Hoje
de manhã entrei na sala cerca de dez minutos antes da aula começar e pude
participar, meio sem querer, de um pedacinho da conversa de duas alunas. As
outras duas não estavam na sala: uma faltou porque foi ao médico e a segunda
porque ainda não voltou de viagem. Dei “buongiorno” às moças, como sempre faço,
e fui organizando o material na mesa que divido com o outro professor de
italiano. Elas me responderam sorrindo, olharam o relógio e voltaram a fuxicar
no cantinho da sala. Laura lia para Carol algumas dicas de, segundo o que
consegui escutar ali de longe, “como conquistar o amor de sua vida”. Pelo que
me lembro, você não pode demonstrar que gosta quando gosta, tem que fingir que gosta
pouquinho se gostar muito; precisa ser simpática sem parecer atirada; sexy sem ser
vulgar; e engraçada sem se tornar um desastre ambulante, apenas aquela doçura atrapalhada
que a gente costuma ver nos filmes de comédia-dramática-romântica-hollywoodiana.
Não pode ser desorganizada, nem usar roupas da avó, ou deixar as unhas mal
pintadas. É proibido falar alto, fazer declarações em público, chorar no
cinema, chamar para tomar sorvete ou mandar mensagem perguntando se o rapaz
está bem caso vocês ainda não tenham se beijado umas duas ou três vezes. Ele
precisa se apaixonar primeiro, então não brigue por causa de política, não seja
feminista, esquerdista, nem trabalhe com crianças que jogam tinta guache cor de
rosa na sua camiseta amarela de ursinho marrom. Não tenha uma camiseta amarela
de ursinho marrom. Sorria sempre, não seja ciumenta nunca e responda “talvez” para
toda pergunta. Segundo Laura (que leu isso em algum lugar), parecer confusa é o
charme do século.
Silencio as garotas e começo a aula. Estou ensinando-as a conjugar verbos no presente do indicativo. Eu adoro verbos. Os alunos não. Fico me perguntando se eu precisaria detestar verbos para encontrar o amor da minha vida ou se tudo bem gostar um pouco da gramática normativa. Penso em pedir para que Laura consulte a sua revista de dicas, mas desisto na metade do caminho. Os meus vinte e tantos anos não permitem mais essas fantasias de menina. Passo alguns exercícios na lousa e espero que resolvam sem a minha ajuda. Depois corrigimos juntas. O italiano delas fica cada dia mais bonito, o coração eu já não tenho tanta certeza. Não sei quando exatamente o amor passou a ser um jogo cheio de regras, mais complicado que o xadrez de cristal guardado pelo meu avô no armário de madeira rústica da sala da nossa antiga casa, mas não sei lidar com isso, não gosto de precisar lidar com tanta burocracia dentro de um sentimento que sempre me pareceu tão repleto de prontidão e desembaraço.
O
sinal soa no alto da porta e antes de dispensar Laura e Carol, resolvo
perguntar se elas têm medo do amor. As duas balançam a cabeça acenando
positivamente e me dizem ainda que não querem se magoar. Sorrio amarelo,
levanto os ombros, e libero a passagem da porta com a promessa de retomar esse
assunto num outro dia, em italiano. Elas riem e se despedem de mim.
Também tenho medo do amor. Tenho um medo absurdo desse amor que precisa de manual, descrição, dica tabulada, prescrição médica, mestrado e doutorado pra ser sentido. Tenho pavor desse amor que estampa a capa das revistas e não escreve nenhuma carta, desse amor que dói menos do que as minhas tatuagens e que a minha colega de quarto tem curado lendo livros pequenos. Tenho horror a esse amor que deseja que sejamos todos iguais, como numa fábrica de bonecas de plásticos; que não permite que sejamos malucos, doidos de pedra, loucos da silva. Tenho fobia desse amor racional, mensurável, limpinho, de meia tigela, que deixa tudo sempre no mesmo lugar. Aliás, isso não é amor. Não é amor se não transbordar.
Também tenho medo do amor. Tenho um medo absurdo desse amor que precisa de manual, descrição, dica tabulada, prescrição médica, mestrado e doutorado pra ser sentido. Tenho pavor desse amor que estampa a capa das revistas e não escreve nenhuma carta, desse amor que dói menos do que as minhas tatuagens e que a minha colega de quarto tem curado lendo livros pequenos. Tenho horror a esse amor que deseja que sejamos todos iguais, como numa fábrica de bonecas de plásticos; que não permite que sejamos malucos, doidos de pedra, loucos da silva. Tenho fobia desse amor racional, mensurável, limpinho, de meia tigela, que deixa tudo sempre no mesmo lugar. Aliás, isso não é amor. Não é amor se não transbordar.

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