Às vezes me sinto como Álvares Cabral, pisando em terra nova e a vista de tempos em tempos. Minha caravela é extremamente segura, mas as mudanças tão turbulentas quanto o mar em dias de chuva. Dentro de mim o mundo afunda cada vez que encaixoto roupas, livros e lembranças e parto rumo ao desconhecido. Afundam em mim amores, amigos e a coragem de, quando estável outra vez, tentar, sempre em vão, substituir o que me foi tirado pela estrada. Pergunto-me se, assim como eu, depois de alguns anos, Cabral também chorou porque se cansara de não ter uma casa de bases sólidas. Pergunto a mim se o descobridor de nosso tão verde país, ao voltar para Portugal, sentiu a ausência de ter cada vez menos pessoas a sua espera. Imagino se ele, também como eu, percebeu que a mudança só traz felicidade quando escolha; arranca de nós um pouco de vida se necessidade, obrigação. É como tirar de uma criança sem forças pra birra, conformada com oscilações de caminho, o que doce que guardara para mais tarde.
Nas paredes brancas que ouviram os meus sussurros existem, agora, apenas alguns pregos enferrujados aonde pendurei, por pouco mais de dois anos - desde a última mudança -, o quadro de meu ator preferido e algumas fotos de quem não pode me acompanhar. No chão ficaram as marcas de móveis arrastados e algumas caixas que ainda não tiveram tempo de serem transportadas ao novo lar. A hora do relógio é indiferente ao comum e pouco marcada: de despedida. Os minutos não somam, subtraem. Faltam sete horas para acabar. Faltam seis horas para este não ser mais o meu lugar. Faltam cinco para chegarmos a um novo espaço. Falta em mim tudo o que passei aqui. Ali. Já nem sei mais.
Nas prateleiras antes cheias de bonecos de gesso em formas de anjos, bailarinas e fadas, resta um pouco de pó. O mesmo pó presente na gaveta de talheres pesados, de prata, que usávamos apenas quando as visitas mais ilustres enfeitavam a casa. As lágrimas são as únicas peças que você nunca aprende a guardar; elas rolam soltas no rosto meu, de minha mãe, de minha avó. Lágrimas de gerações, quase ancestrais, sempre as mesmas diante ao adeus. Dentro do carro em movimento a gente se vê deixar aquilo que por tanto tempo nos guardou. E prefere não olhar. Encarar o presente se transformando em passado pode fazer o futuro não parecer muito bom.
Na chave das portas desconhecidas tem, também, um novo chaveiro. Um elefante. O bicho de memória inapagável. Tem lembranças por trás daqueles muros que, mesmo querendo, a gente sabe, nunca vai esquecer. O solo agora tem terras mais amplas, paredes mais brancas e o silêncio da televisão ainda não instalada; do medo de não dar certo; da gente achando que jamais conseguirá por tudo dentro do novo armário. Não tem jardim, não tem espelho, não tem reflexo e fica difícil saber, assim, quem é que vamos ser de agora em diante. Se o mundo é novo, porquê não sermos?
Talvez porque mudar cansa e nestas mudanças perde-se demais pra permitir se perder. É impossível ser diferente. Nós, não os sonhos. Os sonhos mudam, sim, de certa forma. O querer. No novo lar a gente quer que o tempo voe e as roupas amarrotadas caibam em espaços bem distantes do papelão em cubo e das sacolas gigantescas. Desejamos não enfrentar tão cedo (ou nunca mais) o sofrimento quase masoquista que é dizer “tchau”; e que as águas frias e caudalosas de mais cedo se acalmem com a noite e rejam o barco com bons ventos.
Mudar é das viagens mais complicadas que se pode enfrentar e resta, então, em mim, em nós, além do desgaste de colocar o mundo nas costas e querer carregar, a esperança de que vai ser pra melhor e a certeza de que só os mais corajosos conseguem ir e vir se mantendo inteiros ao juntar, aos poucos, os pedaços deixados nesses oceanos de asfalto que nos separam de vocês.

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