Eu estava conversando
com alguns daqueles tios de grau distante, que só encontramos em casamento de
primos velhos, quando ela se aproximou e puxou para perto de si um dos homens que
estava ao meu lado, o abraçou e depois perguntou se ele não queria comer alguma
coisa. Achei bonita a preocupação da moça e sorri para a cena acontecendo no
canto esquerdo do salão. Meu tio acenou com uma das mãos para que eu me
aproximasse dos dois e apresentou-me a garota, sua filha. Olhando-a mais de
perto, reconheci a prima baixinha e magricela que correu comigo pelos
corredores do casamento dos meus pais, há 17 anos. Rimos juntos da recordação
enquanto nos cumprimentávamos. Laura tem os mesmos olhos claros de quando
criança, mas está mais alta, menos loira, menos magra e mais bonita. “O tempo
voa!” – profiro, incrédulo. Nos abraçamos mais uma vez e, meio desconsertados
com os olhares que encaram a minha animação, voltamos para as nossas
respectivas mesas.
Todas as tolhas brancas refletem a luz de vestidos, ternos, flores e lustres coloridos. Os garçons começam a circular pelas cadeiras e, entre uma cerveja e outra, consigo ver, ao lado do bar quente, Laura conversando com os pais da noiva enquanto toma uma bebida verde degrade pelo canudo colorido destacado no copo transparente. As pessoas comem, riem, tiram fotos e eu só percebo que a música começou quando minha irmã mais nova pede para que eu dance com ela no meio de quem já se agita no centro do salão. De mãos dadas às minhas, a pequena de cabelos cacheados nos mistura aos outros convidados, bailarinos e banda. Remexo-me meio sem jeito, apenas para alegrar a menina que se diverte com os movimentos do vestido rodado e amarelo.
Tomo mais algumas cervejas e procuro por algum vestido azul marinho. Encontro-o a uns passos de mim, em Laura, que está bailando ao som de algum hit dos anos 70, de mãos dadas com o meu tio, seu pai. Ela segura um outro copo, com uma bebida branquinha e o canudo quase tão vermelho quanto os seus lábios. Sorrio novamente e, dessa vez, a moça me encara e devolve o sorriso. Ficamos nos olhando entre uma dança e outra, quase intocáveis, parados em um tempo que passou tão rápido para nós dois. Minha prima ajeita as mangas do vestido, abaixa o rosto, sorri, se desvencilha das mãos de seu pai, me olha e anda devagar de encontro às mesas vazias. Todas as pessoas estão no centro, dançando agitadas. Ela me olha, faz um sinal com a cabeça e continua andando. Laura caminha a minha frente, bem devagar e eu a acompanho, involuntariamente sem pressa, agora em direção a parte de fora do estabelecimento. Nas laterais externas há dois corredores que culminam em um único, elevado, distante, um pouco escuro e esquecido.
Consigo ver cada
movimento da sua silhueta, as pernas bem desenhadas, algumas tatuagens meio
escondidas e as madeixas lisas na altura dos ombros balançando com a alvorada
que sopra o inverno metropolitano. Ela para, encosta na parede e me encara. Respiro
fundo, chego bem perto, coloco uma mecha de cabelo atrás de sua orelha e a beijo
como se tivesse esperado por isso há anos. Passo as minhas mãos pela sua
cintura, encontro cada curva com as pontas trêmulas dos dedos gelados; ela
morde os meus lábios e sorri, limpando as marcas de batom das nossas bocas. Abraço-a
e sinto o seu cheiro dentro de mim. Laura tira o celular do bolso, anota o meu
número em sua agenda, ajeita o vestido azul e me lembra de que precisamos
voltar para a festa. Beijo-a mais uma vez, como se fosse a última. Os anos às
vezes passam em alguns segundos.

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