terça-feira, 25 de outubro de 2011

Da estrada

Eu preciso ir embora, às vezes. Quase sempre, pra ser sincera. Ao contrário da maioria das pessoas que costumam temer as despedidas, eu as provoco. Uma gana exorbitante de mudança. Arrumar malas é um dos meus hobbies favoritos; desarrumar nunca foi. Deixe tudo aí mesmo, já estou de saída, e talvez nem volte. Visitas rápidas não deveriam ser consideradas como retorno, afinal eu ainda estou distante. Não estou?

Está na hora de deixar a cama desarrumada e um bilhete breve de que voltarei quando puder. Senta aqui, tente ao menos entender, no começo era obrigação, agora é necessidade.

Quando você se aventura contra bruxas, seja pra salvar sua família ou o príncipe encantado, não mais se satisfará com um casamento e um felizes-para-sempre naquele velho palácio de muros altos. Quando se descobre que manter os pés no chão pode não ser a melhor maneira de viver intensamente, torna-se impossível permanecer. É preciso voar, desde então. Existe um motivo pelo qual contos de fadas terminam onde terminam, creio eu.

Aliás, já fiquei tempo demais, tenho de ir antes que saia tudo do lugar. Sabe aquele narciso bonito que você plantou, e há um tempo vem florescendo, graças à primavera? O Verão vai chegar, ele vai secar, e eu não quero estar aqui quando isso acontecer. Quero guardá-lo bem assim: bonito, florido, com cheiro de narciso novo. Para sempre. Eu preciso ir antes do caos. Ir, e ir de novo, até que encontre um lugar que me convença a ficar; um verão que não destrua minha flor preferida.

E não se engane: o meu adeus é escolha, mas não significa que doa menos que em você. Dói, sempre dói, machuca, e muito, mas é melhor do que se perder em um lugar que nem chegou a se encontrar. Eu nunca esqueço as pessoas que encontrei e deixei pra trás, nunca, não se preocupe. Sempre me lembro dos lugares, das situações, do tempo, sempre. Acabo levando um pouco de cada um a cada outro.

Eu sou nômade, cigana, circense, transeunte. Oscilação da mais difícil de calcular. Montanha-russa, roda-gigante, talvez chegue a ser um parque de diversões inteiro, um parque daqueles cheios de monstros; quem sabe até uma arquibancada repleta de gente, que cai, quebra e ainda machuca quem sentou na primeira fileira para assistir o espetáculo de pertinho. Conserto tudo o mais rápido possível e saiu, assim, de supetão, antes que as cortinas se abram. Eu sou um dragão, e os dragões ‘se esboçam e se esfumam no ar, não se definem’.

Nasci pra ser lembrança, não pra fazer parte. Não se culpe. Não me culpe. Ninguém tem culpa. Eu só não quero mais.

domingo, 16 de outubro de 2011

Um brinde às escolhas não feitas

É inconstante aquilo que se quer pra vida inteira. Eu, particularmente, nunca tive tanta dificuldade para escolher algo, como tenho agora. Decidir que faculdade fazer está sendo, sem sombra de dúvidas, a coisa mais complicada desde que sai de casa. Temos que pensar nos quatro, cinco, ou até mais anos gastos com isto, dinheiro, muito dinheiro e, claro, a sensação de que não se está no caminho certo.

Sem contar na lista de coisas que pretendia fazer antes de seguir sua carreira: a carta de motorista que ainda nem tirou, o carro ou a moto que se afastam cada vez mais da sua condição financeira. A viagem para a Espanha que anda tomando um rumo mais Peruano. O cabelo vermelho que tanto sonhava, mas que continua no mesmo tom pastel de antes. Tem até tatuagens que se deixa de fazer porque a sociedade é preconceituosa e ninguém quer um advogado com desenhos pelo corpo.

Influência familiar e os palpites daquela tia de segundo grau que só sabe falar mal de você também não ajudam em nada. É legal ter apoio numa hora como essas, mas confusão nós já temos de sobra, não precisa mais. Dizer que vamos passar fome fazendo Moda ou Publicidade e Propaganda não é o melhor jeito de nos incentivar a fazer Medicina. Pressionar não nos fará escolher o que é certo. Sim, eu tenho 18 anos e ainda não sei o que fazer da minha vida, e não me olhe diferente por isso, por favor.

Pensei em Letras porque gosto das palavras, mas meu fim seria ensinando e, não, não daria certo. Depois de um três meses dando aula mataria todos os alunos em uma chacina. Drama total, claro, jamais mataria alguém (eu acho), foi só pra demonstrar o quão constrangedor seria. Cogitei turismo, mas não pra ser turismóloga, pra ser turista mesmo. Viajar sempre foi minha paixão. Cheguei a listar Jornalismo, afinal eu adoro escrever. Mas como seria, então, escrever por obrigação?

Depois de pensar, cogitar, listar, rasgar a lista e quase ficar louca, eu me encontro sentada vendo lugares que quero conhecer. Valencia, Buenos Aires, Delhi, Wellington, New York; o mundo, se Deus permitir. E a faculdade, carreira, ou vida profissional, o que você preferir, eu resolvi não decidir agora. Não quero escolher por escolher, depois olhar pra trás e ver que fiz gastronomia, mas tenho o maior talento para engenharia elétrica. Não perderei anos da minha vida para não me orgulhar deles mais tarde.

