quinta-feira, 19 de fevereiro de 2015

Esquecidos




Logo que cheguei ao velório, pouco antes das nove da manhã, me sentei em um banco branco na enorme sala de espera. De onde eu estava, não se conseguia ver nenhum corpo morto dentro do caixão. Cinco salas rodeavam aquela praça e cinco corredores levavam a esses espaços quem entrava pela porta principal. Nas laterais havia ainda dois banheiros, masculino e feminino, e uma pequena cozinha com geladeira, fogão e uma pia de mármore. Alguns vasos enfeitavam a parede do local com flores brancas e amarelas, no teto apenas o barulho dos ventiladores desbotados e, vez ou outra, havia também alguém que soluçava, chorando dentro de um dos cômodos que eu não conseguia ver. Passei o dia no mesmo lugar. Sentada no mesmo banco. Com um livro aberto nas mãos e nenhuma linha lida.
Quando o meu avô faleceu, há dois anos, também preferi não encara-lo sem vida. Eu me sentei em um banco do mesmo modelo, num cemitério com mais flores, e chorei por horas, a noite toda no mesmo lugar. Hoje, quem nos deixa é a minha bisavó que, ao contrário do que diz o letreiro brilhante e vermelho fornecido pela funerária, não completava 86 anos, mas 88. Ela foi forte e sã até quase o fim da vida, nunca se esqueceu de mim, ou de seu marido falecido há mais de uma década.
Minha mãe anda de um lado para o outro tentando resolver os percalços burocráticos que a morte traz, depois cumprimenta os seus tios e sorri para mim quando não está chorando. Minha madrinha cuida das crianças e, de vez em quando, oferece café aos visitantes.
Na sala fúnebre ao lado de onde minha bisa é velada, um senhor chamado Antônio também se vai. Pelo que diz o letreiro, ele tinha 92 anos e um sobrenome de família jovem e rica. No entanto, poucos vêm se despedir. Eles aparentam ter a mesma idade do senhor falecido, comentam sobre as dores nas costas, os olhos que já não veem mais e essa hora, essa infeliz hora que chegará para cada um de nós. Nenhum deles chora. Ninguém parece se importar de não vê-lo mais.
Alguém acena de longe, para que eu pegue o meu celular. Encontro o aparelho e vejo que meu padrasto deixou uma mensagem perguntando se quero almoçar. Olho de volta para o outro lado da sala de espera e chacoalho a cabeça, respondendo à minha mãe. Ela está no telefone, imagino que talvez seja seu marido do outro lado da linha e, assim, nem preciso me dar ao trabalho de digitar. Levanto um pouco, para ir ao banheiro e, quando retorno, minha madrinha está a minha espera, apontando para um moço bonito e perguntando se me lembro dele. Eu sorrio, digo “oi” e me desculpo por não lembrar. Ele me estende a mão e se apresenta: é um daqueles primos que conhecemos aos três anos e, mesmo sabendo a óbvia resposta, todo o mundo insiste em testar a enganosa memória infantil de quem não se lembra nem do jantar do dia anterior.
Logo o rapaz se despede, e diz esperar me ver mais vezes, em ocasiões menos tristes que essa. Eu concordo, e me sento novamente. Minha avó fica um pouco ao meu lado e questiona se não quero mesmo me despedir. Seguro a sua mão, beijo a aliança dourada ainda em seu dedo e encosto a cabeça em seu ombro.
Poucas pessoas estiveram aqui hoje, menos pessoas do que as que estiveram no velório do meu avô e menos ainda do que todas aquelas que visitaram o meu colega de escola há uns seis anos. As flores também vieram em menor quantidade, as lágrimas eu quase pude contar e as mensagens bonitas, lidas em alto e bom som, nem estiveram na sala. De todas as ocasiões mais tristes em que estive, mais triste foi não me lembrar. Mais triste do que não viver, é não deixar nada para trás.

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