Eu nunca espero um dia muito tranqüilo quando sei que preciso sair de casa e enfrentar o mundo quase selvagem lá de fora, mas também não desejo que ele seja tão atordoado a ponto de me perder numa cidade cuja qual eu ainda desconheço os caminhos.
Hoje é quinta-feira, minhas aulas começaram na quarta e, por quase ter chego atrasada bem no primeiro dia da graduação e ainda passar dez minutos perdida na sala do segundo ano, resolvo sair de casa mais cedo. As avenidas parecem calmas quando aceno para o motorista. Entro no ônibus, sorrio e estendo a mão com o valor exato da passagem para ele. O senhor não me olha e aponta para trás; viro-me e, pela primeira vez, encontro um cobrador sentado em seu lugar. “Nunca tem, né?”, digo, envergonhada por quase ter pago dois reais ao profissional errado. Exceto por hoje, nunca tem mesmo um cobrador dentro dos ônibus dessa cidade.
O trânsito entre às dezoito e dezenove horas é caótico e minha impressão de que as avenidas estavam calmas foi completamente errônea. Eu nunca vi tantos semáforos e tanto calor em um único lugar. Aqui é demasiadamente quente. A chuva, o sol, o frio não é o mesmo do meu antigo lar. Nenhum frio se aproxima àquele frio, muito menos esse – que eu nem sei se merece ser chamado assim. Aqui quase nunca faz quase frio. Quase frio: é essa a sensação que temos quando as temperaturas baixam nesse município.
Uma gota de suor atravessa o lado direito do meu rosto. Começo a ficar impaciente. O ônibus onde estou têm exatos seis minutos para chegar ao terminal sem que eu perca a carona do outro que me levará até a faculdade. Não sou boa com números, mas diante das situações, acredito que faltam cerca de cinco quadras para isso acontecer – e uns dois semáforos, contando com o fato de que um deles estará fechado, claro. Enxugo a gota de suor e fecho um pouco os olhos. O meu relógio digital se adianta mais que o transporte público; encosto-me a uma das enormes janelas e penso na possibilidade de me atrasar apenas quinze minutos e não ficar com falta. Esfrego os olhos e suspiro desanimada, sem crer nas possibilidades que eu mesma tento criar.
Pouco antes de chegar ao primeiro destino vejo o próximo indo embora sem mim. Desço atônita a escada do ônibus e procuro o guichê de informações. Mostro um pequeno mapa que se encontra dentro de minha bolsa para um dos atendentes e ele me entrega o nome de outro carro. “Ele vai parar a umas quatro quadras de distância, mas é só descer a rua depois”. Saio correndo. Descer? Tudo bem, eu desço.
Entro no automóvel, que já está ligado para partir, e me sento ao lado de um garoto razoavelmente bonito. Ele olha pra mim e acena; eu sorrio involuntariamente. Estico um pouco o pescoço e pergunto ao motorista se ele pode me avisar quando estivermos perto da faculdade. “Isso é perto de quê?”, interroga-me ele. Sorrio nervosa e lanço-lhe um olhar de “se você que é motorista não sabe, imagine eu”, mas ele não compreende e repete a pergunta. Uma senhora que se encontra atrás de mim, de pé, entende o meu desespero e se oferece para me avisar assim que estivermos próximos. Suspiro, agradecida.
A quantidade de semáforos pelo caminho ainda é exorbitante e tento entender porquê o sinal verde demora tanto para acender. Talvez seja algum tipo de conspiração do universo ao atraso, penso. Mexo uma das pernas, irritada. Estalo os dedos, solto e prendo o cabelo. Esfrego os olhos e estico um poucos os braços. Olho o relógio para enganar o tempo. Fracasso, ao invés de parar envergonhado, ele corre. Sinto a senhora bater o dedo indicador em meu ombro. “É aqui!”, diz ela, sorrindo. Levanto-me, aperto o botão para sinalizar a parada solicitada e balanço a cabeça, agradecendo. Viro-me para a porta de saída já entreaberta, dou dois passos em direção a ele e vejo um vulto aos meus pés. Um homem cai, desmaiado em cima de uma das minhas sapatilhas azuis. Olho-o assustada, depois viro o rosto para o restante dos passageiros. “Abana o cara!”, alguém grita. Procuro uma folha dentro da bolsa, mas não encontro. Abano o senhor com o mapa que, de certa forma, me trouxe até aqui. Alguém puxa o desmaiado pelas axilas e o senta onde eu estava. Uma garota, mais ou menos da minha idade, lembra que preciso descer. Ela abana o senhor com um caderninho rosa. Aceno positivamente, com prováveis olhos arregalados, e saio. Ainda espantada, passo a mão na testa, enxugando o frio suor, e olho em volta para me certificar de que nenhuma parte minha possa ter sido esquecida no trajeto. Desço a rua, como informada, tentando assimilar tudo o que essa breve mudança tem significado na minha vida. Meu deus, que dia! Que dia!
Abro o guarda-chuva para me proteger das gotas que agora começam a cair do céu. De longe avisto o portão da universidade aonde eu sempre quis estar. Rio, sozinha, quase saltitando. Caminho a curtos passos, apreciando um atraso inevitável e, depois de muito tempo em silêncio, eu volto, então, a conversar comigo mesma. “Mas não tenho”, sussurro pra mim.
Hoje teria sido um dia horrível se eu tivesse alguma dúvida, olhando essas desconhecidas ruas, de que fiz a escolha certa ao cair na estrada e mudar os meus antigos caminhos por causa de um sonho. Mas não tenho. Não tenho mesmo.

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