Impossível não notar tamanha beleza. Homens, mulheres, crianças; ninguém consegue ignorar aquele rapaz que de tão belo me faz pensar em um monumento grego Apolíneo ou de qualquer outro Deus que, esbanjando formosura pelas ruas de sua cidade natal, arrebatou os corações de pobres mortais. Eu seria uma pobre mortal de coração arrebatado. Seus músculos bem definidos me lembram cama macia, o rosto modelado e expressivo causa arrepios que só eu percebo. As mãos dele são quase tão grandes quanto as minhas duas, juntas. São mãos de quem nunca precisou trabalhar na vida. Eu podia ficar ao seu lado, algum dia desses, fingir que não o percebo só para tocá-lo em um sem querer querido. Quem sabe eu consiga segurar suas mãos branquinhas e quase feitas de pluma. Quem sabe eu consiga sentir o seu cheiro. Não olhá-lo, apenas. Tenho medo de fixar os meus olhos nos dele. Ficaria presa em suas esmeraldas profundas, pra sempre, sem saber de onde vim, pra onde vou, seguindo-os, sem direção. Eu fixo o olhar em algumas coisas, ás vezes, e fico inerte, pensante, com cara de maluca, segundo uns amigos meus. São coisas inanimadas, insignificantes, e depois de parecer maluca: desperto. Aqueles olhos são tão lindos que eu seria capaz de nunca mais despertar, enlouqueceria de vez. Ele é de uma inteligência prepotente também, entende de matemática tanto quanto de literatura, sabe um pouco de física - o que comparado a mim é um grande feito. Matem os químicos, físicos e matemáticos anda sendo o meu lema. Deixe apenas o príncipe, o monumento grego ambulante, o deus meu, de hoje. Deixe-nos, sozinhos, só nós dois. E nós dois conversaremos, e vamos nos beijar doce e depois euforicamente, e vamos nos apaixonar, e fugir juntos, com aquele circo velho que sai da cidade em uma semana. Uma semana é tempo de sobra para que eu arrume as minhas poucas malas.
Ele é mesmo muito lindo, de boca fechada. Nós conversamos, e eu percebi que arrumar as malas era desperdício, e qualquer paixão seria desnecessária, e que um beijo poderia não ser aquele beijo. Dentro de tudo aquilo não tinha nada demais, e é tão triste. Ele pode saber quando, onde e porque começou a Segunda Guerra Mundial, conhecer Gregório de Matos, vulgo boca do inferno, e fazer equações de segundo grau tão bem quanto Einstein - se é que Einstein fazia equações de segundo grau -, mas jamais terá idéia de quem foi Sarah Starzynski, ou o seu irmão, Michael, nunca vai querer assistir Noite de Amor e Música nem outros filminhos antigos e totalmente indies. O bonitão não formaria uma banda de rock que não fizesse sucesso, não entenderia por que aquele livro me marcou tanto, ou o motivo da tatuagem sobre Zakhor, Al Tichkah. Ele diz mina ao invés de namorada, e oito de suas dez palavras são mano, tipo e supino. Eu nem sei o que é um supino. Eu por acaso deveria saber o que é um?
Sempre achei que pessoas lindas não podiam ser inteligentes, mas elas podem sim, podem ser mais inteligentes do que eu, e você, e todos nós juntos, talvez. O deus grego, por exemplo, conhece de cabo a rabo a história de países que eu nem sabia que existia. Sabe de brigas entre fronteiras que pouco me importam, decorou a tabela periódica e todos aqueles graus de seno, coseno e sei lá mais o que. Percebo, então, que pessoas lindas podem tudo, mas a maioria delas não quer nada além de um mega cabelo loiro ou um músculo maior que o do vizinho, e que inteligência elas tem, sim, porém nada além. Ele, elas, os lindos, nunca vão querer provar sabores malucos de pizzas porque precisam estar em forma, não vão andar de bicicletas com três bancos porque é brega, não vão falar sobre trabalho voluntário porque nunca fizeram – ou farão – um.
Por tudo isso, seguem assim as Danis mais sozinhas, as academias mais cheias e as salas de cinema cada vez mais vazias.


