sábado, 28 de abril de 2012

Exagerada


         
Que Cazuza me desculpe, mas ser exagerado não é nada legal. Ele próprio não era, se equivocou. Cazuza, nosso tão amado Cazuza, era intenso, daqueles que vivem uma vida inteira em 60 segundos, só que intensidade não caberia na sua música, então foi lá e botou exagerado, jogado aos seus pés, que é quase a mesma coisa, pensara ele. Pensara ele, também, que as pessoas entenderiam e nunca, jamais, iriam confundir uma coisa com a outra. Mas, olha, estão confundindo, querido, e eu sinto muito. Sinto muito, porque o seu exagerado, que era intenso, era bonito, e o exagerado das outras pessoas que é o exagerado mesmo, em carne e osso, é feio. É feio e elas dizem que é o seu. Mas eu sei que não. Eu sei. Cazuza, o próprio, lá do céu ou de onde quer que esteja, sabe.

           Eu estou no vestiário do meu trabalho, agora, e a Ana, aquela grandona, que era loira, mas depois ficou ruiva porque pensava estar mais sexy assim, e agora está morena porque, segundo ela, todo mundo precisa de uma repaginada às vezes, está cantarolando uma de suas letras. Quis perguntar por que ela gosta de você, mas tive medo de que a resposta fosse tão supérflua quanto quando eu perguntei sobre todas aquelas tatuagens. “Ah, porque eu adooooooro!” Assim mesmo, com todas as letras Os que a nossa língua portuguesa permite ou não usar. Um grito do exagerado mais feio de que se tem conhecimento. Não aquele intenso do qual cantastes, Cazuza. Aquele não. Quem me dera fosse, mas não.

           A Ana, grandona, é o tipo de mulher que gosta de chamar atenção as nove horas da manhã. Ela chega atrasada todo santo dia, contando para as paredes e para quem quiser ouvir - ou não quiser e ser praticamente obrigado, como é no meu caso - o quão quente foi a sua noite. Sabe aquele gato que eu falei pra você? Qual? O gato que mora em outra cidade e tem o cabelo lisinho? Hã? Peguei menina, e que loucuuuura! Daí ela ri, escandalosamente, olha-se no espelho e alisa a cintura marcada por um corpete que, só eu sei, usa debaixo da blusa para parecer mais magra. Ela dá uma voltinha, repete para si mesma que não é de se jogar fora, e continua contando a história bizarra da noite de sempre com o seu amor de agora que amanhã não vai mais existir. A Ana, que trocou de cabelo uma cinco vezes desde que cheguei aqui e se apaixona por alguém diferente a cada dois dias, grita pra Deus e o mundo, a cada parada no banheiro feminino, que quer um namorado. Ele não precisa ser lindo de morrer, mas tem que ser gostosinho; não precisa morar perto porque se ver todo dia enjoa. Ai gente, reza por mim que eu preciso de um namoraaaado!
          
           Fico pensando na Ana, enquanto deveria estar fazendo um relatório aqui no meu trabalho, e tenho um pouco de pena dela. Tenho pena porque mesmo grande não se basta, precisa mais dos outros do que de si mesma. A Ana grita porque não se escuta. E muda porque não sabe quem é. Faz um escândalo danado quando conhece alguém novo, pois, pra ela, todo dia o príncipe chega e todo homem tem cavalo branco. Ela não tem idéia de que a cada trinta pessoas que sabem da sua noite maravilhosa, vinte rezam para que não aconteça outra vez. Cinco não se importam, Ana. E as outras cinco, eu nem sei. Quando Cazuza cantou que adorava amores inventados, querida, ele não queria você. Eu sinto muito em dizer, mas ele não queria você.
          
           Sabe, Ana, a gente precisa aprender a se gostar sem precisar de espelhos, sem opinião alheia, sem beijo na boca dado por um príncipe qualquer do dia a dia, a cada dia, sem mudar o cabelo ou ir quinhentas mil vezes ao banheiro, procurando uma amiga que às vezes nem merece ser chamada de amiga, porque não se consegue ser sozinha. Sabe Ana, é preciso se bastar, às vezes, e não precisar de mais ninguém além de você. Ser intenso sem exagero. Eu sei que é preciso. Cazuza, o próprio, lá do céu ou de onde quer que esteja, sabe.

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