segunda-feira, 20 de outubro de 2014

Transbordar



Hoje de manhã entrei na sala cerca de dez minutos antes da aula começar e pude participar, meio sem querer, de um pedacinho da conversa de duas alunas. As outras duas não estavam na sala: uma faltou porque foi ao médico e a segunda porque ainda não voltou de viagem. Dei “buongiorno” às moças, como sempre faço, e fui organizando o material na mesa que divido com o outro professor de italiano. Elas me responderam sorrindo, olharam o relógio e voltaram a fuxicar no cantinho da sala. Laura lia para Carol algumas dicas de, segundo o que consegui escutar ali de longe, “como conquistar o amor de sua vida”. Pelo que me lembro, você não pode demonstrar que gosta quando gosta, tem que fingir que gosta pouquinho se gostar muito; precisa ser simpática sem parecer atirada; sexy sem ser vulgar; e engraçada sem se tornar um desastre ambulante, apenas aquela doçura atrapalhada que a gente costuma ver nos filmes de comédia-dramática-romântica-hollywoodiana. Não pode ser desorganizada, nem usar roupas da avó, ou deixar as unhas mal pintadas. É proibido falar alto, fazer declarações em público, chorar no cinema, chamar para tomar sorvete ou mandar mensagem perguntando se o rapaz está bem caso vocês ainda não tenham se beijado umas duas ou três vezes. Ele precisa se apaixonar primeiro, então não brigue por causa de política, não seja feminista, esquerdista, nem trabalhe com crianças que jogam tinta guache cor de rosa na sua camiseta amarela de ursinho marrom. Não tenha uma camiseta amarela de ursinho marrom. Sorria sempre, não seja ciumenta nunca e responda “talvez” para toda pergunta. Segundo Laura (que leu isso em algum lugar), parecer confusa é o charme do século.

       Silencio as garotas e começo a aula. Estou ensinando-as a conjugar verbos no presente do indicativo. Eu adoro verbos. Os alunos não. Fico me perguntando se eu precisaria detestar verbos para encontrar o amor da minha vida ou se tudo bem gostar um pouco da gramática normativa. Penso em pedir para que Laura consulte a sua revista de dicas, mas desisto na metade do caminho. Os meus vinte e tantos anos não permitem mais essas fantasias de menina. Passo alguns exercícios na lousa e espero que resolvam sem a minha ajuda. Depois corrigimos juntas. O italiano delas fica cada dia mais bonito, o coração eu já não tenho tanta certeza. Não sei quando exatamente o amor passou a ser um jogo cheio de regras, mais complicado que o xadrez de cristal guardado pelo meu avô no armário de madeira rústica da sala da nossa antiga casa, mas não sei lidar com isso, não gosto de precisar lidar com tanta burocracia dentro de um sentimento que sempre me pareceu tão repleto de prontidão e desembaraço.

O sinal soa no alto da porta e antes de dispensar Laura e Carol, resolvo perguntar se elas têm medo do amor. As duas balançam a cabeça acenando positivamente e me dizem ainda que não querem se magoar. Sorrio amarelo, levanto os ombros, e libero a passagem da porta com a promessa de retomar esse assunto num outro dia, em italiano. Elas riem e se despedem de mim. 

        Também tenho medo do amor. Tenho um medo absurdo desse amor que precisa de manual, descrição, dica tabulada, prescrição médica, mestrado e doutorado pra ser sentido. Tenho pavor desse amor que estampa a capa das revistas e não escreve nenhuma carta, desse amor que dói menos do que as minhas tatuagens e que a minha colega de quarto tem curado lendo livros pequenos. Tenho horror a esse amor que deseja que sejamos todos iguais, como numa fábrica de bonecas de plásticos; que não permite que sejamos malucos, doidos de pedra, loucos da silva. Tenho fobia desse amor racional, mensurável, limpinho, de meia tigela, que deixa tudo sempre no mesmo lugar. Aliás, isso não é amor. Não é amor se não transbordar.

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