Lembro-me de tudo como se hoje fosse o dia que o vi pela última vez. Lembro-me do tempo; fazia tanto calor naquela época. Eu estava de bermuda e sandália, ele de jeans e tênis, como sempre. Dizia não gostar do próprio pé e por isso só usava chinelos em casa. Nós conversamos durante quatro horas, sem pausa, sem nem ao menos perceber que o tempo passava. Éramos bons amigos, eu diria. ‘Ótimos’, diziam. ‘Mais do que isso’, murmuravam aqueles que há pouco nos conheciam.
Naquela noite ele sorriu para mim inocentemente, depois cantou quase que em um sussurro uma música do Charlie Brow Jr. e improvisou um poema sobre o meu cabelo bagunçado. Fazia-me rir de coisas assim não tão engraçadas, se é que vocês me entendem. Ele era bom. Com piadas, claro. Era divertido de um jeito que ninguém mais é.
As pessoas costumam satirizar coisas erradas em horas erradas: opção sexual, peso, altura. Elas só vêem graça à custa de desgraça. ‘Aparência não julga caráter’, ele acreditava, piamente. Suas anedotas eram sobre o seu grande nariz, ou sobre política – dá pra acreditar que poder legislativo fazia-me rir?-. Ele não precisava de mais ninguém, nem de nenhum circo ou fantasia para que eu soltasse a minha gargalhada mais bizarra. Era só ele, eu, e um quase nós.
No último dia em que nos vimos, ele me perguntou se eu o deixaria realmente; e eu disse que sim, que claro; dei um empurrãozinho em seu braço e me afastei. Eu precisava me afastar porque nós éramos amigos e não poderíamos ser mais, não mais do que isso. A necessidade de fugir antes de entregar sempre me acompanhou, felizmente ou infelizmente. Apenas sinto em dizer que, neste exato momento, o da despedida, até amigos nós deixamos de ser.
O que antes era piada, inocência e amizade; hoje nós nos privamos de pensar. Os segredos que dividimos enquanto amigos; guardamos sozinhos, no mais obscuro lugar - um lugar da mente onde se guardam as coisas que se tenta esquecer. O olhar de antes já nem existe mais. As declarações feitas à base de brincadeiras nós deixamos pra trás. Os assuntos malucos de que falávamos, hoje não passam de previsões climáticas. E o que antes parecia amizade eterna se foi, se deixou, se guardou pra mais tarde, quem é que sabe.

Por que seus textos fazem tando sentido pra mim? Me dá até um arrepio quando leio. Lindo! ♥
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