Eu estou há horas na cozinha minúscula
da minha casa tentando escolher entre preparar um macarrão sem molho, fazer um
sanduíche no grill ou dormir com fome. Sou mulher, tenho certeza; mas diferente
das gerações passadas sou, também, um desastre na cozinha. Demoro séculos para
fazer qualquer prato que não seja aquela massa instantânea e com gosto de
isopor (sim, eu já comi um isopor, quando estava no ensino fundamental, por
curiosidade). Faço uma bagunça imensurável na gaveta de talheres; sujo todos os
garfos e facas possíveis, nunca me restam colheres limpas dentro do armário.
Depois de muito pensar, decido
pelo macarrão sem molho. Dormir com fome apenas porque não sou um Alex Atala da
vida não faz parte dos meus planos.
Quanto ao sanduíche: deixo para o café da manhã. Pego uma panela e
encho-a de água; risco o fósforo, acendo o fogo e a coloco em cima da chama.
Não lembro se a massa entra na água antes ou depois de sua ebulição. Coloco
antes. E seja o que Deus quiser.
“Um fio de azeite e uma pitada de
sal”, são as únicas palavras que me vem à cabeça quando penso em minha avó e no
jantar que estou tentando preparar. Nunca sei quanto, exatamente, é um fio e
uma pitada. Como adoro azeite não regulo quantidades, com o sal tenho um pouco
mais de calma (se faltar eu vou colocando mais, aos poucos; porém se sobrar não
há outra solução que não o lixo). Minha avó é uma cozinheira de mão cheia e fã de
pimenta vermelha ensinou à minha mãe a paixão imensurável por condimentos. Eu
não me aventuro além dos itens que citei acima, porque sei os estragos que
posso causar. Fios de azeite e pitadas de sal são o suficiente pra mim.
A água atinge os graus Celsius
necessários para que comece a borbulhar. Experimento o macarrão de cinco em
cinco segundos, mas percebo que ainda existem parafusos duros demais em meio
aos ideais (“al dente”, como dizem as mulheres aqui de casa). Desligo o fogo e
decido deixá-los cozinhando mais um pouco, apenas no calor da água, enquanto
faço rolinhos com a mussarela fatiada e a passo no ralador quadrado, de metal,
que mais parece uma arma na minha mão. Minha avó sempre diz que rapariga que
não sabe cozinhar não segura marido nenhum. Tenho amigas, de vinte anos ou
menos até, que concordam plenamente com ela. Confesso que casar nunca foi o meu
maior sonho, mas perder um grande amor por ser um desastre gastronômico também
não me causa grande alegria. Vou deixar claro, sempre, pra qualquer garoto que
conhecer (mesmo sendo apenas amigo) quão atrapalhada sou cozinhando. Talvez, se
desde o começo souber, não se importe tanto assim com minha falta de prática
diante de panelas depois. “Posso me esforçar para preparar alguma coisa, algum
dia, se você achar sexy. Nós podemos cozinhar juntos, quem sabe. É só me
pedir!”.
Quando me dou conta, estou
conversando com o queijo e já se passaram minutos demais que a massa repousa
naquela hidromassagem em miniatura. O macarrão está boiando e virou uma pasta
só. Escorro a água, mas os parafusos não se soltam - se haviam trinta deles
nessa panela, se juntaram e se transformaram em uma panqueca. Respiro fundo e
coloco a gororoba no prato. Mais um fio de azeite e o “queijo conversador”
tapando a feiúra do meu jantar. O gosto não é de todo o ruim, mas se realmente
comemos primeiro com os olhos precisarei de uma venda para meu futuro marido.
Como somente uma pequena parcela
do que cozinhei e, ao contrário do que estão pensando, não é porque ficou horrível.
Apenas perdi a fome em meio a toda essa confusão de não saber cozinhar. Coloco
mais louça na pia e resolvo deixar a montanha pra lavar no dia seguinte.
Sento-me no chão e começo a redigir um novo
texto. O jantar de hoje, assim como o de todos os outros dias, será mais
produtivo em palavras e eu espero, apenas, que você, quando chegar, não se
importe que estas palavras não sejam, nem de longe, aquela desordem da sopa de
letrinhas.

Quando o macarrão grudar passar ele na agua da torneira que ele solta. haha
ResponderExcluirEssa historia de segurar marido pelo estomago é relativo. Eu cozinho bem e seguraria um homem fácil se não fosse minha confusão mental e nao culinaria.