Todo e qualquer tipo de poeira da face da terra tem algum tipo de atração cósmica fatal com os meus olhos fotofóbicos. Claro, as construções (que não são poucas) na minha cidade, neste momento, e a falta de chuva têm contribuído bastante, mas, de qualquer forma, não as culpo. Sempre foi assim, se existe alguma partícula perdida e não identificada por aí ela dará um jeito de encontrar meus claros olhos e se adentrar neles sem convite.
Hoje, enquanto caminhava, o vento soprou e toda a poeira do universo foi parar nos meus olhos, atropelando os óculos de sol e desrespeitando, na maior cara de pau, o seu espaço protetor. Fechei-os às pressas, em vão, e fiquei parada até toda a ardência provocada por aquele vendaval passar. Senti uma brisa leva bagunçar os meus cabelos e tive a impressão, sei lá eu, Deus, porque, de estar voando. Voei até a brisa me soltar e por de volta num lugar que não eram os meus olhos a poeira acumulada ali há tanto tempo. Sonhei acordada, por alguns instantes, como tenho feito desde os quinze anos, antes disso até.
Naquela época os sonhos eram palpáveis, mais materiais, se não me engano. Lembro que aos quatorze comecei a sonhar, assim como as amigas mais próximas, com a festa de debutantes. Contei à minha mãe que vestiria algo azul e rodado. As mesas seriam decoradas de garrafinhas pequenas e em seus rótulos estariam impressas as letras b, e, b, a, hífen, m, e. Nos bolinhos de xícara haveria bilhetes com um “coma-me” meio inclinado, dando a entender que o ato de comer poderia ser perigoso demais. Eu colocaria coelhos brancos pelos campos e o meu pai, vestido de chapeleiro maluco, ainda que não muito feliz com a ideia, recepcionaria os convidados. Minha mãe ouvia tudo em silêncio, distante desse planeta que vivemos e, também, daquele que Alice inventara e eu tanto gosto. Quando estava quase chegando ao fim de toda minha idealização festiva, ela olhou meio cabisbaixa para os meus pés descalços e me disse: “você sonha alto demais, menina”. Entendi o que minha mãe queria dizer, na verdade; nós não teríamos dinheiro para nem metade daquela festa. Mas, de uma forma ou de outra, eu não me importava se ela iria mesmo acontecer. Queria apenas sonhar e planejar e fingir que seria de verdade. Aquela festa poderia não se concretizar quando eu completasse meus tão esperados quinze anos, desde que acontecesse um dia, mais tarde. Preferiria que minha mãe dissesse que não tinha condições nenhuma de me dar toda aquela parafernália, ao invés de protestar que eu era pequena demais para tanta fantasia. Aquelas palavras foram a gota d’água em um balde que nunca precisou de muito mais que isso para transbordar.
Naquele dia, decidi que as pessoas poderiam palpitar sobre o comprimento da minha inseparável franja, a cor das minhas unhas, a quantidade de maquilagem nas pálpebras e muitas outras bobeiras, mas nunca, jamais receberiam o aval para opinar sobre o tamanho dos meus sonhos. As minhas idealizações não seriam mensuráveis, os meus pés não ficariam no chão quando o assunto em questão fosse fantasiar.
Eu vou sonhar, voando, porque não tenho medo nenhum de cair. Tenho medo é de viver para sempre conformada com o que vocês delimitaram permitido pra mim. O céu é o limite, meus queridos. O céu e o País das Maravilhas. E eu vou até lá, se preciso for, pra continuar sonhando.

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