quinta-feira, 10 de janeiro de 2013

Sopa de Letrinhas




          Eu estou há horas na cozinha minúscula da minha casa tentando escolher entre preparar um macarrão sem molho, fazer um sanduíche no grill ou dormir com fome. Sou mulher, tenho certeza; mas diferente das gerações passadas sou, também, um desastre na cozinha. Demoro séculos para fazer qualquer prato que não seja aquela massa instantânea e com gosto de isopor (sim, eu já comi um isopor, quando estava no ensino fundamental, por curiosidade). Faço uma bagunça imensurável na gaveta de talheres; sujo todos os garfos e facas possíveis, nunca me restam colheres limpas dentro do armário.

         Depois de muito pensar, decido pelo macarrão sem molho. Dormir com fome apenas porque não sou um Alex Atala da vida não faz parte dos meus planos.  Quanto ao sanduíche: deixo para o café da manhã. Pego uma panela e encho-a de água; risco o fósforo, acendo o fogo e a coloco em cima da chama. Não lembro se a massa entra na água antes ou depois de sua ebulição. Coloco antes. E seja o que Deus quiser.

         “Um fio de azeite e uma pitada de sal”, são as únicas palavras que me vem à cabeça quando penso em minha avó e no jantar que estou tentando preparar. Nunca sei quanto, exatamente, é um fio e uma pitada. Como adoro azeite não regulo quantidades, com o sal tenho um pouco mais de calma (se faltar eu vou colocando mais, aos poucos; porém se sobrar não há outra solução que não o lixo). Minha avó é uma cozinheira de mão cheia e fã de pimenta vermelha ensinou à minha mãe a paixão imensurável por condimentos. Eu não me aventuro além dos itens que citei acima, porque sei os estragos que posso causar. Fios de azeite e pitadas de sal são o suficiente pra mim.

        A água atinge os graus Celsius necessários para que comece a borbulhar. Experimento o macarrão de cinco em cinco segundos, mas percebo que ainda existem parafusos duros demais em meio aos ideais (“al dente”, como dizem as mulheres aqui de casa). Desligo o fogo e decido deixá-los cozinhando mais um pouco, apenas no calor da água, enquanto faço rolinhos com a mussarela fatiada e a passo no ralador quadrado, de metal, que mais parece uma arma na minha mão. Minha avó sempre diz que rapariga que não sabe cozinhar não segura marido nenhum. Tenho amigas, de vinte anos ou menos até, que concordam plenamente com ela. Confesso que casar nunca foi o meu maior sonho, mas perder um grande amor por ser um desastre gastronômico também não me causa grande alegria. Vou deixar claro, sempre, pra qualquer garoto que conhecer (mesmo sendo apenas amigo) quão atrapalhada sou cozinhando. Talvez, se desde o começo souber, não se importe tanto assim com minha falta de prática diante de panelas depois. “Posso me esforçar para preparar alguma coisa, algum dia, se você achar sexy. Nós podemos cozinhar juntos, quem sabe. É só me pedir!”.

         Quando me dou conta, estou conversando com o queijo e já se passaram minutos demais que a massa repousa naquela hidromassagem em miniatura. O macarrão está boiando e virou uma pasta só. Escorro a água, mas os parafusos não se soltam - se haviam trinta deles nessa panela, se juntaram e se transformaram em uma panqueca. Respiro fundo e coloco a gororoba no prato. Mais um fio de azeite e o “queijo conversador” tapando a feiúra do meu jantar. O gosto não é de todo o ruim, mas se realmente comemos primeiro com os olhos precisarei de uma venda para meu futuro marido.

        Como somente uma pequena parcela do que cozinhei e, ao contrário do que estão pensando, não é porque ficou horrível. Apenas perdi a fome em meio a toda essa confusão de não saber cozinhar. Coloco mais louça na pia e resolvo deixar a montanha pra lavar no dia seguinte.

       Sento-me no chão e começo a redigir um novo texto. O jantar de hoje, assim como o de todos os outros dias, será mais produtivo em palavras e eu espero, apenas, que você, quando chegar, não se importe que estas palavras não sejam, nem de longe, aquela desordem da sopa de letrinhas.

Um comentário:

  1. Quando o macarrão grudar passar ele na agua da torneira que ele solta. haha
    Essa historia de segurar marido pelo estomago é relativo. Eu cozinho bem e seguraria um homem fácil se não fosse minha confusão mental e nao culinaria.

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