sábado, 31 de março de 2012

De boca fechada


  Impossível não notar tamanha beleza. Homens, mulheres, crianças; ninguém consegue ignorar aquele rapaz que de tão belo me faz pensar em um monumento grego Apolíneo ou de qualquer outro Deus que, esbanjando formosura pelas ruas de sua cidade natal, arrebatou os corações de pobres mortais. Eu seria uma pobre mortal de coração arrebatado. Seus músculos bem definidos me lembram cama macia, o rosto modelado e expressivo causa arrepios que só eu percebo. As mãos dele são quase tão grandes quanto as minhas duas, juntas. São mãos de quem nunca precisou trabalhar na vida. Eu podia ficar ao seu lado, algum dia desses, fingir que não o percebo só para tocá-lo em um sem querer querido. Quem sabe eu consiga segurar suas mãos branquinhas e quase feitas de pluma. Quem sabe eu consiga sentir o seu cheiro. Não olhá-lo, apenas. Tenho medo de fixar os meus olhos nos dele. Ficaria presa em suas esmeraldas profundas, pra sempre, sem saber de onde vim, pra onde vou, seguindo-os, sem direção. Eu fixo o olhar em algumas coisas, ás vezes, e fico inerte, pensante, com cara de maluca, segundo uns amigos meus. São coisas inanimadas, insignificantes, e depois de parecer maluca: desperto. Aqueles olhos são tão lindos que eu seria capaz de nunca mais despertar, enlouqueceria de vez. Ele é de uma inteligência prepotente também, entende de matemática tanto quanto de literatura, sabe um pouco de física - o que comparado a mim é um grande feito. Matem os químicos, físicos e matemáticos anda sendo o meu lema. Deixe apenas o príncipe, o monumento grego ambulante, o deus meu, de hoje. Deixe-nos, sozinhos, só nós dois. E nós dois conversaremos, e vamos nos beijar doce e depois euforicamente, e vamos nos apaixonar, e fugir juntos, com aquele circo velho que sai da cidade em uma semana. Uma semana é tempo de sobra para que eu arrume as minhas poucas malas.

           Ele é mesmo muito lindo, de boca fechada. Nós conversamos, e eu percebi que arrumar as malas era desperdício, e qualquer paixão seria desnecessária, e que um beijo poderia não ser aquele beijo. Dentro de tudo aquilo não tinha nada demais, e é tão triste. Ele pode saber quando, onde e porque começou a Segunda Guerra Mundial, conhecer Gregório de Matos, vulgo boca do inferno, e fazer equações de segundo grau tão bem quanto Einstein - se é que Einstein fazia equações de segundo grau -, mas jamais terá idéia de quem foi Sarah Starzynski, ou o seu irmão, Michael, nunca vai querer assistir Noite de Amor e Música nem outros filminhos antigos e totalmente indies. O bonitão não formaria uma banda de rock que não fizesse sucesso, não entenderia por que aquele livro me marcou tanto, ou o motivo da tatuagem sobre Zakhor, Al Tichkah. Ele diz mina ao invés de namorada, e oito de suas dez palavras são mano, tipo e supino. Eu nem sei o que é um supino. Eu por acaso deveria saber o que é um?

           Sempre achei que pessoas lindas não podiam ser inteligentes, mas elas podem sim, podem ser mais inteligentes do que eu, e você, e todos nós juntos, talvez. O deus grego, por exemplo, conhece de cabo a rabo a história de países que eu nem sabia que existia. Sabe de brigas entre fronteiras que pouco me importam, decorou a tabela periódica e todos aqueles graus de seno, coseno e sei lá mais o que. Percebo, então, que pessoas lindas podem tudo, mas a maioria delas não quer nada além de um mega cabelo loiro ou um músculo maior que o do vizinho, e que inteligência elas tem, sim, porém nada além. Ele, elas, os lindos, nunca vão querer provar sabores malucos de pizzas porque precisam estar em forma, não vão andar de bicicletas com três bancos porque é brega, não vão falar sobre trabalho voluntário porque nunca fizeram – ou farão – um.

