domingo, 25 de setembro de 2011

Por você, com você

Estar longe de você é estar também sem uma parte importante de mim, é como se me faltasse um membro do corpo. É como se me faltasse um dente da frente – dissera, certa vez, Clarice Lispector. E não, eu não estou falando de nenhum amor antigo, estou me referindo a mais do que isso: amizade.

Amizade é mais do que amor, acredito eu, porque é junção dos dois. Amizade que pode ser chamada de amizade sem nenhum constrangimento ou pé atrás, claro. Amizade destas que a gente cultiva por quase oito anos; que luta, todos os dias, para manter viva diante de tantas dificuldades. Amizade que a gente morre de medo de perder, morre só de pensar que se pode perder. E às vezes nem se pode, mas a insegurança, menina levada que é, matuta no cérebro já meio cansado e o faz pensar que sim.

O faz pensar por pouco tempo, só até aquele teu amigo, teu melhor amigo, teu irmão-de-alma-e-coração ou, no meu caso, irmã, perceber que algo bem paranóico está passando pela sua cabeça e escrever aquele recadinho meigo no Facebook, Messenger, ou email, que seja; só até ele te lembrar que está ali, mesmo que pareça não estar.

Porque amizade é isso: estar ao lado de alguém ainda que não esteja. É cuidar sem esperar nada em troca, e se por acaso houver reciprocidade, ótimo, pois neste momento saberás que é eterno.

Eu tenho alguém em que posso confiar de olhos fechados, inteiramente fechados, e se você aí também tem, sabe bem do que estou falando. Nós, amigas verdadeiras que somos, sobrevivemos há coisas que até Deus duvida. Submergimos de brigas, fofocas, idas e voltas.

E não pense que somos iguais porque, minha nossa, ela é perfeccionista que só vendo e eu desorganizada que é melhor nem ver. Ela mega controlada, eu com um impulso que só Deus controla (e olhe lá!). Mas, sabe, a gente se completa, diferentes ou iguais sabemos que fomos feitas para caminhar juntas ainda que uma distância de quase 800 km resolva querer atrapalhar. Querer, eu disse, porque não se pode destruir o que sentimos, se pode querer destruir, mas chegar ao ponto de fazê-lo não, nunca.

Eu já não sou mais eu sem ela, e creio que ela também não é ela sem mim. Confuso, não é? Mas o que é que a gente precisa entender quando existe algo tão bonito assim pra sentir? Nada, respondo eu mesma, não é preciso entender nada.

Você é a minha metade, TL, é a melhor parte de mim e vai ser pra sempre. E ainda que este tal de ‘pra sempre’ insista em não querer existir, eu o invento, eu me reinvento, eu vou com o vento, ou fico, é só me pedir. Por você, com você.

domingo, 18 de setembro de 2011

O que fica da despedida, ou que vai

Lembro-me de tudo como se hoje fosse o dia que o vi pela última vez. Lembro-me do tempo; fazia tanto calor naquela época. Eu estava de bermuda e sandália, ele de jeans e tênis, como sempre. Dizia não gostar do próprio pé e por isso só usava chinelos em casa. Nós conversamos durante quatro horas, sem pausa, sem nem ao menos perceber que o tempo passava. Éramos bons amigos, eu diria. ‘Ótimos’, diziam. ‘Mais do que isso’, murmuravam aqueles que há pouco nos conheciam.

Naquela noite ele sorriu para mim inocentemente, depois cantou quase que em um sussurro uma música do Charlie Brow Jr. e improvisou um poema sobre o meu cabelo bagunçado. Fazia-me rir de coisas assim não tão engraçadas, se é que vocês me entendem. Ele era bom. Com piadas, claro. Era divertido de um jeito que ninguém mais é.

As pessoas costumam satirizar coisas erradas em horas erradas: opção sexual, peso, altura. Elas só vêem graça à custa de desgraça. ‘Aparência não julga caráter’, ele acreditava, piamente. Suas anedotas eram sobre o seu grande nariz, ou sobre política – dá pra acreditar que poder legislativo fazia-me rir?-. Ele não precisava de mais ninguém, nem de nenhum circo ou fantasia para que eu soltasse a minha gargalhada mais bizarra. Era só ele, eu, e um quase nós.

No último dia em que nos vimos, ele me perguntou se eu o deixaria realmente; e eu disse que sim, que claro; dei um empurrãozinho em seu braço e me afastei. Eu precisava me afastar porque nós éramos amigos e não poderíamos ser mais, não mais do que isso. A necessidade de fugir antes de entregar sempre me acompanhou, felizmente ou infelizmente.  Apenas sinto em dizer que, neste exato momento, o da despedida, até amigos nós deixamos de ser.

