sábado, 19 de maio de 2012

Cubo Mágico


   Independentemente de onde eu esteja, na balada ou na padaria, em uma festa infantil ou no trabalho, ouço, quase que diariamente, homens dizendo que mulher é bicho de outro mundo. Não existe nada mais complexo, protestam eles. E cantam complicada e perfeitinha para tentar, de algum modo, minimizar o impacto da frase anterior. Outro dia cheguei a ouvir, de um colega meio machista e metido a engraçado, que é mais fácil montar um cubo mágico que entender uma garota. Os machões a sua volta gargalharam sem parar, claro. Eu dei um risinho meio histérico e, para não parecer chata, depois de um tempo já ficando meio corada, decidi sair daquele meio. Refleti um pouco sobre a piadinha ouvida há minutos e acabei me lembrando de você. Os meus pensamentos, involuntariamente, sempre são transportados para as partes que um dia determinei proibidas. Ele é livre, eu não posso fazer nada além de determinar por determinar. No fundo, sei que esse meu decreto será demolido como um muro velho de tijolos de barro.

           Talvez, nós, do sexo feminino, sejamos mesmo muito complicadas, mas com você aqui, no meu pensamento desobediente, e aqueles piadistas idiotas lá do meu trabalho, os sarados da balada, ou os pais de família das padarias e festas infantis, percebi que os homens podem ser muito mais. Trilhões de vezes mais. Anda, diz aí uma palavra que é quase sinônimo de complicado, mas tem também, em suas letras, um toque de exagero. Sim, vocês, machos alfas, são essa palavra que eu não tive tempo de procurar e, por isso, nem sei se existe. Só sei que são. Complicadíssimos. Quase tão complexos quanto a química orgânica ou a teoria das estruturas, que o meu tio anda aprendendo no curso superior de engenharia civil. Tanto quanto estas matérias. Talvez, sejam mais. Quem é que sabe, afinal? Quando se trata do sexo masculino a gente nunca tem certeza.

           Há algum tempo atrás eu estava tão e completamente apaixonada por você quanto você por mim. O sentimento que carregávamos era recíproco, encantador. Éramos perfeitos um para outro, tínhamos tudo para dar certo. Eu acreditei que tínhamos, pelo menos, até aquele rabo de saia de cabelo louro e comprido passar e, como num toque de mágicas, destruir tudo. Fico pensando onde é que se enfiou a minha complicação naquela hora, porque, sinceramente, eu não a encontrava. Já a sua, estava lá, estampada na testa pra Deus e o mundo ver, como um letreiro de Hollywood ou Las Vegas. Era simples o meu querer naquele momento, não havia complicação nenhuma. Eu te queria e só. Porém a sua complexidade pedia mais, desejava o rabo de saia que, por sinal, era muito curta e rebolava lá adiante. Complicou a nossa história, se embaralhou na hora de me deixar, foi embora não querendo ir, ficou sem querer ficar. Mudou, completamente. Transformou-se em um alguém que não me merecia. Não falava, não sorria, não sentia. Senti saudade com você do lado, e saudade de alguém que está por perto dói mais do que qualquer despedida. Fiquei cansada. Enchi-me de coragem e terminei com tudo, porque você não o fazia. Prefiro o não ter mais ao qualquer coisa, e sempre deixei isso bem claro. Claro, clareza, simplicidade. Antônimo de complicação. Nos dicionários da vida uma palavra acaba que ligada a outra. E elas são minhas. Eu as usei. Você, ao invés disso, foi botar na balança, fazer a contabilidade, tentar explicar o inexplicável, conter os desejos, mentir. Foi colocar x em conta de dois mais dois, transformar soma em equação de segundo grau. Bagunça. É exatamente isso que você, homens, fazem: bagunça. Depois da bagunça, vocês, quase sempre, se arrependem. Vem de vassoura na mão e rabinho entre as penas. O seu broto, eu soube, mais tarde, por terceiros, quis deixar sementes na cama do vizinho. Não a culpo, ela quer e corre atrás. Qualquer coisa é melhor que complicar.

           Você me transformou naquele dia, e quero que saiba. Não entendo mais nada, desde então. Nenhuma indireta, ainda que reta, é pra mim. Graças a você, me tornei bem pior que cubo mágico e pra juntar as minhas partes muitas cabeças serão quebradas. Por sua causa, eu, agora, preciso de um amor que se arrisque e me convença, que me pegue pelo braço e me chacoalhe no alto de uma montanha dizendo que vale a pena voltar a ser simples.

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