           Por tudo isso, seguem assim as Danis mais sozinhas, as academias mais cheias e as salas de cinema cada vez mais vazias.

sábado, 24 de março de 2012

Retalhos



Na maioria das vezes, eu não quero um namorado. Minhas tias acham que preciso desesperadamente de um, porque, segundo elas, ter quase 19 anos e não ficar boba de amor é sinônimo de fracasso. Eu posso ser a garota mais inteligente do mundo, ou a mais bonita - porque as duas coisas ao mesmo tempo são quase impossíveis -, posso ter o melhor emprego e o melhor carro, mas se não tiver um amante, nenhuma dessas conquistas valerá realmente a pena. Minha avó cogitou a possibilidade de eu ser homossexual, há uns dias atrás. "Se não gosta de homem, tudo bem filha, eu ainda vou te amar". Eu gosto de homens, gente, pode acreditar que gosto. Se eu fosse gay, não estaria solteira, provavelmente, e não seria considerada um malogro ambulante pela minha avó, que julga beijo na boca e sexo as melhores coisas do mundo.

Essa história toda seria cômica se não fosse trágica, eu sei. Porém, é trágica. É triste, no mínimo. E digo triste porque, às vezes, eu dou razão para as mulheres da minha família - exceto pela parte em que uma delas resolve desconfiar da minha opção sexual, claro - quando dizem que sou um fracasso por não viver um grande amor. Eu sou um desastre ainda maior por, na maioria das vezes, não querer um. No fundo, eu quero, e muito, mas diferente de todos estes que a gente se acostuma a ver e tem até nojo. E digo nojo porque eles são eternos durante um mês, ou menos até. E só. Você vê declarações lindíssimas e, quando se dá conta, o relacionamento sério volta a ser amizade em preto e branco. Eu quero um amor sim, mas que não seja de internet, nem baseado nessa carência de que as meninas de todas as idades comentam e pensam possuir. Odeio essa palavra: Carência. Foi o conjunto de letras mais ridículo que alguém pode inventar. Carência me lembra fome e eu não tenho fome de amor. No máximo, uma vontade exagerada como aquela que me faz caçar chocolates pela casa no sábado de noite e me proporciona uma leve insônia quando não os acho; que me faz dar razão a uma teoria sem nexo de que não se encontra felicidade plena sem ter ao lado um fiel companheiro (que não seja cachorro, de preferência). Uma vontade exagerada que me faz procurar - em bares, esquinas, escolas, viagens - um grande amor. Grande amor esse que eu encontro aos pedaços por aí, e que por estar em pedaços já não é assim tão grande, e nem amor, creio eu. Grande amor em retalhos, transformado em paixões platônicas, por mim, por você, por nós, pelo medo de que haja nós, um dia, talvez; pelo medo de que nós sejamos incompletos e que de tão incompletos nos transformemos novamente em apenas eu e você, distantes. Eu e vocês, distante.

Ontem, por exemplo, descobri que você gosta de São Paulo, e que já morou lá, e que passeia por aquela metrópole gigantesca sempre que possível. E eu também. Também para todas as coisas que descobri de você, ontem. Talvez tenhamos mais em comum do que pensei. A beleza não, porque, sabe, você é tão mais bonito do que eu. Gosto tanto de te olhar, e reparar bem em suas curvas, e chegar à porta do ônibus ao mesmo tempo em que você só para ter o privilégio de ver a sua mão grande e limpinha me indicando a passagem em um gesto cavalheiro onde damas merecem estar sempre à frente, e de me sentar à suas costas pra, disfarçadamente, tentar sentir o perfume que exala de seus cabelos dourados e curtinhos. Fico esperando, ansiosamente, você se virar e me perguntar que horas são, ainda que estejas com um relógio gigante no pulso. Talvez pergunte o meu nome e, de quebra, comece a conversar comigo. Quem sabe até se sente ao meu lado e, entre uma gargalhada e outra, coloque levemente a mão sobre o meu joelho. Você não é tão alto e isso é bom porque eu sou muito baixa. Os nossos olhos são igualmente claros e nós temos o mesmo sobrenome. Podemos mentir que somos casados. Mostraremos as identidades com os últimos nomes iguais e riremos baixinho de todos aqueles olhares incrédulos de quem admira um casal que tanto combina ao mesmo tempo em que se espantam com a pouca idade destes.