O que antes era piada, inocência e amizade; hoje nós nos privamos de pensar. Os segredos que dividimos enquanto amigos; guardamos sozinhos, no mais obscuro lugar - um lugar da mente onde se guardam as coisas que se tenta esquecer. O olhar de antes já nem existe mais. As declarações feitas à base de brincadeiras nós deixamos pra trás. Os assuntos malucos de que falávamos, hoje não passam de previsões climáticas. E o que antes parecia amizade eterna se foi, se deixou, se guardou pra mais tarde, quem é que sabe.

domingo, 11 de setembro de 2011

XI . IX

Houve um dia em que a terra parou e colocou seus olhos em um único lugar: Nova York. Desde esta terça-feira, setembro nunca mais foi só setembro, talvez o mundo tenha deixado de ser o mesmo, as pessoas, os lugares. Naquele dia, exatamente às 8:46 da manhã, um atentado terrorista destruiu as torres gêmeas e, mais do que isso, matou milhares de pessoas, fez centenas de órfãos, pais sem filhos, famílias sem familiares, heróis em perigo constante; deixou o mundo paralisado e uma dor que se mantém viva por uma década. 

Desde a catástrofe, Nova York tenta se reerguer e seguir em frente. O mundo todo tenta. A quem acredite que, agora, nenhum homem de barba é apenas um homem de barba, nenhuma maleta esquecida em um banco de metrô é só algo esquecido, nenhum carro estacionado é só um carro estacionado, e nenhum avião voando baixo é só um avião aterrissando.  A quem acredite que os americanos tornaram-se mais frios e começaram a pensar, incessantemente, em vingança.

Porém, eu, e talvez mais um bocado de gente prefira pensar que depois da ‘guerra’ vem a ‘paz’. A vingança não trás de volta aqueles que se foram antes da hora, não faz o tempo voltar; só machuca ainda mais os que ficaram aqui, sem respostas. Reflito hoje mais do que nunca, o desespero que milhares de famílias passaram no instante em que aqueles aviões se chocaram com os prédios gigantescos de Manhattan. Penso na força que cada um deles precisou ter para continuar. Mando as vibrações mais positivas que me restaram e rezo, simplesmente rezo.

Eu, particularmente, acredito que depois de 10 anos muitas coisas boas aconteceram. Crianças que nasceram entre a fumaça negra da morte, puderam ser criadas com o intuito de melhorar o mundo, corações foram tocados e ONGs foram criadas para receber aqueles que perderam seus entes queridos no atentado; Cidadãos americanos, e do mundo todo, se juntaram para tentar esquecer, ou lembrar-se de um jeito menos dolorido, o dia 11 de Setembro de 2001.

E sim, por mais difícil que seja, nós podemos acreditar em algo melhor.

segunda-feira, 5 de setembro de 2011

Quando a fuga torna-se apropriada

Cuidado menina, preste bem atenção no que agora vou lhe contar. Guarde estas palavras assim como guardou, por anos, a história de teu primeiro beijo ou de teu primeiro amor; guarde o que lhe digo a sete chaves, oito se preciso for.

Se você tem aí ao seu lado um garoto lindo com fama de ‘pegador’, afaste-se, por mais difícil que seja, afaste-se. Se ele olha nos seus olhos e assim permanece por mais de dois segundos, se ele diz que vai mudar porque gosta de você, se ele arruma o seu cabelo como quem não quer nada e desliza, levemente, as mãos pela tua cintura a fim de te abraçar, fuja, afaste-se lentamente para que nem ele e nem ninguém perceba. Deixe-o sozinho, por mais que doa, por mais penoso que seja partir.

Não acredite em nada do que ele te diz. É tudo mentira, acredite em mim, mais cedo ou mais tarde você vai descobrir. Sei que o que este monstro mascarado de príncipe fala é bom de ouvir, mas acredite em mim, é tudo encenação, insinuação, ilusão, que seja; é mentira, mais propriamente dita, mentira na qual a gente pode evitar acreditar. É só querer que se pode. É só fugir.

Fuja dele, do monstro, do príncipe, do garoto que sorri pra você como se fosses única, mas que assim também sorri pra muitas outras, não tenhas dúvida. Esconda-se o máximo que puder, e quando não puder mais se esconder, maltrate-o, faça-o pensar que você o odeia, faço-o pensar em você como a garota que ele quer manter longe. Far away. E ainda mais distante.

Não deixe que ele te engane, não se deixe apaixonar, se levar. Não se arrisque, não nessa viagem onde sabes que o barco estará furado e terás de remar sozinha. Sozinha e com as mãos, porque nem remo ele irá te oferecer, não depois de te ter, de ter-te feito apaixonar, de te levar, de te arrastar feito águas caudalosas pro fundo do mar. Ele vai te deixar. Antes que possa dizer ‘adeus’, antes que tenha a chance de implorar pra ele ficar, o monstro, o príncipe - já nem sei mais - vai te deixar.

Não se entregue, portanto, não se afogue em vão. Corra enquanto há tempo. Esquiva-te dessas mentiras que te matam, que te fazem cair e andar na contramão. Escapa disso tudo para o teu próprio bem, e lembre-se sempre: Pessoas só valorizam aquilo que elas não têm.