Na maioria das vezes, eu não quero um namorado. Minhas tias acham que preciso desesperadamente de um, porque, segundo elas, ter quase 19 anos e não ficar boba de amor é sinônimo de fracasso. Eu posso ser a garota mais inteligente do mundo, ou a mais bonita - porque as duas coisas ao mesmo tempo são quase impossíveis -, posso ter o melhor emprego e o melhor carro, mas se não tiver um amante, nenhuma dessas conquistas valerá realmente a pena. Minha avó cogitou a possibilidade de eu ser homossexual, há uns dias atrás. "Se não gosta de homem, tudo bem filha, eu ainda vou te amar". Eu gosto de homens, gente, pode acreditar que gosto. Se eu fosse gay, não estaria solteira, provavelmente, e não seria considerada um malogro ambulante pela minha avó, que julga beijo na boca e sexo as melhores coisas do mundo.
Essa história toda seria cômica se não fosse trágica, eu sei. Porém, é trágica. É triste, no mínimo. E digo triste porque, às vezes, eu dou razão para as mulheres da minha família - exceto pela parte em que uma delas resolve desconfiar da minha opção sexual, claro - quando dizem que sou um fracasso por não viver um grande amor. Eu sou um desastre ainda maior por, na maioria das vezes, não querer um. No fundo, eu quero, e muito, mas diferente de todos estes que a gente se acostuma a ver e tem até nojo. E digo nojo porque eles são eternos durante um mês, ou menos até. E só. Você vê declarações lindíssimas e, quando se dá conta, o relacionamento sério volta a ser amizade em preto e branco. Eu quero um amor sim, mas que não seja de internet, nem baseado nessa carência de que as meninas de todas as idades comentam e pensam possuir. Odeio essa palavra: Carência. Foi o conjunto de letras mais ridículo que alguém pode inventar. Carência me lembra fome e eu não tenho fome de amor. No máximo, uma vontade exagerada como aquela que me faz caçar chocolates pela casa no sábado de noite e me proporciona uma leve insônia quando não os acho; que me faz dar razão a uma teoria sem nexo de que não se encontra felicidade plena sem ter ao lado um fiel companheiro (que não seja cachorro, de preferência). Uma vontade exagerada que me faz procurar - em bares, esquinas, escolas, viagens - um grande amor. Grande amor esse que eu encontro aos pedaços por aí, e que por estar em pedaços já não é assim tão grande, e nem amor, creio eu. Grande amor em retalhos, transformado em paixões platônicas, por mim, por você, por nós, pelo medo de que haja nós, um dia, talvez; pelo medo de que nós sejamos incompletos e que de tão incompletos nos transformemos novamente em apenas eu e você, distantes. Eu e vocês, distante.
Ontem, por exemplo, descobri que você gosta de São Paulo, e que já morou lá, e que passeia por aquela metrópole gigantesca sempre que possível. E eu também. Também para todas as coisas que descobri de você, ontem. Talvez tenhamos mais em comum do que pensei. A beleza não, porque, sabe, você é tão mais bonito do que eu. Gosto tanto de te olhar, e reparar bem em suas curvas, e chegar à porta do ônibus ao mesmo tempo em que você só para ter o privilégio de ver a sua mão grande e limpinha me indicando a passagem em um gesto cavalheiro onde damas merecem estar sempre à frente, e de me sentar à suas costas pra, disfarçadamente, tentar sentir o perfume que exala de seus cabelos dourados e curtinhos. Fico esperando, ansiosamente, você se virar e me perguntar que horas são, ainda que estejas com um relógio gigante no pulso. Talvez pergunte o meu nome e, de quebra, comece a conversar comigo. Quem sabe até se sente ao meu lado e, entre uma gargalhada e outra, coloque levemente a mão sobre o meu joelho. Você não é tão alto e isso é bom porque eu sou muito baixa. Os nossos olhos são igualmente claros e nós temos o mesmo sobrenome. Podemos mentir que somos casados. Mostraremos as identidades com os últimos nomes iguais e riremos baixinho de todos aqueles olhares incrédulos de quem admira um casal que tanto combina ao mesmo tempo em que se espantam com a pouca idade destes.
Os sonhos de hoje são a prova de que eu vivo, sim, um grande amor. Sonho um grande amor diferente a cada dia que passa. Dores que não divido. Devaneios que se desmancham assim que meus olhos te vêem com outra, ou assim que desço do ônibus e não ganho um beijo amado teu. Vivo retalhos, grande amor em pedaços transformado em paixões platônicas por mim, por você, pela falta de nós.
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