Os sonhos de hoje são a prova de que eu vivo, sim, um grande amor. Sonho um grande amor diferente a cada dia que passa. Dores que não divido. Devaneios que se desmancham assim que meus olhos te vêem com outra, ou assim que desço do ônibus e não ganho um beijo amado teu. Vivo retalhos, grande amor em pedaços transformado em paixões platônicas por mim, por você, pela falta de nós.

domingo, 18 de março de 2012

A louca aqui de dentro


Tem carro pra todo lado. Nos horários de pico, o trânsito dessa cidade me lembra a Índia. Eu nunca fui pra Índia, mas li em algum lugar que o trafego de lá é uma bagunça. O sobrenome do trânsito daqui é bagunça.

Estou parada na faixa de pedestres a mais tempo do que gostaria. Uma senhora de rosto quadrado e olhar gentil percebe a minha impaciência, para o carro e me deixa passar. Eu não vejo o rosto do motorista da fila do lado, mas sei que ele não parou por educação: foi obrigado. Sei disso porque ao seu lado encontra-se uma garota de sobrancelhas marcadas que me olha com desprezo, como se os cinco segundos gastos por mim para atravessar a rua fizessem-na perder o compromisso mais importante de sua vida. Não consigo decifrar o formato de seu rosto nem a cor de seus olhos porque fico vidrada em seu blush exagerado e no batom escuro demais. O olhar irritado dela me enlouquece. Enfio a mão na janela do carro e puxo seus cabelos extremamente pretos como se estes fossem um elástico frágil e quebradiço. Ela grita. Eu grito. O mundo para.

Hoje é um daqueles dias em que penso em tudo o que não deveria pensar. Eu ando tão cansada. Estou do outro lado da rua e, agora, caminho pelo trilho do trem. Minha avó acha que eu não sou assim tão normal quanto todo mundo pensa. Eu não soquei a mão na janela do carro daquele motorista desconhecido, nem puxei o cabelo da garota maquiada. Talvez ela nem tenha me olhado com desprezo ou se irritado com a minha lerdeza em atravessar uma rua. Eu imaginei toda essa cena e, de repente, o conceito de normalidade da minha avó começa a fazer sentido. Acho que, no fundo, eu sempre soube a diferença entre mim e os outros. Eu só não sabia que essa diferença beirava a insanidade.

Uma raiva sem fim, de repente, me toma. Eu corro sem direção, em círculos, presa na lâmpada empoeirada de mim mesma. Quero gritar e rolar de um lado para o outro da cama. Fingir um ataque e puxar os cabelos, e chorar desesperadamente, soluçando, incessante.  Eu desejo tirar a roupa sem que ninguém perceba, e pular de pára-quedas, no inverno. Bater a cabeça na parede como se apenas os pensamentos fossem se explodir na hora do baque, deixando-me intacta. Eu não quero me machucar, nunca quis, só anseio afastar de mim toda essa loucura que é ter de parecer normal sem ser.

           Pensei em arrumar um namorado. Seguir o conselho do mundo e me entregar a alguém. Sabe, anda tão difícil segurar a louca aqui de dentro sozinha que, por um momento, eu cobiço a paixão de alguém meio burro, e lindo. Porque, talvez, alguém meio burro e lindo me faça parecer um pouco mais normal. E qualquer coisa que me faça parecer menos louca, serve, agora.

           Andei pensando na morte, hoje, também. E tive medo. Mas não da morte em si. É o que vem depois que me apavora. Se é que tem algum depois é o que me acovarda. Porque talvez não haja nada após a morte, e a gente acabe. E eu tenho tanto medo de acabar. Eu vou me acabar de dançar sozinha, na rua, ao som de Foster the People, como se estivesse em um de seus clipes. Vou cantar auto pra todo mundo ouvir e depois me mudo. Estivesse pensando em São Paulo, uma casa pequena e um curso de DJ. Mas preciso focar nos estudos porque casa pequena e curso pra girar cd não é o que o mundo espera de mim. Seguro a louca aqui de dentro e paro. Penso menos, e sigo em frente. Sem cantar, sem dançar, sem me mudar. Eu mudei tanto. Eu ando tão diferente. Mas, de qualquer forma, sinto que o diferente de agora é mais meu do que tudo aquilo que fui um dia, ou quis ser, que seja. Talvez eu seja. Seja louca. Seja mesmo diferente, e você precise aprender a gostar de mim assim, caso queira.

