domingo, 4 de março de 2012

Diferente


É verão, as praias estão cheias, mulheres desfilam com seus corpos esculturais e homens com seus músculos comprados em algum boteco veterinário. Há suor demais, simpatia demais e bunda demais pro meu gosto esquisito. Todo mundo quer todo mundo, e música chata, e calor. Eu não. O meu corpo não é nada escultural, e mesmo que fosse eu não desfilaria com ele por aí, porque, apesar de ter “tudo do lugar”, ainda seria atrapalhada o bastante para, provavelmente, tropeçar no pé de alguém menos bonita e quebrar um dente, sei lá. Também não gosto de homens que compram seus músculos em clínicas veterinárias de fundo de quintal. Não gosto de músculos, de nenhum tipo. Eles sempre me lembram caroços e eu não gosto de caroços. Música chata, gente suada e simpatia gratuita distribuída para Deus e o mundo não são o meu forte, com certeza não. Não lido bem com o verão e por isso moro na montanha. Aqui é quente nessa época do ano, mas não tanto quanto nos outros lugares. É quente, mas não me faz precisar andar de biquíni – mostrando mais do que devo pra gente que nem me conhece. Acho estranho desfilar seminua enquanto pessoas desconhecidas me olham. Sim, eu sou brasileira, mas das mais complexadas que existem.

Pensei que ninguém subia a serra no verão, que a cidade estaria um deserto. Pensei que pensaria menos e seria menos maluca no final de semana mais quente e agitado de fevereiro, quando a última opção dos turistas é a minha atual cidade. Mas gente maluca não tem estes privilégios de parar de pensar, não. Eu pensei que sim, mas descobri que não quando ele entrou pela porta da frente e - sem me enxergar na porta dos fundos – sorriu para alguém enquanto tirava o rayban. Ele tem cachinhos tão pretos quanto seus óculos de grife. Veste camisa xadrez e uma calça velha, que encontrou jogada, na cama desarrumada, creio eu. Possui o sorriso mais lindo da história dos sorrisos. Não, acho que não existe uma história sobre o sorriso mais lindo, mas percebo, então, que seria capaz de escrever uma. Seria capaz de me casar com ele, em um campo distante e com poucos convidados, depois de um mês que estivéssemos juntos, ou três semanas, que seja. Posso até não estar sendo lá muito racional, mas sinto que enquanto sonho não tenho essa necessidade de uma imaginação regrada. Deixem-me! Não é carência nem amor platônico nem nenhuma destas idiotices que as pessoas usam para apelidar seus sentimentos idiotas. É só, sei lá, encanto. Ele parece tão diferente do resto do mundo, do que vejo todo dia, do que me cansa, do que me faz perceber que funciono mil vezes melhor quando sozinha.

Eu penso nele o final de semana inteiro, como uma criança de 12 anos que se encanta com o professor de música. Ele é músico, e é bom, é leve e acho que gosta da minha avó. Nós não conversamos, claro que não. Não conseguiria dizer nada, de qualquer forma. Até tentaria, mas ficaria corada, e travaria assim que ele percebesse o quanto minhas bochechas queimam. As pessoas adoram dizer que você está ficando corada e oferecer ajuda – como se aquele copo d’água pudesse apagar um incêndio de proporções gigantescas -, te deixando ainda mais vermelha do que imaginou ser capaz de ficar. Eu não disse nada, só observei. Nem se quer ouvi a voz dele. Só vi os óculos, e a camisa, e o rayban e o sorriso. E é distinto do que costumo ver, e é o suficiente para mim nesse momento.

Ele não precisaria me pedir em casamento, não. Não precisaria me presentear com um vestido de grife ou um anel cravejado de diamantes. Eu me contentaria com um cd de capa amassada da sua banda de rock indie. E um pouco de amor. Me contentaria com um pouco desde que fosse diferente do resto.

Um comentário:

  1. Já dizia a querida Vani: Eu odeio o verão! Essa obrigação das pessoas serem felizes, irem a praia, ficarem saudáveis.

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