Decidi dormir no tapete da sala, hoje. O garoto que divide o apartamento comigo acha que sou meio maluco, mas não me culpo; deixei-o ciente de minhas condições mentais duvidosas quando o encontrei na faculdade, procurando alguém para ajudá-lo com o aluguel. Naquela hora ele riu – talvez por pensar que eu estivesse sendo meio piadista -, porém, hoje em dia, creio eu, se arrepende um pouco por não ter acreditado em minhas palavras.
O apartamento é pequeno, tão a ponto de me fazer pensar que se a boneca Barbie tem mesmo uma casa ela é bem maior que a minha. Sala e cozinha são divididas por um balcão e uma estante de vidro, aonde guardamos copos de cervejas com frases babacas. Eu e o meu colega nos falamos bem pouco, apenas sobre as aulas difíceis dos cursos distintos, motos, carros e, de vez em quando, sobre as mulheres mais gostosas da televisão. Quase nunca tocamos no nome de nossos pais, ou avós ou qualquer outro ente querido a não ser que ele esteja à beira da morte e precisemos viajar. Esse é o único combinado: avise se não for voltar.
Eu nunca contei a ele sobre você, sobre como gosto das covinhas no seu rosto quando sorri, ou do brilho dos seus olhos gigantes, ou das suas unhas pintadas de vermelho combinando com o batom. Ele nunca me disse se é apaixonado por alguma garota, também. Desde que duvidou de mim, assim que nos conhecemos, e se arrependeu por ter duvidado, o cara com quem divido meu “lar doce lar” não questiona muito a minha vida. Se disser que vou dormir no banheiro ele acena positivamente, fazendo um bico estranho que decifro como “você quem sabe”, e vai para o quarto. Acata a todas as minhas decisões da mesma forma e acredito que esse seja o principal motivo pelo qual continuo aqui. Gosto do silêncio presente entre nós.
Não contei a ele, por exemplo, sobre o porquê dessa mudança repentina de cama quentinha para tapete. Não contei porque as explicações envolveriam você e não sei se estou pronto para confessar às pessoas que, pela primeira vez na vida, gosto mesmo de alguém. Não quero justificar que, ao invés de conversar como um adulto quando chateado com algo que você me disse ou deixou de dizer, eu me calo e a trato como um tapete velho e nem um pouco mágico, como este em que estou deitado. Sei que o seu pai quase nunca te visita, mas você poderia ter me avisado que iria passar um tempo com ele, antes de me deixar plantado na esquina daquele restaurante italiano. Você podia ter ligado, mandado uma mensagem, um sinal de fumaça, qualquer merda antes de eu tomar banho, fazer a barba e quebrar o meu cofre só por sua causa. Mas não posso dizer tudo isso a você; não posso confessar que, logo eu que nunca precisei de ninguém, tenho tido essa necessidade exorbitante de explicações antecipadas suas. Então te trato mal, pra ver se em algum momento você decifra o motivo desse meu jeito e acabe com as guerras dentro de mim apenas com um afago.
Eu deito no tapete porque não consegui dizer a você que queria, sim, dormir na sua casa hoje, mas não vou, pois te quero ver sentindo minha falta. Adormeço no chão felpudo e nada confortável da sala porque quero que entenda, mesmo sem saber de toda essa loucura, que eu me odeio por gostar de você e não conseguir pedir um pedido de desculpas. Durmo no tapete porque só ele merece o meu corpo enfermo de quem não aceita gostar mais de alguém a de si mesmo.

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