Eu preciso ir embora, às vezes. Quase sempre, pra ser sincera. Ao contrário da maioria das pessoas que costumam temer as despedidas, eu as provoco. Uma gana exorbitante de mudança. Arrumar malas é um dos meus hobbies favoritos; desarrumar nunca foi. Deixe tudo aí mesmo, já estou de saída, e talvez nem volte. Visitas rápidas não deveriam ser consideradas como retorno, afinal eu ainda estou distante. Não estou?
Está na hora de deixar a cama desarrumada e um bilhete breve de que voltarei quando puder. Senta aqui, tente ao menos entender, no começo era obrigação, agora é necessidade.
Quando você se aventura contra bruxas, seja pra salvar sua família ou o príncipe encantado, não mais se satisfará com um casamento e um felizes-para-sempre naquele velho palácio de muros altos. Quando se descobre que manter os pés no chão pode não ser a melhor maneira de viver intensamente, torna-se impossível permanecer. É preciso voar, desde então. Existe um motivo pelo qual contos de fadas terminam onde terminam, creio eu.
Aliás, já fiquei tempo demais, tenho de ir antes que saia tudo do lugar. Sabe aquele narciso bonito que você plantou, e há um tempo vem florescendo, graças à primavera? O Verão vai chegar, ele vai secar, e eu não quero estar aqui quando isso acontecer. Quero guardá-lo bem assim: bonito, florido, com cheiro de narciso novo. Para sempre. Eu preciso ir antes do caos. Ir, e ir de novo, até que encontre um lugar que me convença a ficar; um verão que não destrua minha flor preferida.
E não se engane: o meu adeus é escolha, mas não significa que doa menos que em você. Dói, sempre dói, machuca, e muito, mas é melhor do que se perder em um lugar que nem chegou a se encontrar. Eu nunca esqueço as pessoas que encontrei e deixei pra trás, nunca, não se preocupe. Sempre me lembro dos lugares, das situações, do tempo, sempre. Acabo levando um pouco de cada um a cada outro.
Eu sou nômade, cigana, circense, transeunte. Oscilação da mais difícil de calcular. Montanha-russa, roda-gigante, talvez chegue a ser um parque de diversões inteiro, um parque daqueles cheios de monstros; quem sabe até uma arquibancada repleta de gente, que cai, quebra e ainda machuca quem sentou na primeira fileira para assistir o espetáculo de pertinho. Conserto tudo o mais rápido possível e saiu, assim, de supetão, antes que as cortinas se abram. Eu sou um dragão, e os dragões ‘se esboçam e se esfumam no ar, não se definem’.
Nasci pra ser lembrança, não pra fazer parte. Não se culpe. Não me culpe. Ninguém tem culpa. Eu só não quero mais.

Que texto maravilhoso!!
ResponderExcluirMuito bem escrito, bem expressivo!!
bjo
http://feedbackpositivoagora.blogspot.com/
Ir, mudar, sumir. Pouca roupa na mala pra caber mais histórias. Impressionada como somos dragões.
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