Tem carro pra todo lado. Nos horários de pico, o trânsito dessa cidade me lembra a Índia. Eu nunca fui pra Índia, mas li em algum lugar que o trafego de lá é uma bagunça. O sobrenome do trânsito daqui é bagunça.
Estou parada na faixa de pedestres a mais tempo do que gostaria. Uma senhora de rosto quadrado e olhar gentil percebe a minha impaciência, para o carro e me deixa passar. Eu não vejo o rosto do motorista da fila do lado, mas sei que ele não parou por educação: foi obrigado. Sei disso porque ao seu lado encontra-se uma garota de sobrancelhas marcadas que me olha com desprezo, como se os cinco segundos gastos por mim para atravessar a rua fizessem-na perder o compromisso mais importante de sua vida. Não consigo decifrar o formato de seu rosto nem a cor de seus olhos porque fico vidrada em seu blush exagerado e no batom escuro demais. O olhar irritado dela me enlouquece. Enfio a mão na janela do carro e puxo seus cabelos extremamente pretos como se estes fossem um elástico frágil e quebradiço. Ela grita. Eu grito. O mundo para.
Hoje é um daqueles dias em que penso em tudo o que não deveria pensar. Eu ando tão cansada. Estou do outro lado da rua e, agora, caminho pelo trilho do trem. Minha avó acha que eu não sou assim tão normal quanto todo mundo pensa. Eu não soquei a mão na janela do carro daquele motorista desconhecido, nem puxei o cabelo da garota maquiada. Talvez ela nem tenha me olhado com desprezo ou se irritado com a minha lerdeza em atravessar uma rua. Eu imaginei toda essa cena e, de repente, o conceito de normalidade da minha avó começa a fazer sentido. Acho que, no fundo, eu sempre soube a diferença entre mim e os outros. Eu só não sabia que essa diferença beirava a insanidade.
Uma raiva sem fim, de repente, me toma. Eu corro sem direção, em círculos, presa na lâmpada empoeirada de mim mesma. Quero gritar e rolar de um lado para o outro da cama. Fingir um ataque e puxar os cabelos, e chorar desesperadamente, soluçando, incessante. Eu desejo tirar a roupa sem que ninguém perceba, e pular de pára-quedas, no inverno. Bater a cabeça na parede como se apenas os pensamentos fossem se explodir na hora do baque, deixando-me intacta. Eu não quero me machucar, nunca quis, só anseio afastar de mim toda essa loucura que é ter de parecer normal sem ser.
Pensei em arrumar um namorado. Seguir o conselho do mundo e me entregar a alguém. Sabe, anda tão difícil segurar a louca aqui de dentro sozinha que, por um momento, eu cobiço a paixão de alguém meio burro, e lindo. Porque, talvez, alguém meio burro e lindo me faça parecer um pouco mais normal. E qualquer coisa que me faça parecer menos louca, serve, agora.
Andei pensando na morte, hoje, também. E tive medo. Mas não da morte em si. É o que vem depois que me apavora. Se é que tem algum depois é o que me acovarda. Porque talvez não haja nada após a morte, e a gente acabe. E eu tenho tanto medo de acabar. Eu vou me acabar de dançar sozinha, na rua, ao som de Foster the People, como se estivesse em um de seus clipes. Vou cantar auto pra todo mundo ouvir e depois me mudo. Estivesse pensando em São Paulo, uma casa pequena e um curso de DJ. Mas preciso focar nos estudos porque casa pequena e curso pra girar cd não é o que o mundo espera de mim. Seguro a louca aqui de dentro e paro. Penso menos, e sigo em frente. Sem cantar, sem dançar, sem me mudar. Eu mudei tanto. Eu ando tão diferente. Mas, de qualquer forma, sinto que o diferente de agora é mais meu do que tudo aquilo que fui um dia, ou quis ser, que seja. Talvez eu seja. Seja louca. Seja mesmo diferente, e você precise aprender a gostar de mim assim, caso queira.
Pensei em arrumar um namorado. Seguir o conselho do mundo e me entregar a alguém. Sabe, anda tão difícil segurar a louca aqui de dentro sozinha que, por um momento, eu cobiço a paixão de alguém meio burro, e lindo. Porque, talvez, alguém meio burro e lindo me faça parecer um pouco mais normal. E qualquer coisa que me faça parecer menos louca, serve, agora.
Andei pensando na morte, hoje, também. E tive medo. Mas não da morte em si. É o que vem depois que me apavora. Se é que tem algum depois é o que me acovarda. Porque talvez não haja nada após a morte, e a gente acabe. E eu tenho tanto medo de acabar. Eu vou me acabar de dançar sozinha, na rua, ao som de Foster the People, como se estivesse em um de seus clipes. Vou cantar auto pra todo mundo ouvir e depois me mudo. Estivesse pensando em São Paulo, uma casa pequena e um curso de DJ. Mas preciso focar nos estudos porque casa pequena e curso pra girar cd não é o que o mundo espera de mim. Seguro a louca aqui de dentro e paro. Penso menos, e sigo em frente. Sem cantar, sem dançar, sem me mudar. Eu mudei tanto. Eu ando tão diferente. Mas, de qualquer forma, sinto que o diferente de agora é mais meu do que tudo aquilo que fui um dia, ou quis ser, que seja. Talvez eu seja. Seja louca. Seja mesmo diferente, e você precise aprender a gostar de mim assim, caso queira.

porque não uma casa pequena e um curso de DJ? *.*
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