sábado, 25 de maio de 2013

Promessas


Luana acordou assustada com o grito ininterrupto do telefone. Não era o habitual despertador forçando o corpo a se levantar para que ela pudesse se vender ao sistema, era diferente, o toque de alguém que a esperava, impaciente, do outro lado da linha. O celular da moça começara a dar os primeiros sinais de seu fim de vida e fazia isso não despertando no horário programado, às seis da manhã. No telefone fixo, o supervisor de seu estágio deseja saber onde foi que ela se meteu. A garota pensa em responder que, ultimamente, tem estado em muitos lugares ao mesmo tempo, mas “meter”, seja lá o que for e aonde for, não tem sido um ato muito sucessível em seus dias.
          - Perdi a hora, me desculpe. Chego em trinta minutos – diz Luana, já tirando a camiseta velha e larga, com uma lata de cerveja estampada na parte de trás.

Olha as horas na tela do computador, esquecido ligado desde ontem, depois de passar horas e horas fitando as fotos de Pedro. Apesar da camisa com propaganda barata que ele deixou esquecida em sua gaveta; do perfume masculino importado impregnado em alguns de seus lençóis; da caneca de chá, agora sem par; e de todas as outras lembranças que aparecem a cada arrumação desembestada, não sente saudades do rapaz. Não muita. Sente falta da companhia do moço, talvez. De qualquer companhia que traga uma caneca e deixe ali ao lado da sua, cor de rosa, com um coração vermelho e gordinho pintado no fundo, e uma lasca quase imperceptível na alça de cerâmica. Pedro já faz tanto tempo! Luana sente falta de alguém que lhe beije os olhos. E a boca. E bagunce a cama em sua companhia. E não vá embora antes do fim.

Pega a bolsa, as chaves de casa, do armário da escola e do coração, desliga o computador e sai às pressas. Encarando agora o relógio em seu pulso, constata que tem exatamente dezoito minutos para chegar ao seu destino. Pedro tinha dezoito anos quando apareceu a sua casa querendo ficar, trazendo caneca, camisa e o cheiro de menino que ainda vive com o dinheiro dos pais. Luana tinha vinte, mas era muito mais velha que isso; morava sozinha desde os dezessete; raramente pedia dinheiro à mãe, e se pedia devolvia depois, era só um empréstimo, um socorro, uma divida segura. Aprendeu a andar sozinha e andara desde então.

À passos largos caminha até o ônibus, entra no automóvel, se senta num banco grudado à janela e logo em seguida se ajeita ao seu lado um moço de pele lisinha e cabelos cacheados. A moça fita as mãos do garoto, muito bonitas e jovens. Ele sorri ao perceber seus olhares. Luana retribui e o rapaz, então, se apresenta. Embalam uma conversa descompromissada, sobre o clima ameno dos últimos dias e como isso poderia durar para sempre. Ele anota o número de seu celular no papel amarelo do bloco de notas em sua mochila e o entrega à garota. Ela sorri e pensa um pouco em como Pedro pediu seu número, na mesa de um bar, descarado, meio bêbado. E ligou, como havia prometido, no dia seguinte. Pedro cumpria todas as suas promessas e por isso nunca prometia ficar.

Luana se levanta, puxa o sinalizador do ônibus para solicitar a parada e, antes de descer, pede ao garoto que compre uma caneca. Ele franze o cenho, mas, depois de ver os olhos da moça brilhando em verdade, concorda. Ela acena, se despedindo, e promete ligar. Luana também cumpre suas promessas. Todas elas. E prometeu ao Pedro que não o deixaria nunca; iria guardá-lo para sempre, ainda que fosse dentro de uma caneca, na lembrança quente do chá que esfriou.         

terça-feira, 14 de maio de 2013

Instantes


          Passa um pouco do meio dia e, aos domingos, este é o horário mais movimentado do restaurante especializado em frutos do mar. O estabelecimento fica há treze quilômetros da cidade grande, num rancho cercado por quatro lagos em que se é permitido pescar em nome da diversão e um bosque repleto de seringueiras onde os visitantes deixam seus automóveis à sombra das árvores. No teto alto, ventiladores misturam as brisas de suas elicies às dos ventos matutinos da mãe natureza. Crianças correm em volta das mesas postas para o almoço, servido até as dezesseis e, vez ou outra, um funcionário é obrigado a desviar com cautela a bandeja bem equilibrada em uma de suas mãos dos pequenos corpos agitadíssimos e desatentos. A música ambiente vai de jazz à bossa nova e não é sempre que se consegue distinguir essa daquela, devido ao barulho dos falantes presentes.

          A porta principal se abre. Uma garota de aparentes vinte anos e longos cabelos castanhos claros, acompanhada de um casal mais velho e um garotinho, adentra o local sorrindo; arruma a alça dobrada do vestido claro e solto do corpo; dá alguns passos em direção a provável única mesa vazia do local; estica o pescoço a procura de outra mais afastada da entrada; coloca a bolsa vermelha na cadeira a sua frente e pede para que todos aguardem sentados. Ziguezagueando entre lugares ocupados, em busca de algum que não esteja e a deixe mais perto do lago, atrai a atenção do garçom jovem e de cabeça raspada que há pouco serviu conhaque para um senhor de cabelos brancos. Galante e lisonjeiro, ele a olha passar, mas a moça, distraída, não retribui e vai ao encontro dos parentes que a esperam.