Eu não me importo se o mercado de trabalho está cada vez mais exigente, se o carinha da loja de roupas quer alguém com curso superior. Eu não tenho medo de que seja tarde demais para estudar - afinal de contas, nunca é -, tenho medo é de que seja tarde demais para viver.

segunda-feira, 10 de outubro de 2011

Se for cômodo, que não seja

No começo, são feitos um pro outro, juras de amor-eterno pra lá e pra cá, é carinho que não acaba mais. Um não é nada sem o seu parceiro, os celulares vivem repletos de mensagens declarativas, os sites de relacionamento, então, gritam que eles são felizes e apaixonados, as fotos postadas brilham de tão perfeitamente tiradas e, mais tarde, escolhidas a dedo para estarem lá. Flores, chocolates, jantares à luz de vela – ou de lâmpada mesmo -, detalhes que não escapam aos olhos dos amantes.

O amor é lindo. É tudo muito lindo até que se passam anos assim – ou meses, apenas -, e essa lindeza toda se transforme em comodidade. Comodidade, segundo os dicionários da vida, é a qualidade do que é cômodo, vantajoso, agradável, confortável. E segundo os casais de plantão, ou já quase-não-casais, é a qualidade do que se torna viável fazer, tedioso, uniforme, cansativo, aquele tal de sempre-a-mesma-coisa.

E, pelo que eu saiba, amor não é sentimento cômodo, não. A quem previra guardá-lo na cômoda para, quem sabe um dia, entregá-lo a alguém que de fato mereça, mas de um jeito nada monótono, creio eu.

Amor é surpresa, é não esperar e receber, é não estar preparado e ver acontecer, é deixar livre sem soltar a mão. Amor que é amor não necessita coleira, não cansa, não se pode deixar que canse; tem que inovar, renovar, sei lá, vá viajar, deixe saudade. Existe coisa melhor do que sentir saudade? Sim, matar a saudade é bem melhor.

Parem de vez com essa mania de achar que se precisa encontrar o amor da vida inteira quando se tem só 15 anos. Ficar sozinho não mata, muito pelo contrário, é preciso antes ser uma ótima companhia a si mesmo para que se consiga acompanhar o outro. E depois, quando o amor resolver bater a sua porta – sim, porque sair por aí como um louco beijando todo mundo pra descobrir quem é que faz o seu estomago ter borboletinhas e seus ouvidos escutarem sinos que nem sequer têm na balada, não ajuda em nada-, atenda-o com calma, faça-o se sentir visita querida, faça ele ficar, surpreenda-o todos os dias e nunca, jamais o acomode.

Porque comodidade e amor são quase como vinho-tinto e vestido de seda branco, até se misturam, mas dá um trabalho do caramba pra remover o estrago.

segunda-feira, 3 de outubro de 2011

Rock Girl

Quero e quero agora, anulo o depois, porque depois talvez nem haja. Quero muito e quero tudo, ou então nada; desde que não seja meio termo. Esse tal de meio termo não me agrada. Se for pra sair na chuva e correr atrás de alguém muito importante - que se foda a gripe, a maquiagem derretida, o cabelo desgrenhado -, eu saio. Se precisar de alguém às quatro da manhã pra falar qualquer bobeira, pode contar comigo, não acordo mal humorada.

Se arrume, mas não exagere, o tempo é curto e a minha paciência então, nem se fale. Goma demais, só de mascar. Música alta, pizza amanhecida, roupa bem solta e sapato confortável. Se você está querendo uma Barbie, se afasta de mim, porque eu não me encaixo nesse padrão, muito pelo contrário, sou totalmente Rock'n Roll.

Adoro um bom livro e admiro quem possa falar disso comigo; citar escritores, frases, músicas boas, que seja. É preciso saber falar bem num mundo dominado por massa muscular. É preciso ser você num lugar onde todos querem ser o que não são.

Não ligo pra tendências e muito menos as sigo – bom, sigo algumas inventadas por uma amiga, e futura estudante de moda, quem sabe. Sou fã número um do pretinho básico e olhar marcado. Intensa ao extremo, adotei o lance de ficar o máximo possível calada; tenho o mau costume de não controlar o que falo, nem pelo filtro do pensamento as palavras tem tempo de passar, saem assim, correndo feito cachoeira brava.

Desde criança rabiscava o corpo todo com canetinha preta pra dizer que era tatuagem. Num dia, usei uma tinta tão forte que fui pra escola cheia de estrelas empipocadas, e achando a maior graça. Sentia-me, e confesso que ainda sinto , capaz de alcançar o céu. Dramática que só, briguei sério em brincadeiras; perdi colegas, ganhei grandes amigos; chutei o balde e fui correndo ver se não tinha quebrado nada. Impulsividade é o meu segundo nome, prazer.

Nasci do Rock e não mudo por nada nesse mundo. E não me refiro só a música, não, falo de atitude, de quem quer 80 ou 80 e não se contenta com 8, nem adianta. Opinião, personalidade e caráter já montados desde pequena, vieram comigo e comigo se vão.

Digo sempre, e repito: Deus me livre de tudo aquilo que não for Rock'n Roll.