segunda-feira, 6 de outubro de 2014

Pior do que tá, fica sim



Hoje de manhã, no ônibus, uma mulher comentou com um rapaz que ela vai de Aécio sim. Outra, que não participava da conversa, respondeu prontamente que votar no tucano é dar um tiro no próprio pé e que nossa presidente deve ser reeleita para ontem. Segundo a protetora dos direitistas, Dilma enganou todos os pobres com a ninharia do programa Bolsa Família e umas casinhas que, como sugeriu a passageira, ela construiu e distribuiu aos favelados. Para a defensora do atual governo, Aécio é candidato de elite e se pobre sofre agora, vai é se foder caso o candidato seja eleito.

           Alguns instantes depois, as senhoras passaram de uma conversa matinal sobre política para um debate acalorado. Foram, aos poucos, arrumando fãs e inimigos em meio ao balanço do trânsito nas avenidas movimentadas pelo horário de pico. Logo não éramos mais passageiros do transporte publico, mas a Assembleia Nacional Constituinte francesa nos fins do século XVIII, e os argumentos das donas tilintavam sem parar no ar abafado do veículo. Uma bradava sobre os feitos do PT com relação à diminuição da miséria no país, a outra falava sobre os escândalos de corrupção envolvendo este mesmo partido. Uma dizia que Dilma rouba sim, mas se lembra um pouco de quem não tem onde cair morto; a outra protestava que ladrão por ladrão, melhor encher o bolso de um novo, porque não é possível ele ser pior que o vigente. A seguidora do PSDB ainda concluiu o seu relato dividindo a felicidade por, graças a Deus, pelo menos Alckmin ser reeleito logo de cara. Eu, como professora, desejo, em pensamento, que Deus caia duro lá do céu se tiver mesmo alguma coisa a ver com Geraldo assumindo outra vez o cargo de governador do estado de São Paulo.

           Alguns passageiros sabem pouco e falam demais em meio as vozes das duas mais empolgadas, outros, ainda confusos, se olham abismados e indecisos entre dar uma opinião ou segurar a língua inexata dentro da boca. Tem aqueles que riem da cena, e também uns dois ou três se escondendo do mundo em seus fones de ouvido. Justo hoje esqueci os meus na gaveta da escrivaninha. Desço do ônibus quarenta minutos depois de pegá-lo no terminal e a discussão, que começou logo no início do trajeto, agora segue animada sem mim.  

          Quando chego ao meu trabalho e vou até a sala de informática para adiantar uns relatórios, me deparo com dois alunos discutindo também sobre o segundo turno das eleições. A menina fala que Aécio trabalhou muito pelo estado de Minas e até abdicou de seu salário enquanto governava; o garoto, por sua vez, argumenta que Aécio fez isso por causa das propinas que recebia, coisa que, segundo ele, até a esposa do candidato confirmou em um jornal noturno. A garota balança os braços como se a acusação não tivesse nenhuma importância, e profere ainda que qualquer coisa é melhor do que a atual presidente eleita outra vez. Levanto-me, saio da sala e procuro desesperadamente por alguém que me empreste fones de ouvido. Não quero perder o controle e jogar pessoas pela janela de ônibus em movimento ou escolas particulares. Cansei!

 Vocês vivem criticando o deputado Tiririca, mas adoram usar o bordão do humorista como argumento para um voto descabido. O problema é que pior do que "tá", fica sim. Fica e muito. 

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