          O homem a segue e assim que a vê se acomodar à mesa, se aproxima saudosamente oferecendo o cardápio às mãos pequenas da garota. Ele, que não nasceu em nossas terras, é rapidamente descoberto pelo sotaque latino-americano como um estrangeiro. Ela, encantada com a língua que os difere, finalmente o fita de olhos receptivos. Agora juntos, os olhos do moço, claros, quase verdes, reluzem o brilho dos da menina. Ela tem um rosto bonito, angelical, quase porcelana; ele se parece com personagens anti-heróis de filmes em preto e branco, que não envelhecem nem deixam de arrancar suspiros femininos. Encaram-se por longos segundos, até serem interrompidos pelos pedidos do senhor à mesa. O garçom anota tudo calmamente e, sempre que possível, com a caneta ainda apoiada no bloco de papeis azuis em sua mão, volta a olhar para a moça. Ela retribui os olhares sorrindo e só se distrai do rapaz ao seu lado para ouvir o que o garotinho em sua mesa cochicha com a mãe. O menino pergunta se pode brincar no escorregador perto dos carros estacionados e, com o consentimento da senhora, se afasta da família ao mesmo tempo em que o garçom, com os pedidos já escritos, se encaminha para a cozinha.

          O almoço, devido ao movimento ininterrupto do restaurante há essa hora, demora cerca de quarenta minutos para ficar pronto e é nesse tempo mesmo curto que a garota de sorriso fácil e o trabalhador estrangeiro se apaixonam sem saber. Fitam-se discretos e riem por dentro quando os olhos se encontram em meio às bandejas pratas, passando de um lado para o outro. Idealizam-se cientes do tempo contado. Amam-se em silêncio, em segundos, em sorrisos; amam o tom da pele, o jeito de andar e mexer as mãos, a fala distinta de quem não nasceu junto, mas pode ficar.

          A tarde começa a cair e o restaurante, agora não tão cheio, é tomado pela brisa da chuva que virá em breve. A família da garota, já sem fome, se prepara para partir. Ela, ainda que queira, não os convence a ficar mais. O rapaz, ainda que anseie, não se aproxima para pedir que ela volte. Encaram-se pela última vez, se eternizando no brilho do olhar. Sabem, no fundo, que bom mesmo é amar assim, em instantes, sem ter tempo pra partir o coração um do outro. Oferecem, agora, o único amor que têm disponível, aquele que acaba antes mesmo de começar; aquele que, por nunca ter acontecido, é incapaz de machucar.

quarta-feira, 8 de maio de 2013

País das Maravilhas


Todo e qualquer tipo de poeira da face da terra tem algum tipo de atração cósmica fatal com os meus olhos fotofóbicos. Claro, as construções (que não são poucas) na minha cidade, neste momento, e a falta de chuva têm contribuído bastante, mas, de qualquer forma, não as culpo. Sempre foi assim, se existe alguma partícula perdida e não identificada por aí ela dará um jeito de encontrar meus claros olhos e se adentrar neles sem convite.
Hoje, enquanto caminhava, o vento soprou e toda a poeira do universo foi parar nos meus olhos, atropelando os óculos de sol e desrespeitando, na maior cara de pau, o seu espaço protetor. Fechei-os às pressas, em vão, e fiquei parada até toda a ardência provocada por aquele vendaval passar. Senti uma brisa leva bagunçar os meus cabelos e tive a impressão, sei lá eu, Deus, porque, de estar voando. Voei até a brisa me soltar e por de volta num lugar que não eram os meus olhos a poeira acumulada ali há tanto tempo. Sonhei acordada, por alguns instantes, como tenho feito desde os quinze anos, antes disso até.
Naquela época os sonhos eram palpáveis, mais materiais, se não me engano. Lembro que aos quatorze comecei a sonhar, assim como as amigas mais próximas, com a festa de debutantes. Contei à minha mãe que vestiria algo azul e rodado. As mesas seriam decoradas de garrafinhas pequenas e em seus rótulos estariam impressas as letras b, e, b, a, hífen, m, e. Nos bolinhos de xícara haveria bilhetes com um “coma-me” meio inclinado, dando a entender que o ato de comer poderia ser perigoso demais. Eu colocaria coelhos brancos pelos campos e o meu pai, vestido de chapeleiro maluco, ainda que não muito feliz com a ideia, recepcionaria os convidados. Minha mãe ouvia tudo em silêncio, distante desse planeta que vivemos e, também, daquele que Alice inventara e eu tanto gosto. Quando estava quase chegando ao fim de toda minha idealização festiva, ela olhou meio cabisbaixa para os meus pés descalços e me disse: “você sonha alto demais, menina”. Entendi o que minha mãe queria dizer, na verdade; nós não teríamos dinheiro para nem metade daquela festa. Mas, de uma forma ou de outra, eu não me importava se ela iria mesmo acontecer. Queria apenas sonhar e planejar e fingir que seria de verdade. Aquela festa poderia não se concretizar quando eu completasse meus tão esperados quinze anos, desde que acontecesse um dia, mais tarde. Preferiria que minha mãe dissesse que não tinha condições nenhuma de me dar toda aquela parafernália, ao invés de protestar que eu era pequena demais para tanta fantasia. Aquelas palavras foram a gota d’água em um balde que nunca precisou de muito mais que isso para transbordar.
Naquele dia, decidi que as pessoas poderiam palpitar sobre o comprimento da minha inseparável franja, a cor das minhas unhas, a quantidade de maquilagem nas pálpebras e muitas outras bobeiras, mas nunca, jamais receberiam o aval para opinar sobre o tamanho dos meus sonhos. As minhas idealizações não seriam mensuráveis, os meus pés não ficariam no chão quando o assunto em questão fosse fantasiar.
Eu vou sonhar, voando, porque não tenho medo nenhum de cair. Tenho medo é de viver para sempre conformada com o que vocês delimitaram permitido pra mim. O céu é o limite, meus queridos. O céu e o País das Maravilhas. E eu vou até lá, se preciso for, pra continuar sonhando.