domingo, 4 de março de 2012

Diferente


É verão, as praias estão cheias, mulheres desfilam com seus corpos esculturais e homens com seus músculos comprados em algum boteco veterinário. Há suor demais, simpatia demais e bunda demais pro meu gosto esquisito. Todo mundo quer todo mundo, e música chata, e calor. Eu não. O meu corpo não é nada escultural, e mesmo que fosse eu não desfilaria com ele por aí, porque, apesar de ter “tudo do lugar”, ainda seria atrapalhada o bastante para, provavelmente, tropeçar no pé de alguém menos bonita e quebrar um dente, sei lá. Também não gosto de homens que compram seus músculos em clínicas veterinárias de fundo de quintal. Não gosto de músculos, de nenhum tipo. Eles sempre me lembram caroços e eu não gosto de caroços. Música chata, gente suada e simpatia gratuita distribuída para Deus e o mundo não são o meu forte, com certeza não. Não lido bem com o verão e por isso moro na montanha. Aqui é quente nessa época do ano, mas não tanto quanto nos outros lugares. É quente, mas não me faz precisar andar de biquíni – mostrando mais do que devo pra gente que nem me conhece. Acho estranho desfilar seminua enquanto pessoas desconhecidas me olham. Sim, eu sou brasileira, mas das mais complexadas que existem.

Pensei que ninguém subia a serra no verão, que a cidade estaria um deserto. Pensei que pensaria menos e seria menos maluca no final de semana mais quente e agitado de fevereiro, quando a última opção dos turistas é a minha atual cidade. Mas gente maluca não tem estes privilégios de parar de pensar, não. Eu pensei que sim, mas descobri que não quando ele entrou pela porta da frente e - sem me enxergar na porta dos fundos – sorriu para alguém enquanto tirava o rayban. Ele tem cachinhos tão pretos quanto seus óculos de grife. Veste camisa xadrez e uma calça velha, que encontrou jogada, na cama desarrumada, creio eu. Possui o sorriso mais lindo da história dos sorrisos. Não, acho que não existe uma história sobre o sorriso mais lindo, mas percebo, então, que seria capaz de escrever uma. Seria capaz de me casar com ele, em um campo distante e com poucos convidados, depois de um mês que estivéssemos juntos, ou três semanas, que seja. Posso até não estar sendo lá muito racional, mas sinto que enquanto sonho não tenho essa necessidade de uma imaginação regrada. Deixem-me! Não é carência nem amor platônico nem nenhuma destas idiotices que as pessoas usam para apelidar seus sentimentos idiotas. É só, sei lá, encanto. Ele parece tão diferente do resto do mundo, do que vejo todo dia, do que me cansa, do que me faz perceber que funciono mil vezes melhor quando sozinha.

Eu penso nele o final de semana inteiro, como uma criança de 12 anos que se encanta com o professor de música. Ele é músico, e é bom, é leve e acho que gosta da minha avó. Nós não conversamos, claro que não. Não conseguiria dizer nada, de qualquer forma. Até tentaria, mas ficaria corada, e travaria assim que ele percebesse o quanto minhas bochechas queimam. As pessoas adoram dizer que você está ficando corada e oferecer ajuda – como se aquele copo d’água pudesse apagar um incêndio de proporções gigantescas -, te deixando ainda mais vermelha do que imaginou ser capaz de ficar. Eu não disse nada, só observei. Nem se quer ouvi a voz dele. Só vi os óculos, e a camisa, e o rayban e o sorriso. E é distinto do que costumo ver, e é o suficiente para mim nesse momento.

Ele não precisaria me pedir em casamento, não. Não precisaria me presentear com um vestido de grife ou um anel cravejado de diamantes. Eu me contentaria com um cd de capa amassada da sua banda de rock indie. E um pouco de amor. Me contentaria com um pouco desde que fosse diferente do resto.