Passa um pouco do meio dia e, aos domingos, este é o horário mais movimentado do restaurante especializado em frutos do mar. O estabelecimento fica há treze quilômetros da cidade grande, num rancho cercado por quatro lagos em que se é permitido pescar em nome da diversão e um bosque repleto de seringueiras onde os visitantes deixam seus automóveis à sombra das árvores. No teto alto, ventiladores misturam as brisas de suas elicies às dos ventos matutinos da mãe natureza. Crianças correm em volta das mesas postas para o almoço, servido até as dezesseis e, vez ou outra, um funcionário é obrigado a desviar com cautela a bandeja bem equilibrada em uma de suas mãos dos pequenos corpos agitadíssimos e desatentos. A música ambiente vai de jazz à bossa nova e não é sempre que se consegue distinguir essa daquela, devido ao barulho dos falantes presentes.
A porta principal se abre. Uma garota de aparentes vinte anos e longos cabelos castanhos claros, acompanhada de um casal mais velho e um garotinho, adentra o local sorrindo; arruma a alça dobrada do vestido claro e solto do corpo; dá alguns passos em direção a provável única mesa vazia do local; estica o pescoço a procura de outra mais afastada da entrada; coloca a bolsa vermelha na cadeira a sua frente e pede para que todos aguardem sentados. Ziguezagueando entre lugares ocupados, em busca de algum que não esteja e a deixe mais perto do lago, atrai a atenção do garçom jovem e de cabeça raspada que há pouco serviu conhaque para um senhor de cabelos brancos. Galante e lisonjeiro, ele a olha passar, mas a moça, distraída, não retribui e vai ao encontro dos parentes que a esperam.
O homem a segue e assim que a vê se acomodar à mesa, se aproxima saudosamente oferecendo o cardápio às mãos pequenas da garota. Ele, que não nasceu em nossas terras, é rapidamente descoberto pelo sotaque latino-americano como um estrangeiro. Ela, encantada com a língua que os difere, finalmente o fita de olhos receptivos. Agora juntos, os olhos do moço, claros, quase verdes, reluzem o brilho dos da menina. Ela tem um rosto bonito, angelical, quase porcelana; ele se parece com personagens anti-heróis de filmes em preto e branco, que não envelhecem nem deixam de arrancar suspiros femininos. Encaram-se por longos segundos, até serem interrompidos pelos pedidos do senhor à mesa. O garçom anota tudo calmamente e, sempre que possível, com a caneta ainda apoiada no bloco de papeis azuis em sua mão, volta a olhar para a moça. Ela retribui os olhares sorrindo e só se distrai do rapaz ao seu lado para ouvir o que o garotinho em sua mesa cochicha com a mãe. O menino pergunta se pode brincar no escorregador perto dos carros estacionados e, com o consentimento da senhora, se afasta da família ao mesmo tempo em que o garçom, com os pedidos já escritos, se encaminha para a cozinha.
O almoço, devido ao movimento ininterrupto do restaurante há essa hora, demora cerca de quarenta minutos para ficar pronto e é nesse tempo mesmo curto que a garota de sorriso fácil e o trabalhador estrangeiro se apaixonam sem saber. Fitam-se discretos e riem por dentro quando os olhos se encontram em meio às bandejas pratas, passando de um lado para o outro. Idealizam-se cientes do tempo contado. Amam-se em silêncio, em segundos, em sorrisos; amam o tom da pele, o jeito de andar e mexer as mãos, a fala distinta de quem não nasceu junto, mas pode ficar.
A tarde começa a cair e o restaurante, agora não tão cheio, é tomado pela brisa da chuva que virá em breve. A família da garota, já sem fome, se prepara para partir. Ela, ainda que queira, não os convence a ficar mais. O rapaz, ainda que anseie, não se aproxima para pedir que ela volte. Encaram-se pela última vez, se eternizando no brilho do olhar. Sabem, no fundo, que bom mesmo é amar assim, em instantes, sem ter tempo pra partir o coração um do outro. Oferecem, agora, o único amor que têm disponível, aquele que acaba antes mesmo de começar; aquele que, por nunca ter acontecido, é incapaz de machucar.

Nenhum comentário:
Postar um comentário