso, garotão!”. Ana me olhava compadecida e sussurrava um pedido de desculpa que eu aceitava devolvendo-lhe uma piscadela. Não pude beijá-la por causa das bactérias, não pude deitar ao seu lado porque alguma visita estava sempre batendo a porta do quarto, não pude ficar muito tempo porque precisava voltar e trabalhar no dia seguinte, mas cumpri a minha promessa, eu estava lá quando Ana precisou e, apesar de não termos durado a vida inteira como previ nas cartas em que escrevi, ela me deu romances maravilhosos enquanto Júlio tem ganhado de moças que não são Laís, no máximo, um apanhado de bilhetes mal escritos.

Não sei o que vocês esperam, mas é preciso ter um pouco mais de coragem para ser feliz. Eu, pelo menos, não trocaria essa história por nenhuma outra mais acessível com qualquer garota mais ou menos bonita que tenha por aí. 

segunda-feira, 20 de outubro de 2014

Transbordar



Hoje de manhã entrei na sala cerca de dez minutos antes da aula começar e pude participar, meio sem querer, de um pedacinho da conversa de duas alunas. As outras duas não estavam na sala: uma faltou porque foi ao médico e a segunda porque ainda não voltou de viagem. Dei “buongiorno” às moças, como sempre faço, e fui organizando o material na mesa que divido com o outro professor de italiano. Elas me responderam sorrindo, olharam o relógio e voltaram a fuxicar no cantinho da sala. Laura lia para Carol algumas dicas de, segundo o que consegui escutar ali de longe, “como conquistar o amor de sua vida”. Pelo que me lembro, você não pode demonstrar que gosta quando gosta, tem que fingir que gosta pouquinho se gostar muito; precisa ser simpática sem parecer atirada; sexy sem ser vulgar; e engraçada sem se tornar um desastre ambulante, apenas aquela doçura atrapalhada que a gente costuma ver nos filmes de comédia-dramática-romântica-hollywoodiana. Não pode ser desorganizada, nem usar roupas da avó, ou deixar as unhas mal pintadas. É proibido falar alto, fazer declarações em público, chorar no cinema, chamar para tomar sorvete ou mandar mensagem perguntando se o rapaz está bem caso vocês ainda não tenham se beijado umas duas ou três vezes. Ele precisa se apaixonar primeiro, então não brigue por causa de política, não seja feminista, esquerdista, nem trabalhe com crianças que jogam tinta guache cor de rosa na sua camiseta amarela de ursinho marrom. Não tenha uma camiseta amarela de ursinho marrom. Sorria sempre, não seja ciumenta nunca e responda “talvez” para toda pergunta. Segundo Laura (que leu isso em algum lugar), parecer confusa é o charme do século.

       Silencio as garotas e começo a aula. Estou ensinando-as a conjugar verbos no presente do indicativo. Eu adoro verbos. Os alunos não. Fico me perguntando se eu precisaria detestar verbos para encontrar o amor da minha vida ou se tudo bem gostar um pouco da gramática normativa. Penso em pedir para que Laura consulte a sua revista de dicas, mas desisto na metade do caminho. Os meus vinte e tantos anos não permitem mais essas fantasias de menina. Passo alguns exercícios na lousa e espero que resolvam sem a minha ajuda. Depois corrigimos juntas. O italiano delas fica cada dia mais bonito, o coração eu já não tenho tanta certeza. Não sei quando exatamente o amor passou a ser um jogo cheio de regras, mais complicado que o xadrez de cristal guardado pelo meu avô no armário de madeira rústica da sala da nossa antiga casa, mas não sei lidar com isso, não gosto de precisar lidar com tanta burocracia dentro de um sentimento que sempre me pareceu tão repleto de prontidão e desembaraço.

O sinal soa no alto da porta e antes de dispensar Laura e Carol, resolvo perguntar se elas têm medo do amor. As duas balançam a cabeça acenando positivamente e me dizem ainda que não querem se magoar. Sorrio amarelo, levanto os ombros, e libero a passagem da porta com a promessa de retomar esse assunto num outro dia, em italiano. Elas riem e se despedem de mim. 

