Luana acordou assustada com o grito ininterrupto do telefone. Não era o habitual despertador forçando o corpo a se levantar para que ela pudesse se vender ao sistema, era diferente, o toque de alguém que a esperava, impaciente, do outro lado da linha. O celular da moça começara a dar os primeiros sinais de seu fim de vida e fazia isso não despertando no horário programado, às seis da manhã. No telefone fixo, o supervisor de seu estágio deseja saber onde foi que ela se meteu. A garota pensa em responder que, ultimamente, tem estado em muitos lugares ao mesmo tempo, mas “meter”, seja lá o que for e aonde for, não tem sido um ato muito sucessível em seus dias.
- Perdi a hora, me desculpe. Chego em trinta minutos – diz Luana, já tirando a camiseta velha e larga, com uma lata de cerveja estampada na parte de trás.
Olha as horas na tela do computador, esquecido ligado desde ontem, depois de passar horas e horas fitando as fotos de Pedro. Apesar da camisa com propaganda barata que ele deixou esquecida em sua gaveta; do perfume masculino importado impregnado em alguns de seus lençóis; da caneca de chá, agora sem par; e de todas as outras lembranças que aparecem a cada arrumação desembestada, não sente saudades do rapaz. Não muita. Sente falta da companhia do moço, talvez. De qualquer companhia que traga uma caneca e deixe ali ao lado da sua, cor de rosa, com um coração vermelho e gordinho pintado no fundo, e uma lasca quase imperceptível na alça de cerâmica. Pedro já faz tanto tempo! Luana sente falta de alguém que lhe beije os olhos. E a boca. E bagunce a cama em sua companhia. E não vá embora antes do fim.
Pega a bolsa, as chaves de casa, do armário da escola e do coração, desliga o computador e sai às pressas. Encarando agora o relógio em seu pulso, constata que tem exatamente dezoito minutos para chegar ao seu destino. Pedro tinha dezoito anos quando apareceu a sua casa querendo ficar, trazendo caneca, camisa e o cheiro de menino que ainda vive com o dinheiro dos pais. Luana tinha vinte, mas era muito mais velha que isso; morava sozinha desde os dezessete; raramente pedia dinheiro à mãe, e se pedia devolvia depois, era só um empréstimo, um socorro, uma divida segura. Aprendeu a andar sozinha e andara desde então.
À passos largos caminha até o ônibus, entra no automóvel, se senta num banco grudado à janela e logo em seguida se ajeita ao seu lado um moço de pele lisinha e cabelos cacheados. A moça fita as mãos do garoto, muito bonitas e jovens. Ele sorri ao perceber seus olhares. Luana retribui e o rapaz, então, se apresenta. Embalam uma conversa descompromissada, sobre o clima ameno dos últimos dias e como isso poderia durar para sempre. Ele anota o número de seu celular no papel amarelo do bloco de notas em sua mochila e o entrega à garota. Ela sorri e pensa um pouco em como Pedro pediu seu número, na mesa de um bar, descarado, meio bêbado. E ligou, como havia prometido, no dia seguinte. Pedro cumpria todas as suas promessas e por isso nunca prometia ficar.
Luana se levanta, puxa o sinalizador do ônibus para solicitar a parada e, antes de descer, pede ao garoto que compre uma caneca. Ele franze o cenho, mas, depois de ver os olhos da moça brilhando em verdade, concorda. Ela acena, se despedindo, e promete ligar. Luana também cumpre suas promessas. Todas elas. E prometeu ao Pedro que não o deixaria nunca; iria guardá-lo para sempre, ainda que fosse dentro de uma caneca, na lembrança quente do chá que esfriou.

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