        Também tenho medo do amor. Tenho um medo absurdo desse amor que precisa de manual, descrição, dica tabulada, prescrição médica, mestrado e doutorado pra ser sentido. Tenho pavor desse amor que estampa a capa das revistas e não escreve nenhuma carta, desse amor que dói menos do que as minhas tatuagens e que a minha colega de quarto tem curado lendo livros pequenos. Tenho horror a esse amor que deseja que sejamos todos iguais, como numa fábrica de bonecas de plásticos; que não permite que sejamos malucos, doidos de pedra, loucos da silva. Tenho fobia desse amor racional, mensurável, limpinho, de meia tigela, que deixa tudo sempre no mesmo lugar. Aliás, isso não é amor. Não é amor se não transbordar.

segunda-feira, 6 de outubro de 2014

Pior do que tá, fica sim



Hoje de manhã, no ônibus, uma mulher comentou com um rapaz que ela vai de Aécio sim. Outra, que não participava da conversa, respondeu prontamente que votar no tucano é dar um tiro no próprio pé e que nossa presidente deve ser reeleita para ontem. Segundo a protetora dos direitistas, Dilma enganou todos os pobres com a ninharia do programa Bolsa Família e umas casinhas que, como sugeriu a passageira, ela construiu e distribuiu aos favelados. Para a defensora do atual governo, Aécio é candidato de elite e se pobre sofre agora, vai é se foder caso o candidato seja eleito.

           Alguns instantes depois, as senhoras passaram de uma conversa matinal sobre política para um debate acalorado. Foram, aos poucos, arrumando fãs e inimigos em meio ao balanço do trânsito nas avenidas movimentadas pelo horário de pico. Logo não éramos mais passageiros do transporte publico, mas a Assembleia Nacional Constituinte francesa nos fins do século XVIII, e os argumentos das donas tilintavam sem parar no ar abafado do veículo. Uma bradava sobre os feitos do PT com relação à diminuição da miséria no país, a outra falava sobre os escândalos de corrupção envolvendo este mesmo partido. Uma dizia que Dilma rouba sim, mas se lembra um pouco de quem não tem onde cair morto; a outra protestava que ladrão por ladrão, melhor encher o bolso de um novo, porque não é possível ele ser pior que o vigente. A seguidora do PSDB ainda concluiu o seu relato dividindo a felicidade por, graças a Deus, pelo menos Alckmin ser reeleito logo de cara. Eu, como professora, desejo, em pensamento, que Deus caia duro lá do céu se tiver mesmo alguma coisa a ver com Geraldo assumindo outra vez o cargo de governador do estado de São Paulo.

           Alguns passageiros sabem pouco e falam demais em meio as vozes das duas mais empolgadas, outros, ainda confusos, se olham abismados e indecisos entre dar uma opinião ou segurar a língua inexata dentro da boca. Tem aqueles que riem da cena, e também uns dois ou três se escondendo do mundo em seus fones de ouvido. Justo hoje esqueci os meus na gaveta da escrivaninha. Desço do ônibus quarenta minutos depois de pegá-lo no terminal e a discussão, que começou logo no início do trajeto, agora segue animada sem mim.  

          Quando chego ao meu trabalho e vou até a sala de informática para adiantar uns relatórios, me deparo com dois alunos discutindo também sobre o segundo turno das eleições. A menina fala que Aécio trabalhou muito pelo estado de Minas e até abdicou de seu salário enquanto governava; o garoto, por sua vez, argumenta que Aécio fez isso por causa das propinas que recebia, coisa que, segundo ele, até a esposa do candidato confirmou em um jornal noturno. A garota balança os braços como se a acusação não tivesse nenhuma importância, e profere ainda que qualquer coisa é melhor do que a atual presidente eleita outra vez. Levanto-me, saio da sala e procuro desesperadamente por alguém que me empreste fones de ouvido. Não quero perder o controle e jogar pessoas pela janela de ônibus em movimento ou escolas particulares. Cansei!

 Vocês vivem criticando o deputado Tiririca, mas adoram usar o bordão do humorista como argumento para um voto descabido. O problema é que pior do que "tá", fica sim. Fica e muito.